Antígona e Medeia: e a questão do fim da arte em Hegel

É mesmo o fim da arte?

Das muitas adaptações visuais da Antígona

Nesse texto procuraremos discutir os conceitos de estado heroico e estado prosaico por meio das tragédias Antígona (442 ou 441 a. C.) e Medeia (431 a. C), e com isso evidenciar o fim do modo de arte grega ao mesmo tempo em que se anuncia o início da forma de arte romântica, destacando que na passagem de um estado a outro encontramos em germe a ideia do fim da arte em Hegel (1770 – 1831).

Para tanto, pretenderemos apontar as características de cada estado na construção das personagens das obras acima citadas, mostrando que a passagem do estado heroico ao prosaico não se deu de forma abrupta, mas que aquele (heroico) é ainda percebido neste (prosaico).

Procuraremos mostrar a relação dialética desses temas, portanto, na obra Medeia de Eurípedes (480 a. C. – 406 a. C.), como mais um elo dessa relação circular da ideia do fim da arte já inscrita no declínio do modo de arte clássica, mas que no modo romântico é por ele intensificado e aprofundado.

O estado ao qual nos referimos acima é o modo universal, terreno onde se move as determinações da subjetividade ideal é o estado que abarca a possibilidade de realização e exceção daquilo que está no sujeito. Podemos dizer ainda, que é a condição que justifica o agir individual. Desse modo, no estado heroico, o terreno de ação do homem grego é a virtude, onde age a autonomia de seu caráter e seu arbítrio, o que o possibilita assumir todas as responsabilidades por seus atos, porque nesse estado o sujeito não está em desconexão com seu querer, atividade e realização, ele é senhor de suas ações e responde por elas integralmente, o que quer dizer que o sujeito é inteiramente responsável, em toda a série causal, por suas ações.

Definindo o estado heroico é nos permitido compreender a força e o porquê das ações de Antígona, uma mulher que em qualquer sociedade ocidental, em qualquer tempo, numa relação de forças entre gêneros é sempre o elo mais fraco. No entanto, quando age contrariando o rei Creonte esta questão não se coloca, assim como não se colocam outras questões, que por si próprias a obrigaria se calar como a todos os outros, como a questão da vassalagem, por exemplo, que a faria curvar-se diante de seu senhor, tal qual fizeram todos os outros, e se calar.

Antígona não titubeia em seu ímpeto por justiça, ela se questiona se deveria, ou se teria alguma condição material de se contrapor ao tirano que a submete e por todos é temido. Ela age. E o que legitima sua ação é a certeza de agir sobre o terreno da virtude, mas não uma virtude enquanto plasma ou substância abstrata fora dela e que a comanda. E sim porque este indivíduo heroico que é Antígona, segundo Hegel, não “se separa do conjunto ético ao qual pertence, antes tem uma consciência de si apenas enquanto em unidade substancial com este todo”. (2011, p.197). É essa consciência de si que diante da obediência silenciosa ao qual se submeteu sua irmã, por exemplo, fez emergir o “não” que rompe o silêncio e se diz sustentado no direito à obediência ao culto aos mortos, que julga ela estar acima da obediência às leis de seu rei.

Ao dizer “não” a ordem estabelecida por Creonte: de não enterrar sob o solo de seu reino todos aqueles que morreram em combate, mas que estavam guerreando contra ele, portanto, os traidores, e ao dizer “sim” ao direito de enterrar seu ente e entregá-lo ao culto da morte, Antígona está concomitantemente dizendo sim a todas as consequências desse ato assumindo as responsabilidades dessa ação para si sem jamais delegar a culpa à tirania, ou as suas emoções ou  ainda ao não conhecimento da decisão do rei. Dessa maneira, Sófocles (496 a. C. – 406 a. C.) cria em Antígona o espírito do homem grego, no período clássico, período em que o espírito absoluto, na terminologia hegeliana, encontra sua forma e se determina em perfeito equilíbrio de totalidade com o mundo.

