Borges e a fisiologia do mal

“Não pretendo ser perdoado, porque não há culpa em mim, mas quero ser compreendido”  (Deutsches Requiem)

O narrador de Borges só quer ser compreendido. Vamos acreditar <?)
O narrador de Borges só quer ser compreendido. Vamos acreditar (?)

Quando Deutsches Requiem foi publicado na revista Sur em 1946 houve quem desconfiasse que seu autor nutrisse alguma empatia pelo Terceiro Reich. Afinal, o conto é narrado por um oficial nazista que, longe de se arrepender das atrocidades cometidas em seu campo de concentração, as enaltece.

Contribuía para alimentar tal impressão no incauto leitor o momento ambíguo pelo qual a América Latina vinha passando. Algum tempo antes, o flerte com o fascismo vinha se estendendo das instituições culturais até os gabinetes de governo. Mas, com a entrada dos Estados Unidos no conflito mundial, houve a pressão do “Tio Sam” para que seus vizinhos apoiassem os Aliados na luta contra o Eixo. Nesse contexto, muitos admiradores de Hitler enrustiram-se, mesmo na Argentina, onde havia uma conivência duradoura para com o nazismo por parte de setores do governo. Seria o autor de Deutsches Requiem um dos poucos “germanófilos” públicos após 1945?

Basta uma rápida olhada na trajetória de Jorge Luís Borges na década anterior para responder a pergunta. Entre 1933 e 1934 ele publicou diversos textos em revistas portenhas sobre a barbárie nazista, além de ter participado em 1938 do I Congresso contra o Nazismo e o Antisemitismo. Se o marechal Eurico Gaspar Dutra ofereceu um brinde à queda de Paris em 1940, Borges comemorou o fim da ocupação alemã no seu ensaio Anotação a 23 de agosto de 1944.

Mas voltemos ao conto. Otto Dietrich zur Linde será executado por seus crimes, mas antes decidiu registrar no papel um pouco de sua vida. Logo, de início, o famigerado protagonista recusa qualquer motivação sentimental para tanto, atribuindo ao seu relato o estatuto de documento histórico e profético:

“Não pretendo ser perdoado, porque não há culpa em mim, mas quero ser compreendido. Os que souberem ouvir-me compreenderão a história da Alemanha e a futura história do mundo. Eu sei que casos como o meu, excepcionais e assombrosos agora, serão muito em breve triviais” (BORGES, 1972, p. 64).

Nascido em uma família respeitável, nada na sua biografia depõem contra ele até o momento em que se encanta por uma nova “filosofia”. Por ela, Linde perde uma perna em 1939. Nomeado subdiretor do campo de Tarnoitz, lá ele enfrenta o que considera o desafio diário da misericórdia. A maior provação foi conviver com David Jerusalém sem afeiçoar-se a ele. Contudo, a convicção prevaleceu sob a empatia. Após inúmeras sessões de tortura, o poeta judeu tirou sua própria vida.

O suicídio de Jerusalém é encarado como uma vitória pessoal, mais um passo na direção do “homem novo” proposto pelo Fuhrer. E a derrota da Alemanha? Linde a considera o êxito maior do Terceiro Reich. Isso porque ele sempre compreendeu o nazismo não como uma ideologia política ultranacionalista, mas como um fato moral, o despojar do velho homem, a libertação de seus vícios. Para ele, “o mundo morria de judaísmo e dessa enfermidade do judaísmo, que é a fé em Jesus; nós lhe ensinamos a violência e a fé na espada” (BORGES, 1972, p. 69). Sendo assim, “que importa que a Inglaterra seja o martelo e nós a bigorna? O importante é que reine a violência, não a servil Alephtimidez cristã” (Idem, p. 70).

