12 Notas de um romance sobre aborto – ‘Vitória’, de Giovanni Arceno

Gosta de literatura nacional contemporânea? Saiba porque ler (ou não) Vitória, de Giovanni Arceno

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Vamos expor todos os supostos defeitos. Depois você vai entender o porquê [ver nota 3].

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Imagine um romance no qual a história gire em torno de um aborto. Agora pense que este livro não trata da discussão abortar ou não. E ainda assim é bom. Mais um agravante: o aborto é contado a partir da visão de um homem. Absurdo, né? E ainda assim é bom. Aparentemente, a personagem-feminina-destaque faz o tipo meio desmiolada, meio porra louca, que parece o único estereótipo feminino que escritores homens brancos privilegiados sabem criar. E ainda assim é bom.
Porque não é nada disso.

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Comecei pelos supostos defeitos, pois eu não devia escrever uma crítica sobre Vitória, o descabaçamento literário primeiro romance do Giovanni Arceno (Editora Oito e Meio, 2017. Ver aqui!). Não devia, pois, ele é um dos meus melhores amigos. Já fizemos uma trip de carro para Buenos Aires, na qual vi ele fumar um cigarrinho de artista com o cu na mão de medo “dos homi” e por aí vai. Mas o tempo passa e as coisas mudam.

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Dá uma olhada nisso:
“No dia em que Vitória me disse que tava grávida foi um inferno do caralho. Ligou fim de noite, umas onze horas, e perguntou se eu tava ocupado, se podia atendê-la. Achei estranho ligar assim do nada, já que nosso caso tinha terminado fazia umas duas semanas. Essa aparente tentativa de reaproximação me deixou impaciente e fez com que eu perguntasse o que ela queria afinal, com tom de fim de conversa. Vitória disse que tava grávida, não sei se pausadamente de propósito ou se fui eu quem ouviu dessa forma, a frase separada por sílabas: tô-grá-vi-da.”
– Página 9 do romance Vitória, de Giovanni Arceno.

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A leitura é rápida, texto fluído, coisa que leitor velocista lê em uma sentada. Você começa com o protagonista – Danilo, um guri de apartamento [ver a próximo nota] aí na casa dos 20 anos – que recebeu a notícia da nota. A mina (se chama Vitória) que ele saía estava grávida. Rola aquele papo de vamos-não-vamos contar pros pais, mas Vitória quer abortar. E o Danilo promete dar a maior força e talz. Compra uns comprimidos pela Internet para ela abortar. Só que sempre fica um clima de ela acusar ele de vacilão etc. Este é só o mote. Há muito mais coisas rolando. Um namorado anterior de Vitória, Danilo no presente vivendo uma outra relação, com uma tal de Marcela, porém tentando matar as memórias que o perseguem desde o passado e por aí vai.

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Nem parece ter sido escrito pelo mesmo cara que conheci há quatro anos atrás. Apaixonado por Cortázar, imitava desgraçadamente o estilo do cara.  Se comia de ansiedade pelas mãos. Estava sempre preocupado em lançar uma obra realmente relevante, perdendo o maior prazer da escrita, o desenvolvimento.

Giovanni Arceno, o culpado por este livro.

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O Giovanni atual tem um puta radar para captar o mundo ao seu redor. Um dos pontos fortes do Vitória é um sem-número de descrições bem feitas. Começa pelo ambiente de trabalho do protagonista e as festas com os colegas de empresa. Depois o contraste entre os ambientes. Os apartamentos do Danilo e da Vitória, assim como as casas dos pais de cada um. Aliás, uma das melhores cenas do livro é uma em que o protagonista chega na casa dos pais, então seu pai o convida para ir ver o caminhão novo que adquiriu. Danilo está pronto a negar, no entanto vê nos olhos da mãe um apelo para que vá. É simples é cativante, poético até.

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10/12/2016
A curiosidade me leva a Joinville por outros motivos (que não caberiam nesta resenha, por causa do horário). Aproveitei para almoçar com o Giovanni. Ele me levou a um restaurante que deve ter a mesma decoração desde a época que o Collor era presidente. Fazia mais de um ano que não nos víamos. Foi assustador. Num contraste absurdo com o cara que conheci anos antes, o Giovanni de agora parecia sóbrio e equilibrado (lamentavelmente, o cara até pediu Skol e soltou um “top” no meio da conversa). Eu, por outro lado, recém havia iniciado os antidepressivos e tentava me recuperar de uma das fases mais bêbadas e lastimáveis da minha vida. Me senti deslocado e meio nervoso. Comi muito mais do que em qualquer dia dos outros quatro meses anteriores. Era como se ele e eu tivéssemos trocado de papéis.

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Passei o final de ano teorizando sobre o que tinha acontecido com ele. A resposta é simples. Escreveu este livro. Ninguém passa ileso pela escrita de um romance.

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As personagens femininas com mais evidência merecem uma nota. Vitória é bastante complexa. Diferente do que propus no começo, sobre o único estereótipo feminino que escritores homens brancos  parecem saber criar, ela possui a inconstância e as incoerências de um ser humano. Acreditamos nela porque acreditamos nos conflitos dela. Independência dos pais, querer ou não ter a criança, tratar Danilo como o moleque que é etc. Diferente de Marcela, que trabalha na imobiliária da família (embora não precise) e apenas aparenta querer ser perfeita em tudo que faz. É como se fosse uma sombra, não uma pessoa. E isso seria uma crítica, caso o livro não fosse narrado em primeira pessoa. Afinal de contas, mesmo estando com Marcela, Danilo não deixa de pensar em Vitória e na filha que poderia ter tido. É natural dar mais destaque para ela. Bem coerente.

Vitória, de Giovanni Arceno (Editora Oito e Meio, 2017)

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A soma do livro é uma obra intensa, mesmo sendo breve. As possibilidades de interpretação nunca se fecham e tem um daqueles finais abertos que funcionam. Uma excelente estreia essa do Giovanni Arceno. Recomendo.

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E o mais importante: o livro tá à venda no site da Editora Oito e Meio, uma casa editorial que apoia pacas a literatura contemporânea. Então senta o dedo nesse link aqui e compra. Tô falando. Vale à pena.

 

Vilto Reis Author

Escritor, Editor-chefe do Homo Literatus, Diretor da RUSGA - Cursos Para Escritores, Publisher da Editora Nocaute e autor do romance Um gato chamado Borges (Nocaute, 2016).