Dunkirk

Vale a pena assistir Dunkirk, novo filme de Christopher Nolan?

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Há muitas formas de se contar uma história. Dependendo o tipo (romance, ação, suspense, terror etc.), temos um vocabulário comum para trabalhar o gênero, não importando o meio. Com a cultura de massa, vem a produção em massa. Logo, você tem de pensar: o que eu posso trazer de diferente e novo para este gênero? A resposta de Christopher Nolan para os filmes de guerra foi Dunkirk.

Existe muito pouco do que se espera de um filme de guerra em Dunkirk. Na verdade, ao assistir o filme no cinema, a apreensão do que aconteceria me lembrou de um dos grandes blockbusters da minha infância, Velocidade Máxima. Não por acaso, ao fazer pesquisas para este texto, um dos filmes indicados pelo diretor como inspiração e modelo para Dunkirk foi Velocidade Máxima. De fato, ao ler a lista, notei como muitos outros que havia apenas dois filmes de guerra dentre os onze – e isso indica muito da subversão proposta por Nolan.

Não entenda errado, Dunkirk não é uma subversão no estilo de Quentin Tarantino. Este gosta de fazer longas pesquisas com filmes do gênero a ser trabalhado, rastrear seus clichês, vícios e falhas, para então usá-los contra o gênero em si. Django Livre e Os oito odiados são bons exemplos disso. Nolan, porém, quebra as expectativas de outra forma.

Primeiro, não é um filme com heróis ou vilões – ao menos visíveis. Toda a ação se passa na praia de Dunquerque, norte da França, após a retirada das tropas aliadas (então, França, Inglaterra e Bélgica) da Alemanha nazista (para evitar a explicação chata e vazia sobre o porquê da retirada, clique no link do Wikipédia a seguir para se ter uma breve ideia sobre). O cenário estático mostra um punhado de soldados tentando sobreviver na praia enquanto aguarda o resgate para retornar à Inglaterra. Apesar de ser dividida em três narrativas (uma no ar, que dura uma hora; uma no mar, que dura um dia, e a da praia, que dura uma semana), todas convergem para o mesmo lugar e o mesmo objetivo: o resgate das tropas na praia. Até aqui, nada original. Há dúzias de filmes e livros com resgates de soldados atrás ou na borda das linhas inimigas, sendo o mais conhecido O resgate do soldado Ryan. O que Nolan nos proporciona é um mundo no qual o esperado heroísmo da guerra dá lugar ao sentimento mais simples da humanidade: o instinto de sobrevivência. Ao céu aberto, com chuvas constantes, frio intenso, sendo atacado periodicamente por aviões nazistas e sem abrigo o que sobra é a tentativa ininterrupta de sobrevivência. Não existe grandes ações ou heróis para salvar o dia, muito menos vilões para serem culpados (De fato, e este é um ponto a ser destacado, você pode assistir o filme sem a mínima ideia do porquê eles estão ali e quase sem notar que o inimigo, nunca mostrado, são as tropas nazistas). Ao invés de uma ação heroica, de grandes viradas e pessoas dando a vida pelo bem maior ou qualquer besteira do tipo, Dunkirk mostra soldados derrotados e tensos à espera de resgate. Uma espera constante e prolongada.

