A formação do escritor

É possível viver da escrita sem se preparar para ela?

Nos últimos anos, tem se falado muito sobre a profissionalização do escritor. Várias discussões foram lançadas a partir da pergunta: é possível viver de literatura no Brasil? Há uma voz quase unânime afirmando que é possível viver da arte da escrita apenas produzindo um tipo de literatura com um potencial consumível em um mercado editorial que dita as leis de gosto e preferências, ou seja, uma literatura comercial e completamente sujeita às leis de mercado. Seria possível ganhar a vida assim, dentro desse formato. E que se pode fazer bons livros nesse meio.

Porém, em um segundo momento, o que tenho ouvido é, de um lado, um grupo de vozes que afirmam que o fazer literário deve mesmo ser uma prática isenta do mercantilismo, fazendo com que escritores tenham outra fonte de renda e que a literatura deve se estabelecer como uma fruição livre de ser um produto, e que a grande arte não pode se render ao consumismo, até porque viver de literatura é uma utopia jamais realizável.

De outro lado, vejo escritores que dizem que é possível sim viver de literatura, mas não apenas da escrita ficcional. A escrita do livro seria apenas um dos momentos desse “viver da escrita”, prática que dividiria espaço com tradução de obras estrangeiras, escrita de textos para colunas em jornais e periódicos da área, presença em eventos literários e programas de radio e tevê, gravação de vídeos para o youtube, manutenção e atualização das redes sociais, editoração e revisão de materiais, escrita de prefácios e orelhas de livro, entre outros.

Evidentemente, essa é uma discussão que demandaria mais espaço do que esse ensaiozinho tem. Teríamos que levar em consideração inúmeros fatores, contrastar números e opiniões – talvez em outra oportunidade. Chamei a atenção para esse assunto justamente porque a preocupação, deveras importante, é com o pós-literário, ou seja, com a carreira do escritor, com o retorno depois da obra escrita, mas quase não se fala do pré-literário, da formação desse escritor. Não se fala da preparação desse escritor, o que ele estudou e fez para chegar ao ponto de escrever um livro. Dizer que o sucesso para ser um bom escritor é ser um bom leitor é pouco e raso. Há que se preparar muito mais para a escrita do que “apenas” ler boas obras.

Historicamente, a literatura era produzida por profissionais oriundos de outras áreas, como direito, mais marcadamente no século XIX, e jornalismo, mais marcadamente no século XXI – até porque o curso de Letras é bem mais novo em comparação com esses outros. Fazia muito sentido que profissionais dessas áreas se interessassem pela literatura pelo fato do trabalho e elaboração da linguagem e, durante muito, tempo, eles dominaram o campo da produção literária, com contribuições tímidas de pessoas de outros campos do saber.

Um amigo uma vez me questionou:

– Luigi, gostaria de entender uma coisa: se o curso de música forma músicos e compositores, o curso de arquitetura forma arquitetos, só para dar dois exemplos, porque o curso de letras não forma escritores?

Foi a primeira vez que alguém verbalizou algo que já me incomodava há tempos. Vi vários alunos deixando o curso porque não terem contato com a prática de escrita de ficção. Eu mesmo senti que isso faltou na minha formação. Apenas dois ou três professores, fora do contexto de sala de aula, é que leram meus textos, opinaram e me incentivaram a continuar escrevendo. A maioria, quando sabia que eu me arriscava a rabiscar alguns versos e contos, franzia a testa como quem diz “ah desista, você não vai produzir nada tão bom quanto Machado ou Graciliano, então desista disso”.