O fanatismo do narrador de Deutsches Requiem nos incomoda principalmente por sabermos que Otto Linde é uma figura plausível. Para ficar em apenas um exemplo, temos Milán Astray, general fascista espanhol – que coincidentemente também perdera uma perna em combate – que ao proferir “Abaixo a inteligência” e “Viva a morte” como palavras de ordem, foi ovacionado, para espanto do escritor e reitor da Universidade de Salamanca à época, Miguel de Unamuno.

Acompanhando o julgamento de Adolf Eichman em Israel, Hannah Arendt também se chocou com as palavras do responsável por enviar vários judeus para campos de concentração. Era fácil alimentar a indústria da morte com apenas uma canetada, mas era difícil para Arendt reconhecer que um homem ordinário e não um sádico poderia também ser um algoz. Foi tentando compreender tal enigma que a filósofa alemã chegou à conclusão de que a ausência de discernimento é extremamente fértil para o mal.

Há quem torça o nariz para o conceito cunhado por Arendt, a banalidade do mal. Consideram um maniqueísmo barato, mas é impossível negar que os resultados do fascismo tenham sido mais benéficos que outra coisa. O mais interessante é que o principal contato que as gerações mais jovens têm com regimes totalitários é a cultura pop, incluindo aqui a literatura juvenil (vide Voldemort e Presidente Snow).

Embora o fascismo seja um fenômeno político historicamente bem delimitado (situado entre meados dos anos 30 e o final da década de 1940), Umberto Eco, que cresceu sob a sombra de Mussolini, defendia que ele se integrou de tal forma ao nosso imaginário coletivo que se tornou um arquétipo. Segundo ele, o fascista dentro de nós aflora com maior intensidade quando encontra bodes expiatórios para sua frustração pessoal e sua insegurança. Acrescente a esse caldo de ressentimento um líder carismático e algumas gotas de promessas de renovação espiritual (pautadas na “tradição” mais longínqua) e voilá!

Portanto, há certo consenso sobre os estudiosos da mais famosa face contemporânea do mal no Ocidente: o fascismo e seu congênere (o nazismo) operam apelando para a ignorância e o fundo emocional de alguns enquanto coisifica outros. Em outros contos de Borges essa dimensão desumanizadora do nazismo é mais flagrante – A morte e a bússola é um deles. Mas parece que em Deutsches Requiem ele se detém em outro aspecto igualmente importante que pode ser captado na relação de Linde com Jerusalém.

Borges confronta duas posições opostas: de um lado, o homem que “alegra-se de cada coisa com minucioso amor” e faz desse sentimento sua profissão (a poesia como celebração da vida), do outro, o indivíduo que procura extirpar essa dimensão de sua alma em nome de uma ideologia política (o nazismo como culto á morte). A morte como filosofia de vida é o responsável pela tragédia de Jerusalém: num mundo em que nada mais faz sentido, o poeta se considera desnecessário.

O que Borges denuncia eloquentemente neste conto é uma das propriedades mais assustadoras do mal: a inversão de valores. Para Linde, a destruição do outro é intelectualmente bela e politicamente válida. O esforço de construção de uma Humanidade mais humana, do qual a Alemanha participou consideravelmente com seus artistas e filósofos, foi virado de pernas para o ar. Em suma, é possível que o requiem do título seja não só do oficial nazista que chora pelo Reich esfacelado, mas também do autor que lamenta que a pátria de Goethe tenha legado à História uma lição sobre a anatomia do mal. A grande pergunta que fica é se fizemos nossa tarefa de casa.

Referências:

ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. Trad. José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

BORGES, Jorge Luís. O Aleph. Porto Alegre: Editora Globo, 1972.

ECO, Umberto. Cinco escritos morais. Rio de Janeiro: Editora Record, 1998.

SYLVAS, Graciela Aletta. Deutsches Requiem: Borges y uma visión del nazismo. A Contracorriente. vol. 10, n. 2, jul-dez. 2013.

Vinicius Alves do Amaral Author

Doutorando em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Mestre em História Social pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e professor da rede estadual de ensino do Rio de Janeiro. Aprendiz de Pantaleão nas horas vagas.