A poesia do cotidiano escrita por Thiago David

As poesias do livro A poesia da notícia, do poeta e compositor Thiago David, foram inspiradas em manchetes que marcaram a vida de todos nós

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Thiago David, autor do livro “A poesia da notícia” (Oito e Meio, 2016)

Ao lermos A poesia da notícia, de Thiago David, ficamos com aquela sensação de que as poesias são familiares. Não por serem “mais do mesmo”, semelhantes a outras já escritas, mas porque elas foram inspiradas em notícias que permearam nosso cotidiano, pois estavam estampadas nos jornais entre o primeiro dia de janeiro de 2014 e o último dia de dezembro desse mesmo ano.

O poeta escreveu seus poemas a partir da leitura de manchetes que marcaram o coletivo, sobretudo o coletivo brasileiro. No livro, encontramos lutos, raivas, revoltas, angústias, inquietações e até opiniões subjetivas do eu-lírico, originadas a partir de sua indignação e inconformismo.

A poesia de Thiago David vai contra a indiferença no que diz respeito às questões sociais, pois o ele não faz questão de se abster de comentar sobre nenhum assunto. Encontramos poemas de notícias com as mais diversas temáticas. O próprio livro, inclusive, possui um esquema interessante de organização, o qual se divide em: “Cotidiano e sociedade”; “Policial”; “Política”; “Eleições”; “Internacional”; “Esporte”; “Cultura”; “LGBT”; “Racismo”; “Mulher”; “Saúde”; “Meio Ambiente”; “Ciência e Tecnologia”. Em seguida, além dos agradecimentos, há as referências das notícias que inspiraram o autor a escrever suas linhas poéticas.

A poesia da notícia é um livro que escancara a poesia do cotidiano, que “poemiza” a notícia, às vezes com ironia, demonstrando que poesia está em todos os cantos, não apenas nas coisas belas e nas desilusões amorosas. De modo geral, essa obra literária lança um olhar sensível para as causas sociais por meio de uma escrita tremendamente crítica e até mesmo permeada pela indignação. O poeta escreveu uma poesia mais próxima do real, de forma verossimilhante; deu um toque artístico para as manchetes de nossos jornais.

Os versos deste livro falam, dentre tantos temas, sobre os trabalhadores que batalham para ter ao menos seus direitos básicos e sobre os políticos corruptos, que se esquecem que deveriam representar essa classe trabalhadora. Tratam da voz silenciada dos trabalhadores que nossos governantes a ignoram.

As poesias falam, também, sobre a violência, a física e a institucional. Sobre a falta de segurança, a qual acaba por gerar até mesmo o medo constante da morte. Muitas vezes, ao sairmos nas ruas ou até mesmo dentro de nossa casa, temos a impressão de que não estamos seguros.

A eterna repetição das manchetes também não é deixada de lado. A prisão desde sempre é vista e colocada nos textos jornalísticos como meio de educar, mas o que muitos não percebem é que “a prisão é só calabouço / e fermento para uma raiva que enerva” (DAVID, 2016, p. 23), ou seja, não é meio de segurança dos cidadãos.

A cegueira da justiça não deixou de ser “poemizada” no livro de Thiago David, nem mesmo a questão da justiça seletiva que tateia de modo subjetivo na sociedade. Justiça que se aplica, na maioria das vezes, aos mais fracos, aos menos poderosos financeiramente.

O gigante que acordou é classificado como uma brincadeira “que tentou se fazer valer como verdade”, “[…] foi um estado passageiro” (p. 37) e incapaz. Além disso, é mencionado o direito de manifestações durante a Copa: poderíamos nos manifestar, desde que o barulho não fosse muito, não chamasse tanta atenção, era o momento de manter as aparências, ser passivo, patriota, nacionalista e torcer de forma comportada por nossa seleção.

Ao tratar do trabalho escravo, as poesias nos lembram que é importante vermos as pessoas como seres humanos, ou seja, ser gente e enxergar o outro como gente. É necessário que nos defendamos mutualmente, e que o país deixe de ser “o eterno museu dos maus tratos diários” (p. 45).

A figura da mulher está presente nos versos desse curioso livro de poemas. Mas que mulher é essa representada? Aquela que espera chegar aos 30 anos para pensar em ter o primeiro filho, ou seja, aquela mulher dos novos tempos, que chegou com dificuldade, a qual deseja viver tudo que deseja e sonha, fazer sua carreira, beber suas cervejas, viajar sem passar por um filtro moralizante do outro. Essa mulher que “não há de querer uma vida, / desta que vive a fazer prantos”. (p. 99).

Outra temática interessante exposta é a respeito do questionamento sobre o que é arte e o que ela é capaz de fazer. Os poemas são remédios ou não são? Arte é armadura? Segundo os versos de Thiago, as bombas continuam desfazendo, matando pessoas, independente do verso.

O poeta nos chama atenção para a dureza dos dias, do peso de ser, pois viver é difícil em todos os âmbitos sociais, sobretudo para as minorias que são maioria neste país, mesmo isto parecendo ser contraditório. Para aqueles que sentem muito tudo o que vivenciam, os versos nos mostram que é necessário insistir na existência de afagos, para que acordemos descansados no dia seguinte que será longo e talvez traiçoeiro.

O que fica de conclusão a respeito de A poesia da notícia é que o mundo não é seguro para aqueles que são inocentes, que sentem demais, que se angustiam ao verem injustiças. Thiago David escreveu uma obra permeada pela sensibilidade e mostrou a nossa história e o mundo doente em que vivemos.

 

Referência:

DAVID, Thiago. A poesia da notícia. Rio de Janeiro: Oito e Meio, 2016.

Estela Santos Author

Editora e colaboradora do Homo Literatus. Mestranda em Letras - Estudos Literários na Universidade Estadual de Maringá (UEM). Mediadora do #LeiaMulheres. Twitter: @psantosestela