Clarice, eu, você e a barata

Certa vez, em uma conversa sobre Clarice Lispector, eu disse (não imune às piadas dos colegas que isso me rendeu por algum tempo) que ao ler a paixão segundo GH sempre me senti a desgraçada da barata. Com o sucesso que o ativismo pelos Direitos dos Animais e a prática (me recuso a aceitar a expressão “estilo de vida”, porque “estilo” é uma palavra cara aos que gostam de literatura) do veganismo têm feito, a afirmação não seria das mais absurdas em um círculo de amigos (sem julgamentos sobre o tipo de amigos que você tem…).

O fato é que, para além de me sentir a barata em si, sinto-me (porque ainda tento, frequentemente, entender GH) também a mulher se sentido barata…. É estranho, mas na paixão segundo GH sou, por instantes,  uma massa de cabelos, asas, unhas e gosma nojenta. Somos, nós três, impossivelmente, três corpos ao mesmo tempo.

O desespero, a angústia e o asco que a personagem sente ao entrar no quarto da empregada são simultâneos à leitura: Clarice mostra com a devida calma e sensibilidade cada detalhe do cômodo e cada experiência em cada imagem dando a ver aquilo que Benedito Nunes¹ definiu como poucos em Clarice: a potência mágica do olhar.

Quando escreveram “Kafka: Por uma literatura menor” Deleuze e Guatarri² também esmigalharam entre os dedos o inseto mais famoso da literatura e não o fizeram em vão; segundo ambos, Kafka é um ícone da literatura porque tange o que há de humano na literatura: o pequeno frente ao monumento, o molecular frente ao polar, a sensação frente ao pouco que a escrita alcança.

Clarice, assim como Kafka, torna patente a ideia da literatura menor, aquela que é feita no fio descosturado, no durex que conserta os óculos (dos bons e velhos que jamais deixarão de existir), na página do livro dobrada, marcada, depois desdobrada, enfim, naquilo que se esvai como nós no tempo.

Um dos fios do meu chuveiro se soltou do aparelho há um tempo. Nada preocupante, todos têm saído vivos do banho, ultimamente. Levantei os braços para mudar a temperatura da água e toquei o famigerado fio com as mãos molhadas. O choque foi rápido e, durante aqueles poucos fragmentos de segundo, vi que eu também era a barata. A vida está em um gesto e este texto não é, definitivamente, um incentivo para você mantê-la.

Neste sentido, é possível supor que talvez até mesmo essa nova tendência ao veganismo (arrisco “tendência” com sinceros pedidos de perdão aos veganos que leem este texto… se é que eles existem) seja também parte de uma nova lógica da narrativa que criamos e repetimos, todo dia, impreterivelmente, a fim de entender por que diabos estamos aqui. Não há muito de interessante na vida para além do que o há para as baratas. Para os que gostam, ler Clarice é uma das coisas que a fazem valer a pena.

 

*À professora Cida, que me mostrou muito do pouco que sei sobre o universo que é Clarice.

 

¹NUNES, Benedito. O drama da linguagem: uma leitura de Clarice Lispector. łica, 1989.

²DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Kafka: por uma literatura menor. Tradução de Júlio Castañon Guimarães. 1977.

Mariana Guida Author

Eu não “lido” com a literatura: há entre ambas uma dinâmica que envolve, a cada livro, a cada parágrafo, a cada estrofe, uma troca de potências, saberes e afetos. A mim interessa apenas experimentar cada vez mais imergir neste processo e procurar traduzi-lo de modo a cativar nas pessoas o desejo de provar a literatura e por-se à prova dela.