Conto: Chalé de chaminé torta

chamine-torta
Ilustração de FP Rodrigues

 

Ele esperou até o anoitecer. Esperou até que os pais estivessem dormindo, cada um virado para um lado da cama de palha, antes de levantar-se, colocar seus calçados de couro carcomido e munir-se da pequena cruz de madeira que era da avó. O menino pendurou-a no pescoço, como muitas vezes a vira fazer, porque ouvira que bruxas temiam os símbolos sagrados. Ele saiu de casa em silêncio, com cuidado ao encostar a porta. Passou pela terra onde seus pequenos irmãos e irmãs, mortos antes da hora, estavam enterrados, e se dirigiu à vila. A noite estava fria; e a quietude que o cercava faziam com que os cabelos crescendo em seu pescoço se arrepiassem. O menino não encontrou ninguém em sua andança. A vila parecia enfeitiçada para dormir, todas as chamas apagadas, todos os animais com os quais cruzava na mais perfeita placidez. Havia apenas um fogo queimando, e ele sabia muito bem qual era, porque enxergava seu brilho enquanto aproximava-se da casa das Bishops, vendo a fumaça subir pelo céu escuro, escapando da chaminé torta.

 

 

A mãe dizia para ele nunca se aproximar do chalé de chaminé torta. A avó dizia para ele nunca se aproximar do mesmo chalé, bem como todas as mulheres que ele conhecia diziam. O chalé em questão era afastado da vila—afastado por bons motivos, o menino escutava. Contavam que os homens que se metiam com as Bishops, adultos ou crianças, sempre encontravam um destino terrível. Diziam que as Bishops eram bruxas, o que era verdade, mas o menino jamais a vira fazendo coisas de bruxas, como cruzar os céus montadas em vassouras ou flutuar na água. Ainda assim, coisas demais aconteciam ao redor das moradoras do chalé. Garotos e maridos que desapareciam sem deixar vestígios, desaparecimento que era logo creditado as Bishops. Houve a vez, o menino ainda pequeno demais para ter presenciado ou compreendido, em que uma senhora da vila quisera queimar o chalé, em um surto de loucura. O lampião que ela segurava quebrara-se sobre ela, fogo lambera-a das saias até os cabelos brancos e a consumira diante do pequeno grupo de curiosos amedrontados. As Bishops observaram a tudo de seu chalé, silenciosas, apenas vultos que escondiam-se atrás das janelas.

— É por isso que se deixa as Bishops em paz — a mãe do menino dissera. — É por isso que não se come nada que elas te ofereçam; nunca.

— Por que não? — Perguntara o menino.

— Porque é comida enfeitiçada—tudo que elas fazem é.

As Bishops raramente apareciam na vila. Quando o faziam, poucos eram os que decidiam encará-las ou dirigir alguma palavra a elas. Não se falava com uma Bishop, a menos que uma Bishop falasse com você; e se ela falasse com você, as chances de que você estivesse encrencado eram grandes.

Elas compravam algumas coisas coisas: temperos, ovos, pequenas peças de metal, que ninguém sabia para o que serviam. Algumas vezes, tecidos.

Era fácil identificar uma Bishop, suas cabeleiras negras e compridas, nunca presas ou escondidas. Elas tinham um jeito característico de andar, nunca com pressa, quase uma dança, como se o tempo, em seu mundo, passasse de forma diferente.

— O demônio veio pela mulher — o pai do menino dizia. — Nunca se esqueça, e nunca confie em uma.

E o pai não confiava. O menino sabia daquilo porque sabia das marcas roxas que a mãe escondia debaixo das mangas dos vestidos. Sabia das ocasiões em que o pai voltava para a pequena casa que dividiam, durante a noite, parecendo bêbado, e encarando a esposa como se algo muito ruim houvesse se apossado de sua alma. Ele escutava-os, de madrugada, na cama, o leito do menino sendo apenas a alguns metros de distância. A mãe dizia não, chorava um pouco, mas o pai sempre vencia.

— Eu sou seu marido — ele dizia. — É meu direito.

Era o que o menino entendia da vida: maridos controlam suas esposas. Homens eram fortes e eram os líderes. Então por que até mesmo seu pai, que fazia a própria vontade valer em casa, desviava do caminho de uma Bishop? Enchia o menino de vergonha, algo que ele jamais ousaria dizer em voz alta, conhecendo bem o risco de receber uma sova.

Ele decidiu, em um impulso de criança, um capricho, que seria ele a acabar de vez com o medo que as Bishops tinham cuidadosamente costurado sobre a vila. Faria o pai orgulhoso. Faria a mãe orgulhosa, também. O menino achava-se especial, e isso porque durante sua vida inteira escutara que seus olhos, um de cada cor, esquerdo castanho e direito azul, eram sinais de um destino mágico; ou assim pensava a avó. Para o pai, era um pequeno motivo de desgosto, razão para que desconfiasse do filho só um pouco menos do que desconfiava de mulheres.

