As pequenas impossibilidades de Cesar Cardoso

As breves impossibilidades de uma coletânea de minicontos

Cesar Cardoso

Pela sua própria natureza, o conto possui como característica o fato de ser curto. No entanto, essa brevidade não implica em dar um tratamento superficial à história. Ao contrário, o conto bem sucedido é aquele que, por trás de uma aparência simples e quase descuidada, esconde um universo de terríveis possibilidades no seu interior. Dessa maneira, não importa se o conto tem uma, duas ou quinze páginas, desde que a história aparente – aquela que se encontra diante dos olhos do leitor – seja a fachada de uma série de histórias ocultas que se revolvem no seu interior, inquietas como as cobras de uma Medusa, ansiosas para serem desvendadas ao mesmo tempo em que escapam do leitor arguto como a neblina foge entre nossos dedos.

Na orelha do livro Urubus em círculos cada vez mais próximos, de Cesar Cardoso, encontra-se que o autor “leva ao extremo a máxima de Cortázar de que no conto o escritor deve vencer por nocaute”. Segundo o autor e teórico argentino, conto perfeito é aquele em que o leitor chega ao final da narrativa com a sensação de atordoamento, de que alguma parte muito importante da sua vida foi indelevelmente modificada. Para ficar com outra metáfora que se refere ao conto, desta vez de Hemingway, essa modalidade narrativa é como um iceberg: olhamos somente a ponta, mas, abaixo dela, está um enorme mistério, uma massa gigantesca de segredos oculta nas sombras do oceano.

Entre as narrativas curtas, poucas são mais cruéis do que os minicontos. Neles, a tensão narrativa é concentrada ao máximo; um piscar de olhos do leitor, uma distração, e o efeito inteiro se perde, transformando-se em confusão ou indiferença. O livro de Cesar Cardoso reúne 91 minicontos, a maioria com extensão de uma página, alguns chegando a duas. Não se confunda brevidade narrativa com conflitos insossos: grande parte das histórias são diretas, viscerais, furiosas. É um livro feito para submergir o leitor em um mundo de impossibilidades possíveis, forçando-o a redefinir os padrões do que considera como realidade e ensinando-o a questionar o status quo imposto pelos padrões sociais do que é verdadeiro ou não. Mais importante do que ser real é ser verossímil e, dentro do livro, as impossibilidades de Cesar erguem aos poucos um muro ficcional repleto de surpresas e de reviravoltas. Serve como exemplo o miniconto seguinte:

“Os bravos soldados do fogo.
Acordei com a sirene. O barulho veio aumentando e eu esperei que fosse diminuindo. Mas não. Parou à minha porta. Levantei rápido da cama e corri para abrir a porta da frente, já dando de cara com os bombeiros carregando as mangueiras, gritando ordens, cercando o quintal e procurando, procurando. Eu também não encontrava nenhum sinal de fogo. Mas não tive tempo de alertá-los, eles já acionavam os hidrantes e encharcavam a casa toda. A princípio, não entendi aquele procedimento e até me aborreci. Mas eles foram gentis e pacientes e me fizeram ver que, por mais que a gente não perceba e mesmo não encontre, há sempre um incêndio.”

Observa-se aqui uma série de constantes que se repetirá em outras narrativas curtas contidas em Urubus em círculos cada vez mais próximos: a estranheza de uma situação que escapa do normal, a surpresa nas últimas linhas do conto (o mencionado “soco que leva ao nocaute” de Cortázar) e, mais importante do que tudo, a passividade do narrador diante do fantástico. Não existe oposição, luta ou questionamento; ao contrário, o narrador se entrega ao absurdo e considera-o como parte da anormalidade de um dia-a-dia que luta contra os próprios limites impostos pelo real.

Tal circunstância permite ao escritor tecer as mais inventivas ficções, confiante em uma credibilidade inicial a ser concedida pelo leitor e que não se desvanecerá até o final do miniconto. Assim, Cesar Cardoso escreve sobre ursinhos de pelúcia abusadores, sobre um condenado à morte cuja pena nunca é integralmente cumprida, sobre um hospital que vende ingressos para que as pessoas acompanhem cirurgias, sobre alguém que todos os dias procura o próprio obituário nos jornais, sobre vizinhos que entram nos sonhos um do outro, sobre um automóvel que sonha na garagem com o homem que irá destruí-lo. Cada miniconto escancara uma porta sombria, revelando pesadelos que se escondem nas ranhuras do cotidiano brutal imposto pela rotina.

Existem histórias que não entregam facilmente as suas chaves de compreensão, levando o leitor a reler a narrativa em busca do significado que permaneceu oculto nas entrelinhas. Alguns minicontos emulam as obras de Escher e “A circularidade dos parques”, conto de Cortázar, com uma narrativa circular em que o narrador persegue a si mesmo, como no caso seguinte:

“O dia pela frente
O homem com o pijama listrado abriu os olhos, se espreguiçou e ficou ainda alguns minutos na cama, talvez pensando no dia que teria pela frente. Então se levantou, calçou as sandálias e foi até a janela ver se aquele barulho era mesmo de chuva.
Abriu a janela mas só conseguiu ver o quarto, onde o homem de pijama listrado abria a janela para ver se aquele barulho era mesmo de chuva.”

No entanto, é justamente esse desejo de surpreender que acaba deixando o livro um pouco previsível pelo seu viés oposto: o de buscar uma reviravolta ao final de cada história. Tal circunstância faz com que as narrativas curtas se tornem assemelhadas, impedindo que parte dos minicontos fique marcada na memória do leitor. Enquanto que, em algumas histórias, o momento final não só é “evidente e imprevisível” – para ficar em outra metáfora do conto perfeito, essa feita por Ricardo Piglia -, em outras o final soa forçado e gratuito, com uma tentativa de surpreender o leitor que não funciona tão bem. Quando se tornam visíveis as cordas narrativas que controlam a história, o leitor percebe o rompimento da suspensão da descrença sem a qual não existe o pacto ficcional – através do qual o leitor dá um crédito para as mentiras do autor desde que elas não sejam óbvias ou infiéis à verossimilhança interna -, e ver a interferência direta de um autor em busca de uma surpresa causa o efeito contrário, que é deixar a história previsível. Ou seja: em determinado momento do livro, o leitor sabe que seu destino é ser surpreendido e, portanto, deixa de se surpreender.

A melhor forma de ler Urubus em círculos cada vez mais próximos é lentamente, algo que vai contra a ideia de brevidade extrema do miniconto, mas que, para um leitor que não se dedica a devorar com sofreguidão uma obra, mas se esforça para tentar decodificar e lembrar cada narrativa, é o ideal. Ler muitos minicontos em sequência faz com que o efeito de um acabe enfraquecendo o do outro, e assim por diante. No entanto, ler a obra com vagar, refletindo cada miniconto e tentando vislumbrar as possibilidades contidas por trás de uma forma enganosamente simples, pode ser recompensador de muitas maneiras diferentes. O livro de Cesar Cardoso recompensa o leitor lento com uma série de pequenos pesadelos que, apesar de estarem contidos dentro da ficção, podem ser mais reais e presentes do que esse mundo absurdo em que vivemos.

Gustavo Czekster Author

Gustavo Melo Czekster é formado em Direito pela PUCRS e mestre em Letras, Área da Literatura Comparada, pelo Instituto de Letras da UFRGS. Atualmente está cursando o Doutorado em Escrita Criativa da PUCRS. Participante de oficinas literárias, é autor do livro “O homem despedaçado”, lançado em 2011 pela Editora Dublinense