Essa resistência à escrita criativa de ficção ainda acontece em muitas universidades brasileiras. Agora ela começa a aparecer timidamente em alguns pontos remotos do nosso território, enquanto que nos Estados Unidos e Europa a escrita criativa é uma realidade há décadas. Evidentemente que o curso de Letras é um curso muito grande que deve atender a várias demandas (linguística, análise do discurso, tradução, teoria literária, crítica literária, estudos culturais, ensino de língua materna, ensino de língua estrangeira, ensino de português para estrangeiros, linguagens e educação etc.). Mas então porque a escrita criativa não pode ser uma dessas demandas? Talvez ela seja uma dessas correntes nos próximos anos, pois há um aumento nos grupos de pesquisa em escrita criativa (faço parte de um na Universidade Estadual de Londrina), disciplinas optativas oferecidas e até mesmo cursos de graduação e pós-graduação. E mesmo que, em geral, não se estimule a produção literária nas academias, o contato com elementos da narrativa, história da literatura e crítica pode “facilitar” o caminho de um escritor rumo a sua obra.

Entretanto, não sou purista ao ponto de achar que a chancela da produção literária deva passar estritamente pelas academias e pelos cursos de letras, mas elas seriam um ponto importante de fortalecimento da formação do escritor, mesmo que haja pouco ou quase nada de conhecimentos específicos e técnicas de escrita criativa. Conhecer a teoria, ao contrário do que já foi dito, pode sim ajudar na produção. É claro que um diploma em letras não atesta a qualidade de um escritor. Mas nem um diploma de jornalismo, direito ou qualquer outra área. A única coisa é que o curso aproximaria o postulante a escritor de um conhecimento mais técnico.

Há outros caminhos, porém, para essa preparação. Ela poderia passar, e por que não, pelas oficinas de escrita criativa. Felizmente, elas vêm aumentando a cada ano no país, com a consolidação de núcleos de formação, principalmente com Luiz Antônio de Assis Brasil e suas três décadas de dedicação à escrita criativa no Rio Grande do Sul.

Apesar de o pré-literário, como disse, aparecer pouco nas discussões em relação ao pós-literário, a postura dos escritores em relação a suas preparações tem mudado bastante. Muitos deles, pelo menos falando da produção atual no Brasil, estão passando ou pelos cursos de letras, ou por pós-graduações em literatura, ou por cursos de escrita criativa. É um movimento interessante, pois mostra um panorama novo: o do escritor que, além de pensar em uma carreira consolidada, também pensa em uma formação que possa levá-lo até lá.

Para mostrar o panorama atual e a relação do escritor com sua formação, selecionei escritores, vivos, nascidos a partir de 1970 com alguma projeção nacional. Provavelmente eu devo ter me esquecido de algum e peço minhas sinceras desculpas. São muitas obras e escritores para dar conta. Nessa faixa de corte, então, autores como Alberto Mussa, Alexandre Vidal Porto, Amílcar Bettega, Ana Miranda, André Sant’Anna, Beatriz Bracher, Bernardo Carvalho, Bernardo Kucinski, Carlos Herculano Lopes, Chico Buarque, Cíntia Moscovich, Conceição Evaristo, Cristóvão Tezza, Dalton Trevisan, Edney Silvestre, Edyr Augusto, Elvira Vigna, Evandro Affonso Ferreira, Eugenia Zerbini, Ignácio de Loyola Brandão, Ivana Arruda Leite, João Anzanello Carrascoza, José Castello, Lourenço Mutarelli, Luci Collin, Lúcia Bettencourt, Luiz Antônio de Assis Brasil, Luiz Ruffato, Luis S. Krauz, Luciana Hidalgo, Luís Fernando Veríssimo, Lya Luft, Marçal Aquino, Marcelino Freire, Marco Cremasco, Maria Valéria Rezende, Marina Colasanti, Mário Prata, Martha Medeiros, Miguel Sanches Neto, Milton Hatoum, Nélida Piñon, Nuno Ramos, Oscar Nakasato, Patrícia Melo, Paulo Lins, Paulo Scott, Raduan Nassar, Raimundo Carrero, Reinaldo Moraes, Reginaldo Santos Neves, Rodrigo Lacerda, Ronaldo Correia de Brito, Rubem Fonseca, Rubens Figueiredo, Sérgio Leo, Sérgio Porto, Sérgio Rodrigues, Sérgio Sant’Anna, Silviano Santiago, entre outros, não participam da lista.