 

 

O menino hesitou. Suas pernas tremeram um pouco, não sabia se de frio ou se de medo. O chalé das Bishops era marcado por uma cerca pequena de ferro, algo que ele jamais vira em outra das casas da vila. Ele pulou a cerca com cuidado, sabendo que sua mão o mataria se rasgasse as poucas roupas que tinha, e mal seus pés tocaram a terra da propriedade e ele escutou um balido alto. Ao primeiro, juntaram-se outros, balidos desesperados, cortando a noite, e a porta da casa se abriu. Ele enxergou a figura de uma menina não muito maior do que ele, a mais nova das Bishops, seus olhos de um âmbar cintilante. Ela o descobriu ali, semi-agachado, com uma cara pálida, subitamente procurando o crucifixo debaixo da camisa.

— Ah — fez a menina Bishop, parecendo entediada. — É mais um deles.

Uma garota mais alta uniu-se a ela. Uma adolescente, as duas com feições tão parecidas que não poderiam ser outra coisa que não irmãs.

— Pobre diabo — disse a mais alta. — Parece um gato assustado.

A mais nova deu uma risadinha.

— O que está fazendo aqui? — Ela perguntou.

As duas usavam roupas similares, vestidos com muitas camadas coloridas de saias, cada uma parecendo ter sido feita de uma cor diferente. Elas eram como mosaicos de igreja.

— Eu vim aqui para expulsá-las da vila — disse o menino, descobrindo que não conseguia ser nada senão honesto perto das Bishops. — No nome do senhor?

As duas meninas encararam-se por um segundo.

— É mesmo? — Perguntou a mais alta. — E o que você vai fazer? Nos matar com o seu crucifixo velho?

O menino apegou-se à cruz ainda mais.

— A primeira coisa que você precisa saber, invasor — continuou a garota. — É que nossas ovelhas são bem barulhentas. Melhores do que cães, em alguns aspectos.

A vila inteira sabia que as Bishops só criavam ovelhas. Ninguém jamais tivera coragem de comprar carne de uma delas, nem mesmo nos piores momentos de fome. O menino conseguia vê-las em seu cercado, brancas e negras e sujas e de pelagem grudada e feia, agitadas, querendo saltar umas sobre as outras, como se prontas para fugir.

— Você é tão magro — a menina mais nova disse. Ela tocou os cabelos loiros do menino, e ele quase deu um salto para trás, porque não chegara a vê-la deixar a entrada da casa para alcançá-lo. A garota baixou a mão, parecendo magoada pela reação dele. — Acho que não come muito bem.

— Ninguém come bem aqui nesse fim de mundo — a mais velha disse.

— Nós podemos convidá-lo para jantar — sugeriu a mais nova, falando com a irmã como se o menino não estivesse lá.

A outra riu.

— E ele aceitaria? Eles sempre têm medo.

— Não custa tentar — disse a mais nova. — Venha comigo.

E ela ofereceu a mão ao menino.

Era a feitiçaria de que sua mãe falava. Porque o rosto da garota pareceu, de repente, caloroso. Porque ela sorriu e formou covinhas em suas bochechas claras, marcadas com um leve rubor de juventude. Porque, como se o convocasse, um cheiro delicioso de carne veio de dentro da casa, junto com o calor do fogo, e aquilo era mais do que o garoto jamais conhecera. Ele escutava a voz do pai em sua mente, a fêmea que veio do demônio, que semeou discórdia e tentação, e escutava-a mesmo quando segurou a mão da menina e descobriu que a mão dela era quente, que a dele era fria, e ainda a escutava quando atravessou a porta e entrou na casa das Bishops, que era pequena e apertada, não tão diferente assim da sua, e onde tudo parecia torto, não apenas a janela. Existia a cozinha, de onde vinha o cheiro de carne, com uma longa mesa de madeira; existia uma cama na sala, escondida por um véu, e o menino viu algo movendo-se atrás dele, uma figura de cabelos brancos e rosto cruzado por linhas fortes.

— Não se preocupe — disse a menina. — É só a vó Bo Peep.

— Quem chegou? — Uma voz veio da cozinha. O menino viu surgir uma versão maior, mais adulta das duas garotas. Seus cabelos negros também estavam soltos, e ela segurava uma colher de onde pingava um líquido de cheiro tão convidativo que o menino teria se ajoelhado e lambido a colher ali mesmo.

— Só um convidado — disse a menina mais nova.

A adulta deu uma boa olhada no menino.

— Ah — disse. — Sei quem você é. Conheço seus pais.

