‘Cabo de Guerra’ e os anos de chumbo do Brasil

Cabo de Guerra, de Ivone Benedetti, não é apenas mais um livro sobre a ditadura. Trata-se de uma reflexão sobre a repressão de um sistema violento e totalitarista, que oprime até mesmo aqueles que estão ao seu lado

Ivone Benedetti, autora do livro ‘Cabo de Guerra’

A mudança de cidade. O marxismo. Um acidente. A placa do carro. A pensão. Uma mulher desesperada. Um emprego. O coronel. A ajuda. Um apartamento. Uma amante. A militância. A policia. A informação. Cachorro. Um hotel. Cibele. My Way. A pensão. As ruas. Tomás. Mariquinha. Indecisão.

Cabo de Guerra se passa em três partes, ou três dias. São alternados entre o presente e a lembrança, iniciando com um sonho-recordação. O personagem principal não tem nome. O maior marco da sua própria falta de identidade. Os anos são de uma das nossas maiores guerras: a ditadura militar. No decorrer da narração (impecável, devo mencionar) vemos um personagem que sai de sua terra natal na Bahia e vem tentar a vida em São Paulo, em meio ao caos político da época. Conhece pessoas; perde o emprego; esquece da família; se apaixona; e então conhece Rodolfo, que lhe apresenta a esquerda e a militância.

No país, havia acabado de ser decretado o AI5. Ele então se vê envolvido indiretamente em um acidente. Um corpo estirado no chão e um motorista que fugiu. O número da placa havia fixado em sua memória.

Mais do que falar da ditadura, Cabo de Guerra traz um personagem narrador que sofre os pesares da vida, com algumas boas decepções que o carregam e (in)decisões pesadas. Na infância é acometido de visões, um tratamento psiquiátrico e o choque de ver e viver a morte violenta do pai. Quando adulto, é um sujeito longe da casa materna que oscila entre o ganhar e perder tudo. Encontra na militância a dúvida e a resposta na traição, se torna um cachorro (termo usado para infiltrados na ditadura, que ajudavam os militares com informações e emboscadas). Tem como chave de virada um acidente e o questionamento entre o que fazer ou não, escolhe o que não devia ter feito (ou até devia, mas quem sabe em diferentes circunstâncias) e uma vida de consequências lembradas na cama, aos cuidados de Mariquinha, sua irmã.

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Cabo de Guerra (Boitempo, 2016)

O personagem principal carrega em si diferentes facetas e interpretações. No decorrer de cada capítulo notamos as questões que afligem sua cabeça, ele simplesmente não consegue uma decisão. Quarenta anos depois de todos os acontecimentos ele ainda se balança entre os dois lados.

O livro é acima de tudo uma reflexão. O questionamento entre o ser e não ser. É a reflexão sobre a repressão de um sistema violento e totalitarista, que oprime até mesmo aqueles que estão ao seu lado. E o principal: nos faz questionar sobre nossa própria falta de escolha.

Não é apenas “mais um livro sobre a ditadura”.

Dayane Manfrere Author

Comunicóloga como primeira formação se aventura agora no mundo das Letras. Colunista e revisora no Homo Literatus (as vezes também traduz). Escreve seus pensamentos no Enquanto a Chuva Caí e tem uns contos publicados por aí. Uma Shakespeareana sem cura, que ama Poe, Wilde e Tchekhov.