assinar: Posts | Comentários
procure no site
Desisti de salvar o mundo, pois passei a ler – Vilto Reis
Acredito que todo o leitor alimenta certo sentimento de revolta. Não por querer, mas por não ter opção. O mundo, aos olhos de quem lê, é apresentado sem o véu social ilusório que as pessoas que não leem estão habituadas a acharem normal.
Sempre fui deste time de revoltosos. Acreditava que tinha que mudar o sistema, mas alguns bate-papos com velhos amigos me fizeram mudar de ideia. Chamo-os de amigos, pois é desta forma que vejo os escritores que leio.
Henry D. Thoreau foi meu comparsa em uma ideia que sempre alimentei, mas que ele verbalizou muito melhor há mais de cem anos atrás: “O dinheiro não pode comprar uma única necessidade da alma”. Acredito nisso com todas as minhas forças, afinal ele pode comprar companhia, mas não amigos; pode comprar bens, mas não felicidade. Ah! Esta última coisa que falei, aprendi com um amigo meu lá da Alemanha, certamente você já ouviu falar, Arthur Schopenhauer, em seu ensaio O vazio existencial. Ele diz que o homem traça um objetivo e depois de conquistá-lo cai no tédio. É por isso que aquilo que você compra pode te trazer uma alegria momentânea, mas não uma felicidade contínua, logo, você acaba caindo no tédio novamente.
Dei esta volta toda para explicar o título do texto e chegar ao último amigo de que quero falar, Daniel Quinn. Este escritor, dos que eu falei o único vivo, desconstruiu meu conceito de civilização e sociedade. Diferente de outros autores, ele me mostrou os erros do sistema ao longo de três livros: Ismael, Meu Ismael e A história de B. Estupefato com o choque de realidade, eu ainda alimentava a ideia de mudar a sociedade, ou poderia dizer: salvar o mundo; mas no quarto livro que li dele, Além da civilização, percebi uma alternativa diferente. Nosso modelo social está falido e fadado à ruína. As pessoas sabem disso, entretanto, esperam um salvador, alguém que redima esse sistema ou até mesmo o mundo! Quinn nos oferece outra alternativa. Antes de tentarmos melhorar a aparência de uma fruta em processo de decomposição, por que não pegamos outra do galho? Por que não abandonamos a fruta podre e tentamos pegar outra?
Este é o motivo que me fez desistir de salvar o mundo, comecei a ler. Não precisamos salvar o mundo ou o sistema. Podemos simplesmente abandoná-lo. Achar que podemos salvá-lo é arrogância. Esperar por um redentor para a bagunça que nós criamos é muito cômodo. O meio-termo é abandonarmos o que não funciona e buscarmos algo que funcione.
E você, ainda quer salvar o mundo?
Posts relacionados:
Vilto Reis
Vilto Reis é contista, roteirista, redator publicitário, criador do site Homo Literatus e do LiteratusCast. Quando não está lendo, escreve; porque, segundo ele, não lhe resta opção, sente-se obrigado. Nos primeiros anos da escola era introspectivo e tinha déficit de atenção, um presságio para o seu apreço exagerado pela ficção, beirando o absurdo ao afirmar que a realidade não existe (ou seja, talvez você não esteja lendo este texto, é sério).


















Depende do ponto de vista. Creio que meu Redentor viva, mas essa é outra história.
Já abandonei o mundo faz tempo…
É verdade Tai, mas você saber que desta outra história nós compartilhamos a opinião.