Elas não perguntaram o nome dele, mas disseram os seus. A menina mais nova era May; a mais alta, Maria, e eram mesmo irmãs. A adulta chamava-se Mary, e era mãe das duas; e a estranha aparição atrás do véu era Mary Bo Peep Bishop, a avó das garotas, movendo o tecido de tempos em tempos, encarando o menino com uma expressão quase divertida.

Mary sentou o menino na mesa. Serviu a ele uma cumbuca com o ensopado que fervia em seu caldeirão. Deu a ele uma colher, e apesar de todos os avisos que escutara, o menino percebera-se já com um bocado da carne dentro da boca, mastigando como se nunca tivesse provado algo melhor.

— O que é? — Ele perguntou, a boca cheia.

— O que você acha? — May perguntou. — Ovelha.

A casa das Bishops não era bem o que o menino esperava da casa de bruxas. Não havia animais mortos pendurados em ganchos e nem símbolos satânicos nas paredes, mas havia curiosas esculturas pequenas de ferro enfeitando as portas, e trilhas de flocos e aveia nos parapeitos das janelas.

— Para que servem? — O menino perguntou, indicando a aveia com a colher.

— Para mantê-las afastadas — respondeu Maria, que parecia ter decidido que ele era apenas exasperante, e que comia do ensopado que Mary servira de forma mecânica, como se já não aguentasse mais aquela carne.

“Garota estúpida,” pensou o menino. Garotas eram sempre estúpidas, mágicas ou não.

— Quem são elas? Que vocês querem manter afastadas? — Ele perguntou.

Mas nenhuma Bishop respondeu.

— Ele veio aqui para nos expulsar da vila, mãe — May informou.

— É mesmo? — May indagou.

O menino não parou de comer, mas segurou seu crucifixo de madeira e empunhou-o contra elas. Mary deu uma risada.

— Moleque, não seja bobo. Não é assim que as coisas funcionam.

— Mas suponha — perguntou May, suas pernas movendo-se animadamente debaixo da mesa. — Suponha que você nos expulsasse. O que aconteceria?

— Eu seria um herói.

— Seria?

— Meu pai me amaria mais.

— Seu pai — disse Mary. — Sim, seu pai. Você se parece com ele. Em rosto, mas também em coração. É só que você ainda no sabe. E que pena.

Alguém riu. Uma risadinha pequena e maliciosa, e o menino relanceou a cama coberta com véu, a figura deformada atrás dele, correndo um dedo pelo tecido como se o corresse pela garganta de alguém. Ele sentiu medo. Sentiu seu coração, que era como de seu pai, bater mais forte, mas também não encontrou forças para fugir, como se as Bishop já o envolvessem em um feitiço macio, algo confortável; ele estava confortável ali, naquela mesa, entre aquelas estranhas.

— Vocês são bruxas? — Perguntou o menino, a voz já arrastando.

— De certa forma — Mary Bishop respondeu. — Coma, menino. Precisa ficar forte.

Ele engoliu o ensopado, pensando em como mataria as Bishops apenas com um crucifixo. Continuou a comer, mesmo quando Mary serviu uma segunda cumbuca, e a cada colherada que dava, sua mão pesava mais, seus olhos pesavam mais, e May e Maria observavam-no como se achassem engraçado, quase amável.

— Eu vou matar todas as bruxas — o menino murmurou, grogue.

— Claro que vai — disse Mary. Ela tirou o crucifixo dele gentilmente. — É da sua avó, não é? Imagino que a família vá querer de volta.

Mas o menino não confirmou. Ele estava como sono demais. Em algum momento, sua cabeça tombou contra a mesa de madeira, e ele sonhou com calor e com fartura, mas também com balidos e lã e sujeira; ele sonhou com a risada de Mary Bo Peep.

 

 

Os pais do menino apareceram para procurá-lo. Eles não ousaram cruzar o portão de ferro. Esperaram até que Mary Bishop aparecesse para recebê-los. Ela entregou o crucifixo à mãe do menino, que colocou-se a chorar, apertando a pequena cruz nas mãos. Por um momento, Mary Bishop encarou-a com pena; mas bastou um segundo para voltar sua atenção para o pai do menino, o rosto dele fixo no chão, recusando-se a encará-la. Mary Bishop tocou sua face; o homem estremeceu.

— Pobrezinho — disse ela. — Está tão magro.

Ele manteve-se calado, punhos apertados.

— Apareça algum dia para jantar — disse Mary Bishop; e deixou os dois, voltando para dentro do chalé de chaminé torta.

Enquanto partiam, os pais do menino ignoraram os balidos das ovelhas. Não prestaram atenção no mais recente novilho em posse das Bishops, uma criaturinha singular, que muito chorava de seus olhos curiosos, um castanho e um azul.

 

Clara Madrigano Autor

Maria Clara Madrigano é escritora, jornalista e tradutora. Pode ser encontrada no @makeitsuntory.