A humanidade de Antoine de Saint-Exupéry

A humanidade que Antoine de Saint-Exupéry descobriu na Terra dos Homens

Saint-Exupéry: “Vem. Eu te levo à Terra dos Homens”

No ano de 2015, Antoine de Saint-Exupéry se tornou um escritor público: toda a sua obra pode ser editada e adaptada sem custos com direitos autorais. O fato tornou O Pequeno Príncipe ainda mais famoso com remakes em cinema e edições a mil, ilustrando cadernos de escola, adesivos e cartões postais.

O que poderia aproveitar a leva e ganhar uma grande atenção é seu livro anterior, feito com as crônicas de suas experiências iniciais como piloto, o reflexivo Terra dos Homens, de 1939. Exupéry não era propriamente um aviador técnico, voar era um modo de ser. O nosso Antoine sentia toda a sua força ao planar, mas era a sua visão sobre a paisagem que marcava a sua experiência como única. Estas marcas, dificilmente repetidas em época de voos por instrumento, ficaram gravadas neste livro. Uma delas se destaca e é justa a sugestão de que, independentemente do trabalho que nos dediquemos, é o olhar poético quem nos faz.

Quem deu a lição a Exupéry foi o veterano do tráfego aéreo dos Correios, Guillaumet, eterno amigo seu e mestre. Quando o jovem aviador, recém-contratado para empresa, lhe pediu conselhos sobre como atravessar a Espanha, em um tempo em que as aeronaves sequer tinham teto coberto, Guillaumet abriu o mapa e mostrou o caminho. Contudo, em vez de falar das cidades e dos pontos de descida, de escala e de localização,  narrava sobre as pessoas que viviam ao longo daquele trajeto, “insignificantes fazendas”, “gente simples” e “trabalhadores rurais” e suas histórias com bichos, comidas e afazeres. As informações não valiam para o serviço, mas instruíam sobre aquilo que, entre todos os serviços, realmente importa.

Tempos depois, Guillaumet voou sobre os Andes e desapareceu. “Voltando do fundo da Patagônia”, conta Exupéry, “fui ao encontro do piloto Deley, em Mendoza. E nós dois, durante cinco dias, esquadrinhamos aquela confusão de montanhas, sem descobrir coisa alguma. Nossos dois aparelhos não bastavam. Parecia-nos que cem esquadrilhas, navegando cem anos, não acabariam de explorar aquele enorme maciço cujos picos se erguiam até sete mil metros. (…) Já sentia que não estava mais procurando você: velava o seu corpo, em silêncio, numa catedral de neve”. Dois dias depois, pessoas da região anunciaram que encontraram um homem caminhando já sem forças na estrada de São Rafael. Quando enfim resgataram Guillaumet, ele quase não tinha consciência, mas conseguiu expressar uma frase que Exupéry passou a considerar a mais importante já escutada: “O que eu fiz, palavra que nenhum bicho, só um homem, era capaz de fazer”.

O experiente piloto fora pego por uma tempestade e fez um pouso forçado em um lago, no meio dos Andes. Passou quarenta horas se abrigando do frio entre as sacolas dos Correios. Caminhou sem rumo a quarenta graus abaixo de zero. “Do segundo dia em diante meu trabalho maior foi procurar não pensar. Sofria demais, minha situação era desesperada demais. Para ter a coragem de andar, precisava não pensar nisso. Desgraçadamente controlava mal o cérebro (…) Fazia-o pensar em um livro, em um filme. E o filme e o livro desfilavam dentro de mim depressa: voltava à realidade da situação presente. Então eu jogava ao meu cérebro outras recordações para que ele fosse se entretendo”. Sobre o terceiro e o quarto dia, Guillaumet conta a motivação do seu progresso: “A gente perde todo o instinto de conservação. Depois de dois, três, quatro dias de marcha tudo o que se deseja é o sono. Eu o desejava. Mas ao mesmo tempo pensava: minha mulher… se ela crê que estou vivo, ela crê que estou andando. Os companheiros creem que estou andando”.

Em dado momento, o piloto experiente cai sobre a neve, em uma vontade deliciosa de dormir. Sabe que assim morrerá, mas é uma sedução do seu corpo para por fim à própria miséria. Olha para o lugar onde quer repousar, mas pensa ainda que ali o seu corpo dificilmente seria encontrado. Vaidade, dignidade? Não, a explicação é que, em caso de desaparecimento do cadáver, a morte legal só seria declarada quatro anos depois, e apenas assim a apólice de seguro seria liberada à sua mulher. Ela não poderia esperar tanto. Guillaumet precisava morrer em um pico. Para alcançá-lo, simplesmente andou mais duas noites e três dias.

Na busca de um lugar para o seu corpo, o piloto foi encontrado. Como foi mesmo que ele conseguiu estar vivo é uma questão para todos nós. O homem então não é apenas a sua fisiologia? Não era para seus órgãos pararem para além de toda e qualquer vontade própria? O que o funcionamento do seu sangue e dos seus rins, sem comida por cinco dias, tem a ver com a sua consideração pela mulher e pelos companheiros? Qual é então o limite, que nos retira dos bichos e nos põe como homens?

“Quando eu progredia ao longo de uma encosta vertical”, diz Guillaumet, “o coração me caiu em pane… Hesitou, deu mais uma batida… Uma batida estranha… Senti que se ele hesitasse um segundo mais seria o fim. Fiquei imóvel, escutando… Nunca – está ouvindo? – nunca, num avião, me senti tão preso ao ruído do motor como, naquele momento, às batidas do meu próprio coração. E eu lhe dizia: Vamos, força! Veja se bate mais… garanto-lhe que é um coração de boa qualidade. Hesitava, mas depois recomeçava, sempre… Se você soubesse como tive orgulho de meu coração!”.

E assim prossegue a humanidade pela Terra dos Homens.

Saulo Dourado Author

É escritor e professor e vive na Bahia. Mestre em Filosofia pela UFBA, publicou os livros de contos "O Autor do Leão (2014)" e "O Mar e Seus Descontentes (2016)", além de histórias infanto-juvenis, como colunista do Jornal A Tarde. Escreve sobre literatura com o prazer de quem bem conversaria uma tarde depois de cada leitura.