Amor ao som de Rolling Stones 1/4

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Estava em casa, quieta no meu canto. Eu sei, um milagre, porque eu nunca paro. Mas estava num dos micromomentos de silêncio. E chegou o convite. “Dia 27 de março de 2010, na Igreja Nossa senhora Desatadora dos Nós, o casamento de…”. A priori, não deu para não sentir raiva. Infantilidade, não. É autenticidade. Alguns momentos depois me dei conta que ele jamais seria idiota de brincar com fogo daquele jeito e me mandar o convite do seu casamento pra mim. Foi aquela lastimável. Fiquei com pena dela, por ter que cutucar um fantasma o tempo todo, só pra saber se estava ali ainda ou se tinha ido embora. Devia viver assombrada, a coitadinha. Não estou sendo irônica, tenho dó mesmo. Nunca quis ser fantasma na vida de ninguém. Se tinha alguém que sobrava nessa história toda era eu. Além do mais, ela era tudo o que a vidinha dele precisava: professora, baixinha, loirinha, magrinha, cheira de inhos e sorrisinhos. A mãe dele devia ser uma verdadeira aficionada pela nora. Eu não tinha nada a fazer ali.

Eu, uma cantora da noite, com uma cerejeira cheia de flores tatuada nas costas, esmalte vermelho, cabelão preto, alvoroçado e sem um pingo da finesse que a sociedade alternativa em que eles viviam queria, não podia ser ideal para o grande consultor estratégico do Denver Group. E nunca estive nem aí pra isso. Não ia andar de escovinha no cabelo, esconder minha tatuagem com maquiagem, e viver uma vida que não tinha nada a ver comigo só por aparências. Muito menos cogitei deixar minha música, que embora nunca tenha sido colocada desta forma, é o meu emprego. E por aí foi o relacionamento mais bonito que eu já tive na vida. Tanto que nem me atrevo a comparar nenhum que tive depois a ele. Foi tudo que eu podia ter dado a alguém e tudo o que ele podia ter dado também deu a mim, tenho convicção plena disso.

Queria me sentir feliz por ele. Queria ser fria como alguns e soltar frases de efeito no estilo de “Cada um acha o que procura, fico feliz que ele tenha encontrado”. Queria ter não sentido absolutamente nada e ter simplesmente jogado aquele convite ridículo e cheio de babadinhos no lixo, junto com as malas-diretas que eu recebo de escolas de informática ou de idiomas. Queria ser capaz de não me importar.

Acontece que eu não sou. Não me senti feliz por ele: tive pena. Minha única frase de efeito foi “Sempre se metendo em problemas, Chris.” O convite? Eu peguei e guardei, porque já sabia o que eu ia fazer com ele. E já comecei a me preparar para bancar a assombração que aquela mocinha queria que eu fosse na vida dela.

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Ele entrou no bar, todo engravatado e ensacadinho, com o cabelo arrumado e uma aparência digna de Clark Kent, se ele não fosse menor e não tão bonito como o super-herói, e só queria comprar uma aguinha e voltar para o trabalho. Mas quando ouviu aquela moça linda, morena, com cabelos compridos e ondulados, segurando o violão, com uma calça preta e uma blusona folgada caindo pelo ombro, não deu pra comprar só a água. Pediu um suco para ver o que ela ia cantar. “Por favor, meu Deus, não deixe que seja Janis Joplin.” ele implorou, secretamente. “Eu não suportaria o clichê”. E ela já fez o que faria sempre desde então: não o desapontou.

– Pessoal, minha próxima música é bem antiga, mas eu adoro. Mick Jagger é perfeito pra uma sexta-feira à noite.

E começou a cantar Beast of Burden. (I’ll never be your beast of burden. My back is broad. But it’s all hurt. And all I really want it’s for you to make love to me. Am I hard enough? Am I rough enough? Am I rich enough? I’m not too blind to see. (…) Pretty, pretty, pretty, pretty, pretty girl. Pretty, pretty, such a pretty, pretty girl. – Eu nunca serei seu burro de carga. Minhas costas são largas, mas já estão machucadas. E tudo o que eu quero é que você faça amor comigo. Eu sou dura o suficiente? Sou rude o suficiente? Sou rica o suficiente? Não sou cega demais pra ver. (…) Linda, linda, linda, linda, linda garota. Linda, linda, que garota mais linda.)

O suco dele virou uma jarra e até uma ligação para o trabalho, dizendo que ele tinha passado mal e ia embora pra casa. Depois de cantar Beast of Burden, que fez até o mais sério dos homens – ele – se arrepiar – ela foi até o bar com seu violão, beber alguma coisa.O violão era tão velho, mas tão velho que tinha até um charme retrô. E não deu para ela não reparar nele.