Abaixo, divido em duas categorias, a primeira com relação a formações na área, e a segunda constando escritores com conhecimentos em áreas afins:

 

Escritores com formação em letras, pós-graduação em literatura ou passagem por cursos de escrita criativa

Adriana Lisboa – Mestrado e Doutorado em Literatura.

Antônio Xerxenesky – Graduado em Letras e mestre em Literatura Comparada pela UFRGS.

Carol Bensimon – Mestre em escrita criativa pela PUC.

Chico Matoso – Formado em Letras pela USP.

Cíntia Lacroix – Participou de escola de Escrita Criativa.

Clarah Averbuck – Curso de Escrita Criativa.

Cláudia Nina – Doutora em Literatura.

Cristhiano Aguiar – Formado em Letras.

Daniel Galera – Fez cursos de escrita criativa com Assis Brasil.

Daniel Pellizzari – Curso de Escrita Criativa, editor.

Débora Ferraz – Doutorado em Escrita Criativa pela PUC.

Estevão Azevedo – Mestre em Literatura.

Fabrício Carpinejar – Mestre em Literatura Brasileira pela UFRGS.

Fabrício Corsaletti – Graduado em Letras.

Fernanda Young – Cursou Letras, embora não tenha concluído.

Henrique Rodrigues – Graduado em Letras, mestre e doutor em Literatura.

Jacques Fux – Doutorado e Pós-Doutorado em Literatura.

José Luis Passos – PHD em Letras.

Julián Fuks – Mestrado e doutorado em Literatura.

Laura Erbert – Formada em Letras, Doutora em Literatura.

Leandro Sarmatz – Mestre em Teoria Literária.

Letícia Wierszchowski – Curso de Escrita Criativa.

Luísa Geisler – Curso de Escrita Criativa.

Mário Rodrigues – Formado em Letras.

Micheliny Verunschk – Mestre em Literatura,

Natália Borges Polesso – Mestre em Letras.

Paula Fábrio – Mestre em Letras.

Reginaldo Pujol Filho – Mestre em Escrita Criativa.

Reni Adriano – Participou de oficinas de Escrita Criativa.

Ricardo Lísias – Tem graduação, mestrado e doutorado na área de Letras.

Rodrigo Rosp – Mestrado em Escrita Criativa.

Sheyla Smanioto – Graduação em Estudos Literários e Mestrado em Teoria Literária.

Socorro Acioli – Mestrado e doutorado em Literatura.

Tatiana Levy Salem – Doutora em literatura pela PUC.

Vinícius Jatobá – Doutor em Literatura.

Wesley Peres – Mestre em Estudos Literários.

 

Escritores em áreas afins como jornalismo, direito, outras artes e edição de livros etc.

Alexandre Marques Rodrigues – Formado em Psicologia.

Aline Valek – Publicitária.

Ana Paula Maia – Cursou Comunicação Social e Ciência da Computação.

André de Leones – Graduado em Filosofia.

André Timm – Publicitário.

Andréa del Fuego – Formada em Filosofia.

Antonio Prata – Roteirista.

Arthur Cecim – Graduado e mestre em Filosofia.

Carlos Henrique Schroeder – Editor.

Carola Saavedra – Jornalista.

Cecília Gianetti – Formada em Comunicação Social.

Cláudia Lage – Roteirista de Novela.

Cláudia Nina – Formada em Jornalismo.

Emílio Fraia – Editor e Jornalista.

Flávio Cafiero – Publicitário.

Franklin Carvalho – Formado em Jornalismo com pós graduação em Direito.

Gabriela Guimarães Gazzinelli – Graduada e mestre em Filosofia.

Javier Aracibia Contreras – Jornalista.

João Paulo Cuenca – Curador do projeto literário Amores Expressos e editor.

João Paulo Vereza – Formado em Publicidade.

Joca Reiners Terron – Arquiteto.

Kátia Gerlach – Formada em Direito.

Lívia Sganzerla Jappe – Formada em Jornalismo.

Luís Henrique Pellanda – Formado em jornalismo, colunista dos jornais Rascunho e Gazeta do Povo.

Luiz Biajoni – Jornalista.

Marcelo Ferroni – Formado em Jornalismo.