O objetivo final de Dunkirk existir é este: imergir o público de forma constante dentro da tensão na praia. Só. O filme traz um problema (a sobrevivência ou não dos soldados enquanto aguardam resgate) e pum, o plot começa e se desenvolve durante uma hora e quarenta. Soa familiar? Velocidade Máxima. Isso mesmo, o princípio é o mesmo. Cria-se um problema de plot desde o início e a partir daí se segura a tensão da situação. Se há algo que a ficção fez desde sempre – e quando digo desde sempre, digo desde Homero – foi mentir sobre a grandiosidade ou sentido da guerra, quer sejam positivos ou negativos. A maioria dos filmes e histórias do gênero sempre constrói sua história para mostrar os horrores da guerra (clichê antibelicista) ou exaltá-la enquanto pujança da nação (clichê belicista e, hoje, da série Transformers, sabe-se lá o motivo). O espaço para grandes ações tem lugar em grandes histórias com grandes expectativas, Dunkirk é uma trama simples, sem idealizações, positiva ou negativa, a partir de um plot modesto e constante. Isto frustra muitos que querem ver um grande filme de guerra e encontram uma busca desesperada pela vida, não importa como. Nolan não está preocupado em julgar, pelo menos não diretamente, os horrores das batalhas, antes apenas imergir de forma perturbadora o público no ambiente de combate, e para isso ele utiliza de todos os meios: montagem, trilha, som (principalmente do som) para que possamos sentir de forma mais aproximada o que é estar naquela situação de fuga. O que nos leva ao segundo ponto.

Dunkirk não é uma trama convencional de guerra. Bem como Glória feita de sangue, de Stanley Kubrick, as batalhas não são o foco principal. O fato escolhido não é uma grande batalha ou avanço de tropas, não há romance, amor ou mesmo nota do passado dos personagens, dos quais nem o nome muitas vezes nós sabemos. As tropas aliadas estão em retirada, envergonhadas e acuadas. O passado de quem tenta sobreviver não importa, afinal, todos esperam pelo mesmo fim. Dunkirk mostra o corpo anônimo de homens e mulheres, soldados, enfermeiras, comandantes, civis e todo o resto envolvido em um salve-se quem puder. Uma das críticas mais ferozes ao filme é a falta de desenvolvimento dos personagens, atitude esta tomada conscientemente por Nolan. Ali, cansados e acuados, ninguém se importa e não faz nenhuma diferença a personalidade dos soldados. Todos querem voltar para casa, sãos e salvos. Não há grandes personagens, históricos ou ficcionais, como o capitão John Miller Jr (Tom Hanks) de O resgate do soldado Ryan ou Pedro Bezukov de Guerra e paz. Existe um gigantesco corpo de anônimos e semianônimos em retirada, levados aos seus limites pela situação, em vigília constante em busca de sobrevivência.

E como Nolan constrói essa ideia? Com o mínimo de diálogos possíveis. O foco constante na ação dos personagens, sem momentos de expositivos (pelos quais o diretor é tão criticado) ou momentos de abertura. A tensão de se vai ou não sobreviver e como são o objetivo, o foco e a única razão do filme existir. Em uma cena inicial, por exemplo, quando dois dos protagonistas tentam adentrar um navio que leva os feridos, a sua tentativa de adentrar no barco é o ponto de tensão criado. Se eles entrarem, há uma chance de salvação, caso contrário, apenas mais um período na praia no aguardo do pior ou do resgate. Eles, contudo, não levam uma pessoa importante ou alguém que eles se importam, apenas um anônimo como eles, semimorto, ao qual serve apenas para o seu objetivo. Não importa se este ser secundário sobreviverá. Para ambos, se eles tiverem a chance, isto é o que importa. E não há nada de mal, pelo contrário, são apenas jovens acuados pela guerra e pela derrota tentando salvar a própria pele.

A grande subversão não está no roteiro mínimo, quase inexistente, nos personagens ou em uma ação frenética e visualmente bela (apesar deste último existir), e sim em uma imersão constante e permanente do risco de vida na guerra durante um fato pouco explorado na historiografia da Segunda Grande Guerra. Só.

Se você aguarda um grande épico, com batalhas gigantescas e cenas de ação constantes, não veja Dunkirk. Se você procura uma ação o mais próxima do real, com elementos que você reconhece da sua experiência cinematográfica ou pessoal, este talvez seja o seu filme.

José Figueiredo Author

Coeditor do HL, participante do 30:MIN, idealizador e editor da Pulp Fiction. Um completo desastre na vida.