– Um estranho no ninho. Está perdido, querido? – ela disse, bebendo uma coca-cola de garrafinha de vidro no bico mesmo, e olhando pra frente, com um sorrisinho simpático, mas nada insinuante. Só despojado, com um jeito de quem não parava de falar nunca, nem com quem não conhecia.

– Eu vim comprar um…pra…bom, beber e aí…Beast of Burden é minha música preferida.

– Fiz jus a sua permanência? – ele só fez que sim com a cabeça. – Eu toco aqui todos os dias. Nunca te vi. – ela terminou a garrafinha e a entregou para o barman, com uma piscada de agradecimento. Depois se voltou pra ele, apoiando a cabeça no braço, olhando para ele com interesse nos grande olhos…castanhos! Ela seria a perfeita heroína de contos de fada se tivesse olhos verdes amendoados e doces. Mas eram só de uma simplicidade brasileira e castanha.

– Eu trabalho na consultoria, não saio muito.

– Honra dupla. Saiu da toca e ainda gostou da minha música.

– Voz rouca, bonita. Tive uma ponta de medo de que você cantasse Janis Joplin.

– Eu nunca ia suportar o clichê. – ele deu risada da ironia daquela frase e pediu mais um suco.

Conversaram a noite toda, nos intervalos das músicas. A última que ela cantou, em homenagem ao convidado novo, foi um repeteco de Beast of Burden. Ela estava indo embora quando ele perguntou duas coisas que ainda não sabia:

– Qual seu nome e telefone?

– Na sua consultoria fazem shows de rock antigo? – ela perguntou dando risada e achando engraçado aquele interesse dele.

– Pode ser.

– Angela. 3558.4778

Ligou na segunda-feira. O telefone era de uma escola. Ela dava aula de música para crianças uma vez por semana, pelo que ele tinha entendido. E a escola simplesmente não podia passar para um estranho o celular da professora. Prometeram deixar recado. Que mulher era aquela? Cantava, ensinava, não era nada extraordinário, debaixo de sua excentricidade. E teimosa, se recusava prontamente a sair da cabeça dele. Mas que droga.

Finalmente retornaram da escola.

– Sr. Christiano, ela deixou um recado para o senhor. Quer que eu leia? – ele sussurrou algo e a secretária, em meio aquela situação, entendeu que era um sim. – “Caro Sr. Consultor Economista Importante das Colunas Sociais: fico lisonjeada com seu interesse, mas devo testá-lo mais um pouco para ter a certeza de que não se trata de uma pegadinha do destino comigo que alguém como você queira, de fato, saber mais sobre alguém como eu. Para facilitar, você tem meu nome e dois lugares em que eu trabalho. Meus telefones…essa fica com você. Prometo deixar os dois ligados e atender até o terceiro toque. Au revoir”

Ele teve uma crise de riso. Agradeceu a secretária e chamou seus membros mais chegados da equipe.

– Tenho uma missão importante. Quem descobrir os telefones de uma cantora que se chama Angela e trabalha no bar aqui da frente e na escola de música para crianças do largo da República ganha um bônus extra e dois dias de folga. Se, por acaso, alguém conseguir o endereço, ganha uma semana de folga.

Além de ter seus desejos atendidos, a eficiência daquele estagiário recém-chegado a companhia foi mais do que comprovada.

– Nome completo, telefones e endereço, senhor. – ele ouviu meia hora depois.

– Você acabou de ganhar uma efetivação. Saia para beber e comemorar. Não se atreva a acordar sem ressaca amanhã. Te vejo semana que vem como meu assistente.

Isso é que era bom humor. Angela Languela. O nome dela rimava. Tudo em ordem, hora de dar o próximo passo.

Internet. Singles raros. Enviar para o endereço. Escrever a mensagem do cartão. Selecionar embalagem especial. Aguardar.

Quando ela chegou em casa no dia seguinte, tinha uma encomenda em uma caixa dourada, bonita. Abriu. Era o single original de Beast of Burden, primeira gravação – datando quase da era paleozóica, imagine! – com um cartãozinho.

“Achei você. Seu nome rima, você só poderia ser uma artista. Nunca vou esquecer a versão mais bonita da minha música preferida. E para você não esquecer que esta é a minha música preferida, um presentinho especial. Meu telefone? Sem mais mistérios, está logo abaixo.”

Ela caiu num riso incontrolável. E o telefone tocou.

Angela.

Achei você mesmo?

Parece que sim. Às suas ordens.

Que tal um jantar?

Não deu pra ela dizer não. E depois daquele jantar, muitos se sucederam. Jantares, festas, festivais, saraus, encontros, passeios no parque, teatro e cinema. Eram inseparáveis e nunca tiverem uma discussão sequer. Só alguém que trabalhava tanto e tinha tão pouco tempo conseguiria entender alguém de espírito tão livre. E era exatamente por isso que dava certo. E teria dado certo pra sempre, não fosse o batizado da sobrinha dele.

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Continua…