A religião celta e sua influência na literatura

StonehengeStonehenge – Solstício de verão

Os povos antigos, muitos deles chamados de bárbaros, nos deixaram um imenso legado cultural e científico, e são até hoje objetos de estudos. Eram amantes da guerra, pois acreditavam fortemente na vida após a morte e neste mundo apenas como uma passagem, o que pode nos levar a concluir que se sentiam, de certa forma, imortais, tornando-se por vezes, ainda mais corajosos e cruéis. Portanto, o conceito de morte para eles, não era o mesmo que o da idade moderna.

Os celtas foram um dos povos culturalmente mais ricos, e precederam os gregos e romanos. Infelizmente são pouco lembrados, devido a inexistência de dados e documentos originais, sendo hipotética grande parte da sua história. Sabe-se que foram um povo muito místico com uma cultura repleta de simbologias e lendas, e existiram por 19 séculos desde 1800 a.C. até o século I d.C. com a invasão romana, ocupando boa parte da Europa ocidental. A Idade do Ferro também é marcada pelos celtas, que teriam trazido pela primeira vez à Europa a técnica da fundição, a maneira de moldar o ferro bruto em outras formas desejáveis.

celtsIlustração de guerreiros celtas

São considerados por alguns estudiosos como politeístas, isto é, não acreditavam em um único Deus. Para os celtas a natureza era sua religião, e os deuses estavam em todos os lugares na vida cotidiana. Acreditavam na figura da Deusa-Mãe ligada ao culto da Mãe Natureza, e em divindades elementais (do ar, da água, do fogo e da terra). A divindade máxima era feminina, embora os celtas não fossem considerados uma sociedade matriarcal. Seus sacerdotes, chamados de druidas e tidos como sábios, exerciam forte influência na sociedade celta e o druidismo tinha dois grandes princípios: o respeito à Natureza e a crença na imortalidade. Os druidas por receio em deixar registros, faziam uso limitado da linguagem escrita e passavam oralmente seus ensinamentos de geração em geração. Não tinham templos, seus cultos eram praticados ao ar livre em campos e florestas, sendo a floresta de carvalhos a preferida, por ser esta árvore considerada símbolo da sabedoria. Nesses locais eram construídos círculos de pedra, sendo Stonehenge o mais famoso.

Mas estudos recentes defendem que esses círculos seriam na verdade observatórios astronômicos e não construções religiosas, o que faria do druidismo uma religião bastante influenciada pelas estrelas e pela observação dos astros. Achados arqueológicos confirmam que os druidas conduziam sacrifícios humanos, mas não se sabe as razões e a maneira como este tipo de cerimônia era realizado. Os celtas praticavam, portanto, uma religião primitiva ou pré-cristã, com características panteístas e animistas.

ritual_morte_celta_sepultamentoIlustração de ritual de sepultamento celta

Os mitos e lendas que cercam os celtas e sua religião influenciaram grandemente a literatura ocidental, em especial a literatura infantil e a ficção. A maioria dos contos de fadas tem origem nas crenças e lendas da civilização celta, embora tenham sofrido forte adaptação do cristianismo. Na verdade, os contos no início não eram somente destinados às crianças, mas também aos adultos. Eram narrativas que falavam de deuses, duendes, heróis fantásticos ou situações em que o sobrenatural predominava. Em uma das obras de ficção mais famosas da escritora Marion Zimmer Bradley, As Brumas de Avalon, a autora evidencia o poder feminino na estória de outra obra famosa: a do lendário Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda, escrito em versões pagãs e cristãs.

Os mitos estiveram sempre ligados a fenômenos da origem do mundo, do homem e a explicação mágica das forças da natureza. Um desses personagens mitológicos é o Mago Merlin, profeta e conselheiro do Rei Arthur, que seria um grão-druída. Sabe-se que na antiguidade os magos estavam ligados à habilidade que tinham em ler os astros e estrelas, e também ao ocultismo e à alquimia.

MerlinPersonagem Merlin na série Dragoon the Great, da BBC

Entre os povos celtas parece não haver exatamente referência às bruxas e sim às deusas e sacerdotisas. É mais provável que elas tenham recebido o nome de bruxas de forma pejorativa e adquirido uma definição estereotipada durante o período da Inquisição, para acabar com os cultos pagãos e o arquétipo do poder feminino. É bem possível que entre esses povos, as fadas fossem bem mais comuns, por serem fêmeas dos elfos, pequenos seres míticos da natureza.

Em sua origem, o Halloween, que foi trazido para os Estados Unidos pelos irlandeses, não tinha relação com bruxas. Era um festival do calendário celta da Irlanda, o festival de Samhain (fim do verão) na língua celta, que ia de 30 de outubro a 2 de novembro. O fim do verão era o ano novo dos celtas, uma data sagrada, onde era homenageado o mundo dos mortos (ancestrais) e dos seres divinos.

Nos tempos modernos, os estudos sobre a mitologia e as crenças primitivas da antiguidade se misturaram com especulações diversas, mas as descobertas sobre nossa ancestralidade são fascinantes, e quem sabe dela não se possa resgatar o que nos sirva como inspiração e nos torne melhores, a nós que acreditamos fazer parte de uma civilização evoluída.

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Um pouco mais sobre contos de fadas celtas nesta resenha da Professora Luciana de Campos.

Eliane Boscatto Autor

Formada em Ciências Sociais e Políticas, de natureza curiosa, acredita que não se deve ficar preso aos conceitos acadêmicos. Não é especialista em nada, mas se interessa por muitas coisas, em especial por tudo que cerca a Vida no planeta, seja humana ou não. Gosta das palavras, sejam elas em prosa ou verso.