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Conto: Seres estranhos – Vilto Reis

16 comentários
Conto: Seres estranhos – Vilto Reis

Era uma tarde quente naquela cidade do sul do Brasil. O rapaz, com não mais de 20 anos, voltava do trabalho após um dia de exercício mental exaustivo. O ônibus em movimento trazia um frescor ao rosto, mas este alívio foi quebrado quando desceu ao terminal. Pensou que este seria o pior dos males, mas a situação ainda estava a agravar-se.  O ar estava carregado por uma sensação de que a poeira unia-se ao calor na tarefa de oprimir os seres humanos. O choque que o rapaz sentiu com a mudança da atmosfera agravou sua percepção. Caminhava olhando pra cima, como as pessoas orgulhosas fazem, mas seu motivo era outro, procurava o ponto específico onde o ônibus que cobria o trajeto até sua casa parava. Sentiu uma sensação estranha. Os que estavam ao seu redor não pareciam pessoas, seres humanos normais, mas sim seres estranhos. Estava a vir em sua direção uma mulher muito alta, mais do que qualquer uma que já tivesse conhecido. Era loira, talvez mais de dois metros, com ombros muito estreitos e um pescoço longo, esta última característica lhe lembrou da aparência de um alienígena que havia visto num filme. O rapaz sentiu calafrios, o ato de cruzar por aquele corpo que vinha em sua direção se concluiu, o que ele não esperava era que a situação poderia crescer em extravagância. Logo a seguir, caminhava em sua direção um homem muito baixo, com a pele queimada pelo sol e que não escondia a aparência esquálida. As pernas muito curtas eram ainda mais assustadoras pelo manquejar que traziam explicitamente. Antes que se cruzassem algo precedeu o evento, o ar parecia encravar o odor fétido nas narinas do rapaz. Passou pelo homem sem deixar de notar a respiração pesada que atribuía um ar ainda mais repugnante à figura. O rapaz começou a entrar em pânico, nenhum ambiente parecia tão assustador como aquele terminal de ônibus. Correu ao seu ponto a tempo de entrar no ônibus que já estava de saída. A viagem até sua casa não demorou mais de quinze minutos, mas pareceu que o senhor do tempo havia resolvido parar de trabalhar, tamanha a demora que representava ao rapaz.

Chegou à sua casa. Preferiu não falar com ninguém até que se tranquilizassem e esquecesse aqueles seres estranhos. Entrou correndo no banheiro, estava ofegante como se houvesse ficado muito tempo embaixo da água. Olhou-se no espelho e nada poderia ser mais assustador. Ficou em estado de choque. Ele era um deles, um ser humano.

Por Vilto Reis

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Vilto Reis

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Vilto Reis é contista, roteirista, redator publicitário, criador do site Homo Literatus e do LiteratusCast. Quando não está lendo, escreve; porque, segundo ele, não lhe resta opção, sente-se obrigado. Nos primeiros anos da escola era introspectivo e tinha déficit de atenção, um presságio para o seu apreço exagerado pela ficção, beirando o absurdo ao afirmar que a realidade não existe (ou seja, talvez você não esteja lendo este texto, é sério).


  1. Olá, vi seu blog na postagem do grupo do Facebook. Confesso que tive que parar um pouco para pensar e localizar o preconceito no que descreveu. Porque eu estava esperando alguma cena bizarra e no fim, vc foi muito sútil e inteligente. Muito interessante, principalmente pelo desfecho, que só mostra o que sempre tento passar para as pessoas: somos todos seres humanos. Achei muito legal você colocar o personagem/narrador como sendo o preconceituoso, porque o que sempre vemos é o oposto, o narrador presenciando alguma situação. Gostei, parabéns pelo texto. Espero que mais pessoas possam refletir também. Ainda que eu concorde com a Tatá Werneck, quando ela disse que “todos têm preconceito, quem disser que não tem está mentindo. O que não pode é partir pra intolerância.” E digo mais, a palavra de ordem deveria ser RESPEITO, acho que se os humanos se respeitassem, tudo seria melhor.
    Parabéns novamente pelo texto.
    Abraços.

    • Rober, obrigado por ter me concedido a honra de uma visitinha por aqui.

      Concordo plenamente com o que você falou, somos todos preconceituosos. Acredite, o narrador/personagem é muito do que eu sou. E sim precisamos cultivar uma atitude de respeito, afinal somos todos seres estranhos…

  2. Richard Isidoro. disse:

    Me senti assim no terminal do aterro…. hahahaha gostei do conto, parece meio que uma crítica social as pessoas que não respeitam as adversidades blumenauenses. agora imagina em Sp, com toda aquela gente socada para pegar ônibus e metrô….e tem que ficar encostado nelas ainda.

    • Valeu pela visita Richard!

      Cara, o conto tem um outro aspecto para quem mora em Blumenau, acredito que td mundo já se sentiu assim, principalmente no Aterro… hehe

  3. Até a última frase, me lembrou muito os contos curtos do Stephen King, com bastante preparação, para um desfecho inesperado, muito bom ;D

    (a diferença é que se fosse um conto do King, seria algo do gênero “chegou em casa tirou sua carapaça, seus chifres, lembrou daqueles humanos estranhos e foi dormir)

    • Peter, muito obrigado pela sua visita aqui no blog e principalmente pelos comentários inteligentes e relevantes, coisa rara em nossa geração!

      Sobre a lembrança do King, acho que ele é um gênio sem dúvidas, mas na verdade não li nada dele ainda, embora de tudo que já ouvi falar dele e que pesquisei a respeito me lembrei dele sim. Este mês eu quero começar a ler o conto “O nevoeiro” dele, depois que eu terminar “On the Road – Jack Kerouac”.

  4. taiblogueira disse:

    nossa… me pareceu estar dentro de um filme de ficção científica.

    Esse lance de ETs é muito interessante, não é um medo… é uma descoberta agônica.

  5. Gostei muito do conto, além de criativo é bastante realista.
    Parabéns cara, aguardamos os próximos contos.

    • Estou muito feliz pelo seu comentário Jackson, se olhar todos os outros ficou evidente que é tão ficção que parece realidade ou vice e versa…

  6. É disso que ando falando! Criatividade não nasce em árvores né, mas tem gente que parece ter sido agraciado com uma colheita incrível! Ficou muito bom, Parabéns! Adorei o texto!

    • Muito obrigado Paulo! Acho que um pouco é observação, outro pouco é escrita e o resto é leitura mesmo, no final aparecem alguns pontinhos de criatividade.

  7. Adorei, vc escreve muito bem, queria eu escrever assim.

  8. Olá!

    Muito bom o texto, bem escrito, gostei bastante. Acredito que você tem grandes chances de ganhar o concurso.
    A temática é bem original. Parabéns.

    beijos

  9. Dr Morte disse:

    Voce foi um genio com essa obra. Todos esperavamos ler um desfecho comum, algo monstruoso ou alienigena, eu pelo menos esperava. Mas então vc atira uma tremenda pedrada que até eu senti, e simplesmente genial a forma sutil como você colocou essa critica sobre o proprio preconceito em seu texto. Mordaz, genial!

    • Vilto Reis disse:

      Obrigado pela visita e o comentário. Acredito que sempre podemos transmitir coisas importantes através de nossos contos.

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