A ficção antecipou os absurdos atuais – E você não percebeu!

Antes do conhecido 1984, de George Orwell, um romance publicado em 1885 por Émile Zola expôs um pouco do que o mundo se tornaria hoje. E o filme Ele Está de Volta também tem a ver com isso.

Ele Está de Volta (2015), direção de David Wnendt

Geralmente 1984 é, se não a primeira, uma das obras que nos vêm à mente quando se trata de crítica social. Ainda assim, o que não faltam são críticas, análises, spin off e derivados para tentar de novo e de novo nos convencer de que o universo de Orwell não era lá tão distópico assim. Mais recentemente, até mesmo os memes entraram na dança, tirando sarro de nós por não termos jamais levado a obra realmente a sério, chegando até mesmo a subestimá-la.

Acontece que mesmo antes de 1984, bem antes mesmo, lá para 1885 Émile Zola já tinha dado um grito de aviso bem alto. Apesar de Germinal ser uma obra praticamente sem qualquer associação com nossa realidade atual, e mesmo difícil de relacionar a qualquer outro universo – com certeza o desenvolvimento do enredo se dar em uma mina de carvão limita um pouco a identificação -, é exatamente ai que está muito da força da obra.

Narrar a revolta de mineiros contra o sistema opressivo que gradualmente os levava à morte por intoxicação, inanição, fadiga – isso quando não morriam soterrados em mais um desabamento por falta de estrutura – não é narra apenas isso. O enredo engloba uma série de sentimentos humanos – até primitivos, por vezes – que são levados cada vez mais ao extremo de sua capacidade até que, em um óbvio fim trágico, as emoções explodem e tudo vem a baixo, inclusive fisicamente.

A fraqueza do sistema repressivo, seja ele instituído de forma física ou tecnológica, é inquestionável. Ainda que se tratam de narrativa fictícias, isso não diminui um décimo da sua verossimilhança. Quando muito, nos faz pensar em como nada disso aconteceu ainda, ou pelo menos como não ficamos sabendo de nada parecido.

Ainda assim, mesmo com todas as tentativas frustradas de se fazer ouvir e de nos preparar, a literatura deu, recentemente, um suspiro de esperança. Suspiro não, algo mais como um sopro, afinal a obra virou filme – que ainda que não tenha ido para o cinema, está na Netflix o que é quase a mesma coisa.

Um cara chamado Timur Vermes, por motivos que eu talvez prefira não entender, resolveu imaginar como seria se Hitler acordasse na Alemanha de 2011 exatamente como ela era – sim, com Merkel no poder e tudo. O problema de Ele Está de Volta é que o autor fez isso de forma tão detalhada e elabora que é difícil, em certas passagens, convencer-se de que nunca mais nada como o Nazismo ou o Holocausto poderiam acontecer.

Até que você fecha o livro por um momento e vê as notícias que rodam nas redes sociais, liga a televisão e o noticiário te conta o banho de sangue que anda acontecendo pelo mundo, e de quem recentemente foi eleito à presidência da maior potência mundial: um cara cheio de ideologias, que fala de forma categórica até quando expressa um preconceito, seguido de boa vontade por milhões, e que não valoriza ninguém que não faça parte desses milhões. 1984, Germinal, Ele Está de Volta e inúmeras outras obras conhecidas ou não, que tentaram avisar a todo mundo que ia dar m****. E se a literatura não já tinha consciência do quanto era pouco valorizada, após tanto tempo de gritos no vácuo é impossível que agora não saiba.

Laís Calusni Author

Laís Calusni cursa Estudos Literários na Unicamp, e já perdeu as contas de quantas vezes ouviu "Ah, então você gosta de ler?!". Trabalha como revisora e tradutora de textos acadêmicos e para editoras. E sim... gosta de ler !