O lugar da crônica na Literatura e a formação de novos leitores

Será a crônica na literatura uma porta de entrada para novos leitores? E onde estão sendo formados estes novos leitores?

crônica na literatura

Vamos falar um pouco sobre o lugar da crônica na Literatura.

Há quem diga que crônica não é um gênero literário. Outros dizem que a crônica é uma forma inferior de escrita, por onde um escritor deve começar para praticar e só depois se aventurar em outros gêneros mais “complexos”.

Nenhuma dessas posições se sustenta. Primeiro, porque um dos critérios de uma crônica é extrair algo do cotidiano, e, só quem tem algo a dizer, a comunicar, possui maestria para escrever uma crônica boa de se ler. Consiste em dizer muito com pouco, e só quem tem uma escrita hermética e uma postura mais filosófica diante da vida conseguirá extrair algo extraordinário do ordinário, do cotidiano. Isso é uma arte, acima de tudo. Em segundo lugar, há escritores que se consagraram por suas crônicas: Manuel Bandeira (além das famosas poesias), Fernando Sabino e, atualmente, um cronista que vem se destacando: Antônio Prata.

Já que passei por Fernando Sabino, aproveito a deixa pra trazer para a pauta uma ideia por ele defendida e uma questão na qual eu também penso muito: ele dizia que, no Brasil, há uma conta que não fecha, pois há muitos escritores para um país de poucos leitores.

Hoje, continuamos sem uma cultura de leitura, por mais que alguns editores divulguem dados de pesquisas encomendadas para dizer que há mais gente lendo. Gostaria de lembrar que uma coisa é a quantidade de leitura, a coleção de livros na prateleira, outra coisa é a qualidade com que essa leitura é feita.

Marisa Lajolo (pesquisadora, professora universitária, escritora e crítica literária) tem um livro intitulado Do mundo da leitura para a leitura do mundo, em que ela discorre exatamente sobre isso, sobre a formação desse leitor, sobre a produção de sentidos, sobre os trabalhos que fazemos ou que deixamos de fazer para se formar esse público leitor. E aí, eu lanço a questão: fomentar a literatura seria antes promover encontros de novos escritores, promover o exercício da escrita criativa ou promover a produção de sentidos e a troca a partir do exercício da leitura? Como equacionar isso? Como promover mais o leitor? Como formar o leitor para a fruição estética literária?

E, se esse leitor possui uma formação crítica e uma capacidade de abstração mais intensas, saberá extrair de uma crônica seu alimento e seu objeto de fruição, fruição esta que poderá perdurar por tanto tempo quanto durar aquela eternidade sacramental de interiorização e consequente leitura do mundo com outras lentes a partir desse mergulho.

Certamente que a transformação interior pela qual passa um leitor após receber pelo intelecto e pela alma uma obra de Shakespeare, um romance de Machado ou uma poesia de Charles Baudelaire é diferente da maneira como examino a consciência cotidiana após um encontro com uma personagem ou um autor em uma crônica, mas é certo que, enquanto objeto de fruição, esta sempre ocupará o seu lugar, e o bom cronista não poderá ser outro que não aquele que costura os pontos ordinários com um fio de ouro.

Giselle Lourenço Author

Giselle Lourenço é professora de Língua Portuguesa e Literatura, revisora de textos e teóloga. É também finalista do Prêmio Sesc de Literatura 2015 - categoria crônicas. Alimenta um canal no Youtube com resenhas de obras literárias, uma página no Facebook com dicas de Língua Portuguesa e um blog com alguns de seus textos, todas essas mídias com o mesmo nome: Tao da Letra.

Comments

    Vanessa Rodrigues

    (outubro 9, 2017 - 8:57 am)

    Eu adoro crônicas e Veríssimo é meu favorito! Também não acho que é um gênero literário menor e acredito que é uma porta de entrada para literatura mais densa e igualmente grandiosa.

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