Se por um lado temos Antígona como marca irrefutável desse estado heroico, por outro temos em Medeia de Eurípedes um exemplo que pode marcar o início de outro estado, o prosaico, que terá como representante maior o teatro de Shakespeare (1564 – 1616).

Há alguns temas em Medeia que evidencia o declínio da forma de arte clássica, uma delas é percebida na própria caracterização da personagem: Medeia é uma bruxa. É uma mulher que se utiliza de uma sabedoria aguda para guiar Jasão à vitória advinda ao conquistar o Velo de Ouro. Podemos entender que a sabedoria em Medeia, enquanto guia das suas ações, é algo que não estava presente em Antígona, esta guiava-se por algo inerente a ela e que se confundia com a constituição da própria cidade. A ação de Antígona, pode-se dizer, é algo natural de um herói envolta dessa áurea universal que é a virtude, ao passo que Medeia vale-se da razão e suas ações são refletidas. Este elemento racional contido no ser e agir da personagem de Eurípides demonstra o surgimento da filosofia e consequentemente uma saída de cena da arte, que doravante na Modernidade culminará com o fim da arte nos moldes clássico.

Não apenas a questão da reflexão diferencia Antígona de Medeia, mas também os motivos que as movimentam. Se Antígona desafia o Estado em nome do direito de enterrar seu irmão, mas que no limite era um direito não somente retirado dela, mas de todos que se opuseram ao regime de Creonte, ela o fez porque virtuoso era fazê-lo; em Medeia, o que a move é a rejeição de Jasão para desposar a filha do rei de Corinto, ou seja: é a traição.

Percebemos que em Antígona a causa da ação está fora da personagem, está na cidade, por assim dizer, já em Medeia a justificativa do seu agir é uma questão particular, subjetiva a ela. Não nos cabe aqui discutir se o orgulho ferido por uma traição é menor ou maior que o direito a um ritual fúnebre, porém as causas aqui expostas acentuam e diferenciam esses dois estados de mundo que nos propomos a abordar, quais sejam: o heroico (clássico) e o prosaico (arte romântica).

Poderíamos dizer que no estado prosaico a dúvida está presente, como está presente em toda a filosofia. Caber-nos-ia perguntar, então: Medeia tem dúvidas? Toda sua ação não estaria sustentada na certeza de estar fazendo-a como dando vazão a algo que a constitui, tal qual Antígona?

O cineasta dinamarquês Lars Von Trier (1956 -) parece-nos responder essas indagações. Em sua filmagem de Medeia de 1988, na cena em que a protagonista se prepara para sacrificar os filhos a fim de causar dor em Jasão e vingar-se, quando Medeia envolve a corda no pescoço do filho que irá enforcar primeiro, a saber: o mais novo, Medeia chora copiosamente agarrada a ele, já com a corda no pescoço, como quem se despede, ou se arrepende do que está preste a fazer, ou de quem não está totalmente tomada de certeza. Nesse momento podemos afirmar que Medeia de fato não representa o espírito grego, no estado heroico. Neste ponto poderíamos afirmar que a mudança do estado heroico, ao prosaico deu-se de forma definitiva e que Medeia, portanto marca tal cisão. No entanto, ainda na filmagem de Lars Von Trier notamos a permanência do estado heroico na tragédia de Eurípides coexistindo com o estado prosaico, porém ambos estados não se encontram na Medeia, esta podemos dizer que encarna o estado prosaico, mas o ato heroico, a ação daquele que assume e não teme as consequências de suas decisões, porque as toma como consequência contra a qual não é possível fugir, na medida em que o que causa a ação a se praticar é o que o constitui e se sabe disso; tal ação é praticada pelo filho mais velho de Medeia. Um pouco maior que o primeiro filho que não compreende a atitude da mãe que chora aos seus pés e o porquê de estar pendurado a uma corda num galho de árvore, o filho mais velho encara seu destino, homem grego que é, num ato afasta sua mãe do irmão, ao que o agarra pelos pés, dependurando-se nele e com o peso de seu corpo o enforca e em seguida envolve outra corda em seu próprio pescoço e se mata.

