Amor nos tempos de intolerância – e nos tempos avulsos

Um livro que pode responder se é possível encontrar amor nos tempos de intolerância – e nos avulsos

Victor Herginger / Homo Literatus
Victor Herginer/ google

Quando ouvimos dizer que o livro que leremos traz a história de um velho solitário que rememora os tempos de infância e a descoberta do amor, quase que imediatamente sentimos uma sensação de déjà-vu. Não são poucas as histórias que se utilizam desse mote – não que isso seja um demérito. Dom Casmurro do Machadão é uma delas, e é a primeira que me vem à mente. Mas o livro que me propus a resenhar aqui não tem nada de machadiano. Bem, talvez.

O amor dos tempos avulsos, de Victor Heringer, foi publicado em 2016 pela Companhia das Letras. O romance é finalista do Prêmio São Paulo de Literatura desse ano. Logo no início, temos a impressão de que se trata de uma leitura leve, bem humorada, quando o narrador diz que os subúrbios do Rio de Janeiro foram as primeiras coisas a aparecem no planeta e que, desabitados, juntaram muita poeira fazendo com que o homem passasse a existir para varrer as ruas todas. Um bom começo, uma antigênese quase.

O humor perpassa a história toda, mas à medida que o romance vai avançando, ele vai dando lugar a uma nostalgia marcada pela tristeza e também, em dado momento, pelo trágico. A narrativa se passa no bairro do Queím, tanto na infância quanto na vida adulta de Camilo, o narrador, oriundo de uma família comum do subúrbio carioca. Sofrendo de uma “monoparesia no membro inferior esquerdo”, o protagonista é obrigado, desde os oito anos de idade, a usar muletas para se locomover.

Um desenvolvimento avulso – talvez tenha a ver com amor

A chegada do menino Cosme à casa é o ponto de virada da narrativa. O pai de Camilo, médico que trabalhava para o governo (provavelmente para o DOPS), traz Cosme para morar com a família. A pergunta fica: filho bastardo de seu pai, ou um menino órfão de algum “subversivo” torturado e morto pelo regime? Sua chegada causa um repúdio da mãe de Camilo, que se fecha cada vez mais em seu mundo. Para o narrador, a repulsa é o primeiro sentimento, O amor odos homens avulsos - homo literatusjustificável por até então ele ser o único menino da casa. Sua irmã, entretanto, o recebe bem.

Tímido e deslocado, Cosme, aos poucos, vai se soltando e construindo uma bela amizade com Camilo e com os meninos vizinhos, em meio a jogos de futebol e brincadeiras na rua. Em sua descoberta do mundo e de si mesmos, tanto para Camilo quanto para Cosme, a intensidade do afeto se dá concomitante à intolerância, à incompreensão, à injustiça, à brutalidade e à tragédia. A relação de amor incompreensível aos olhos desacostumados com o não tradicional é “punida”.

Romance que utiliza elementos extraliterários (desenhos, fotografias e outros) e com um narrador ao mesmo tempo nostálgico e desiludido, O amor dos homens avulsos é com certeza uma das leituras mais agradáveis dos últimos tempos. Sem cair em armadilhas típicas dessas histórias, que facilmente derrubam escritores desatentos, Victor Heringer constrói um belo romance memorialístico e duro, temperando-o com golpes de pincel doce.

Luigi Ricciardi Author

Luigi Ricciardi é doutorando em literatura (UNESP/Araraquara) e vive em Maringá/PR. Publicou dois livros de contos Anacronismo Moderno (2011), Notícias do Submundo (2014) e Criador e Criatura (2015). Quando se trata de livros é oniomaníaco (para vinhos e cervejas também). Gosta de uma mesa de bar, bebida, risadas e filosofia. É tarado por literatura. E por viajar. Vive buscando estradas.

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