A leitura está morta!

Ler e se desesperançar, ler e denunciar, ler e se decepcionar, ler e compreender a vida ativa: o livro também há de ser uma possibilidade de perigo

Não, eu não falo em nome dos editores que procuram alguma saída nas vendas avulsas, quando os governos não compram mais grandes lotes e o comércio virtual toma parte do mercado. Tampouco represento os livreiros que, para incrementarem a venda e o aluguel em pontos de shopping, comercializam eletrônicos e brinquedos, adiando mais uma vez a fatura da consignação para fornecedores. Também não quero agora figurar como um dos escritores que veem seus títulos riscarem o céu das mídias e dos comentários gerais apenas dias antes e dias depois ao lançamento. Falo curiosamente como um leitor que, vez ou outra, pensa em uma frase de Nietzsche: “Deus está morto!”

Em uma das aparições da máxima do filósofo alemão, brilha o aforismo 125 de A Gaia Ciência, “O homem louco”, no qual um tipo Diógenes, o Cão, porta uma lanterna à procura de Deus, mas sem ouvir senão os risos de seus concidadãos ante sua busca, declara irado que Deus está morto e que foram todos eles os assassinos. Não se trata aí – leitura minha – de vaticinar que Deus não exista ou não interesse mais, e sim de apontar que o modo como se passou a encarar Deus tornou a criação tão imóvel, moralista, burocrática, em um elo arrogante entre criatura e criador, que a vitalidade divina se dispersou. O brado do homem louco é um alerta para tomarmos o sagrado em sua inteireza, cheia também de pulsões, caos e danças, e é esta a vocação do futuro.

Sei que esboçar teologias não é o caminho mais eficiente para tratar de leitura em nosso país, mas a filosofia do martelo hoje me acerta: é preciso quebrar a moralidade em volta do livro para que, em um dos caminhos, mostremos sua vitalidade. Vejo em feiras, em escolas, em matérias, em programas públicos, a literatura ser sinônimo de Bondade, de Filho Bem Visto, de Expectativas Atendidas, para atrair os bons. É uma estratégia que funciona para as crianças (a maioria de classe média e média alta, neste caso) que ainda têm uma relação de resposta direta aos pais e se veem protegidas em uma redoma, tanto que são as pessoas entre 6 a 13 anos o público de maior leitura espontânea no Brasil e de compras em eventos de colégio, por exemplo. “Onde estão os mais velhos?”, pergunto. “Ah, eles nem se aproximam mais…”, responde alguém da organização. Fico no espanto: em qual passagem de idade aquele que procura livros vê agora o cenário de longe, de cabelos maiores, cheio de espinhas e sarcasmo?

Talvez a perda aconteça no mesmo momento em que, do pré-adolescente ao jovem, um pensamento perverso venha à mente, ou uma vontade de mando, uma veia agressiva, um desejo fino de traição… É o instante de separação do mundo dos pais, do universo das orientadoras pedagógicas e dos contadores de histórias com vozes mansas, cisão tão bem descrita por Sinclair ao conhecer a marca de Caim, nos primeiros capítulos de Demian de Hermann Hesse. Aliados à Claridade, às Luzes, à Bondade, parecem estar os livros, e quem tem dedos tomados de sombras não pode mais manuseá-los. “Chatos”, como conselhos genéricos de alguém mais velho, “pura mentira, ficção”, porque não dizem mais das nossas contradições e malícias. Por sorte, alguns garotos e algumas garotas descobrem brechas através de livros desaconselhados, de pura fantasia ou horror, ou mesmo boas bobagens que não edificam ninguém, para continuar o seu caminho na leitura. Outros tantos, contudo, despedem-se das letras, sem serem avisados que os livros podem mudar tal como eles e se tornarem companhia também para intimidades, para pensamentos sem lógica, segredos impublicáveis e lutas eternas da moral. Não era essa a via de sedução dos “livros proibidos” nas prateleiras dos avós?

O livro também há de ser uma possibilidade de perigo, porque é. Ler e se desesperançar, ler e denunciar, ler e se decepcionar, ler e compreender a vida ativa, real e de viés. Sim, saber que um ídolo da história hesitou e errou três vezes antes de tornar-se herói; sim, conhecer por personagens os pensamentos escusos de outros enquanto dialogam convencionalmente; sim, ver beleza em uma felicidade fora de consumo e saber que tantos sentem o que pensamos ser apenas nosso. Muitos saraus além do eixo, grupos de leitura em situações vulneráveis, professores em rede pública e privada já se arriscam e falam de literatura a partir do risco, e criam mais leitores e criadores do que cartilhas de instrução. O que deixaria a nós, pessoas de livros à mostra, sem chances de competição com uma série da Netflix não é só as imagens, a movimentação cheia de ação e os fóruns de internet, e sim o desperdício de verdades. Os livros são pura verdade.

A frase de Nietzsche parece dar coro ao pessimismo que tomaria conta de várias correntes de pensamentos após o século XIX, mas é mais uma alteração de rota. Eu também estou longe dos anúncios apocalípticos, mesmo com os dados do Ibope e do Instituto Pró-Livro em 2016, informando que 30% dos entrevistados nunca compraram um livro e que 67% afirmarem não ter escutado um único estímulo à leitura durante sua trajetória. Apenas penso em martelos contra rotas que ainda podemos alterar. E assim, não, também não falo como partidário da dessacralização do livro, quando a ideia da facilidade faça atrair mais, quando o lúdico seria um artifício e não uma gaia ciência, uma alegria em todo o ser que transborda. Quem sabe uma sacralização profunda, anímica, primordial?

Saulo Dourado Author

É escritor e professor e vive na Bahia. Mestre em Filosofia pela UFBA, publicou os livros de contos "O Autor do Leão (2014)" e "O Mar e Seus Descontentes (2016)", além de histórias infanto-juvenis, como colunista do Jornal A Tarde. Escreve sobre literatura com o prazer de quem bem conversaria uma tarde depois de cada leitura.

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