Marcelo Maluf – Graduado em Artes/Educação e mestre em Artes.

Marcelo Moutinho – Formado em Jornalismo e organizador de antologias.

Marcos Peres – Formado em Direito.

Maurício Florito de Almeida – Formado em Antropologia

Marcia Tiburi – Graduação, mestrado e doutorado em Filosofia.

Michel Laub – Editor da revista Bravo.

Miguel del Castillo – Arquiteto e editor.

Nereu Afonso da Silva – Formado em Filosofia.

Paulo Emílio Azevedo – Graduado em Educação Física.

Rafael Gallo – Formado em Música e Mestre em Comunicação.

Raphael Montes – Formado em Direito.

Robson Viturino – Formado em Jornalismo.

Rodrigo Ciríaco – Formado em História.

Rogério Pereira – Editor do jornal Rascunho.

Santiago Nazarian – Vendedor de livraria.

Sérgio Tavares – Formado em jornalismo e é crítico literário

Vanessa Barbara – Colunista da revista Piauí, cronista da Folha de São Paulo e tradutora.

Verônica Stigger – Jornalista com mestrado e doutorado na área de Artes.

 

Dos oitenta escritores selecionados, trinta e sete têm passagens por cursos de Letras, pós-graduações em Literatura ou escolas de Escrita Criativa, enquanto quarenta e três são oriundos de outras áreas.

Em tempo: não foi minha intenção aqui tributar nenhum demérito aos escritores que não têm formações na área de letras ou não passaram pelos cursos de escrita criativa. Pertencer a outras áreas do saber pode, inclusive, ser benéfico. Um arquiteto pode, por exemplo, descrever com maior propriedade determinado ambiente onde uma cena se passa. Um psicólogo, por sua vez, pode construir um perfil interessante e profundo de um personagem com algum desvio de personalidade. Assim sendo, um advogado pode ter mais propriedade para construir um personagem com uma potencialidade retórica. Tudo isso pode ajudar, não garantir, como pertencer a um desses cursos preparatórios pode também ajudar, não garantir.

Porém, quis atentar aqui para o fato da preocupação da formação do escritor e chamar a atenção para a discussão. Geralmente, nessa área, pode-se ter uma opinião mais profissional sobre o texto e técnicas para melhorá-lo. É claro, como diz Assis Brasil, que Flaubert e Proust não tiveram essa formação e mesmo assim produziram obras atemporais de grande qualidade. Contavam, para isso, com a ajuda de amigos que liam e opinavam. Não que seja ruim contar com ajuda de amigos, mas uma formação profissional pode ajudar nesse processo de diálogo e construção do texto.

Vão me dizer: “mas um editor ou um agente literário podem fazer isso”. Exato, podem. Porém eles vão identificar esse problema depois da obra ser enviada para análise, e muitas vezes o retorno que o escritor precisa não é dado por conta do número de obras originais que recebem. O retorno, quando acontece, é um “não”, não especificando qual o problema que a obra apresenta por não ter sido aceita. Uma maior preparação, com ajuda reflexiva no início, meio e fim da produção, talvez seja mais edificante. Talvez esteja errado nisso tudo, mas é o que penso.

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As informações biográficas sobre os autores foram encontradas em perfis nas redes sociais, matérias em jornais, sites oficiais dos escritores, páginas no wikipedia e, em alguns casos, conversando diretamente com eles. Por falta de atualização e escassez de informações, é possível que alguns dados de alguns escritores não estejam totalmente corretos. Caso encontrem, leitores e autores, algum dado que não seja atualizado, contatem-nos.

Luigi Ricciardi Author

Luigi Ricciardi é doutorando em literatura (UNESP/Araraquara) e vive em Maringá/PR. Publicou dois livros de contos Anacronismo Moderno (2011), Notícias do Submundo (2014) e Criador e Criatura (2015). Quando se trata de livros é oniomaníaco (para vinhos e cervejas também). Gosta de uma mesa de bar, bebida, risadas e filosofia. É tarado por literatura. E por viajar. Vive buscando estradas.