No posfácio de Trajano Vieira a edição de Medeia da editora 34, o autor coaduna-se a fortuna crítica que tem em Eurípides o precursor de Shakespeare. No Rei Lear (1606), por exemplo, rei que pretende testar o amor de suas filhas e para tanto abdica de seu trono e suas riquezas, não de sua majestade, em nome das três filhas, mas que se vê desapontado por Cordélia, porque esta diz não querer sua coroa, mas tão somente que o queria como pai; encontramos alguns temas das tragédias referidas acima. Tanto Cordélia, quanto Antígona desafia um rei, a primeira por negar-se a bajulá-lo com palavras doces sobre o amor que pelo pai sente, a fim de obter a melhor porção de seu reino; a segunda por reclamar o direito de enterrar seu irmão julgando ser o direito dos mortos maior do que o direito de Estado. No entanto, é em Medeia que encontramos uma maior aproximação com o teatro shakespeariano. O que o rei, pai de Cordélia quer, senão algo que emana exclusivamente de um interesse particular? Provar o quanto é amado? E o que quer Medeia? Vingar-se por uma traição.

Em ambos os casos as exigências últimas de absoluto, que diz Hegel, não são satisfeitas com a arte moderna, isso porque, segundo ele nossa atitude diante da arte é outra, ela é refletida. A reflexão medeia nossa relação com as artes e desse modo ela, a arte, não mais se apresenta a nós como a mais elevada expressão da ideia. A arte, na modernidade é submetida ao pensamento e, portanto, a olhamos como algo ainda possível de ser ultrapassada, mas não com o intuito de criarmos mais artes, mas a fim de darmos um lugar e uma finalidade a arte em nossas vidas. Hegel dirá que este tempo não mais suscita à arte, porque o artista, no ato de sua criação, não consegue se desvencilhar das reflexões sobre a arte, de sua história e teorias, como quem suspende os juízos, o artista não consegue esse total isolamento.

A realidade e necessidade que a arte possuía no período de arte clássica, não mais existem, a arte então foi relegada a nossa representação. É desse deslocamento da arte para a representação em contraponto a arte enquanto emanação da ideia absoluta que Hegel entende o fim de um tipo de arte, a saber: a arte clássica. Se no tempo Moderno se buscava uma finalidade da arte ao conjunto de nossas vidas, no período clássico a arte é a aparência sensível da ideia absoluta por finalidade. A ideia é, portanto, o conteúdo da arte, sendo assim, a arte tem por função conciliar, numa livre totalidade, a ideia e o sensível.

 

REFERÊNCIAS

EURÍPIDES. Medeia. Ed. Bilíngue; trad., posfácio e notas de Trajano Vieira; comentário de Otto Maria Carpeaux – São Paulo: Ed. 34, 2010.

HEGEL, G.W.F. Cursos de Estética. Trad. Marco Aurélio Werle e Oliver Tolle, vol. 1, vol. 2, vol.3 e vol. 4, Edusp, São Paulo, 1999/2000/2002 e 2004.

SHAKESPEARE, W. Rei Lear. Trad.: Barbara Heliodora. – Ed. Especial. – RJ: Nova Fronteira, 2011.

SÓFOCLES. Antígona. Trad.: Donaldo Schuler. – Porto Alegre: L&PM, 2010.

WERLE, M. A. A questão do fim da arte em Hegel. São Paulo: Hedra, 2011.

____________ A aparência sensível da ideia. 1. Ed. São Paulo: Loyola, 2013.

Wérlen M. dos Santos Author

Estudante de Filosofia, USP. Compulsivo por livros e angustiado por não lê-los todos. Compartilho minhas leituras em Literadia (https://literadia.wordpress.com/)

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