Eduardo Lages e o ativismo literário na Avenida Paulista

Em um pequeno stand improvisado na Avenida Paulista, Eduardo Lages vende diariamente o seu livro Querido Jaime, enquanto escreve outro, que se chamará Enxame

Voltaire, o pai da ironia, costumava dizer que “A leitura engrandece a alma”, e disso não temos dúvida. No entanto, seja porque ler custa caro no Brasil, ou mesmo porque “os donos do poder” sempre souberam que um povo leitor se torna nascedouro de questionamentos ao sistema estabelecido, a última matéria do Estadão sobre o assunto demonstra um retrato contraditório, mas ainda não tão belo, da leitura no país, segundo o qual, embora os índices de leitura tenham melhorado sensivelmente entre 2011 e 2015,  44% da população brasileira não tem o hábito de ler e, pior ainda, 30% nunca leu um livro!

Obviamente os números são alarmantes e nós, os leitores, compomos um grupo que, infelizmente, é seleto. Essa é mais uma marca, hedionda, da continuidade do estereótipo de que ler é elitista? Podemos dizer que essa é mais uma razão da dificuldade na escrita contemporânea. Ao novo autor, resta ganhar um prêmio literário e pegar carona num carimbo de aprovação de estilo, ou rezar para a sorte lhe ser mais cara.

Nesse cenário é que achamos o Eduardo Lages no coração da Avenida Paulista, vendendo diariamente o seu livro Querido Jaime, enquanto escreve outro, que se chamará Enxame, num pequeno stand improvisado enfeitado com dizeres como: “já conheceu um livro novo hoje? CONHEÇA O MEU!”. Tivemos o prazer de entrevistar esse que é mais um escritor contemporâneo lutando para ser lido num cenário não tão favorável, como o pintado acima. Confira!

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HOMO LITERATUS – Em matéria do mês passado, o Estadão anunciava percentuais um tanto contraditórios, mas que demonstravam certo retrato da leitura no Brasil: segundo o jornal, embora os índices de leitura entre 2011 e 2015 tenham melhorado sensivelmente, 44% da população não lê e 30% nunca comprou um livro. Qual a tua sensação enquanto escritor e leitor sobre isso?

EDUARDO LAGES – Minha sensação, enquanto escritor, é que essa foi uma melhora muito significativa e importante, visto que os incentivos à formação de novos leitores são mínimos no Brasil. A escola é uma catástrofe em matéria de formação de leitores. Então, eu chego à conclusão de que esse aumento no percentual de leitores é uma vitória exclusiva do povo. O brasileiro comum, e não o Estado, é o único responsável pelo interesse por livros ter aumentado. Não sei em outras regiões do Brasil, infelizmente eu sou um cara pouco viajado, mas aqui em SP, eu entro no metrô e vejo muita gente lendo, e isso tá aumentando a olhos nus, é lindo.

H L – Ler tem custado cada vez mais caro. Na tua opinião, quais as alternativas efetivas para o escritor contemporâneo, ainda não descoberto pelos holofotes, atrair leitores?

E. L. – Eu acredito que os livros sempre foram um item considerado caro pelo brasileiro comum. Sempre foi elitizado, mas acho que as pessoas estão lentamente passando a enxergar o livro como algo que vale o investimento e topam pagar o preço. Muito jovem que reservava uma grana pra ir ao cinema no final de semana, agora assina o Netflix e usa o resto da verba pra investir em livros, pela coisa do fetiche da leitura mesmo. Ter livros, etc…  Como escritor, eu procuro chamar atenção pela maneira como eu trabalho, eu me exponho bastante, sem dúvida, e penso muito em como baratear o meu livro, pra ser acessível.

H L – Num período de turbulência política e crise democrática, a Av. Paulista tem sido palco de gritos, passeatas e, às vezes, truculência. Você tem sentado diariamente (?) na Av. Paulista para, num stand simples, porém enfeitado, vender seu livro enquanto escreve outro. Conta um pouco sobre essa ideia.

“Eu tenho uma ligação muito íntima com a rua, gosto de ficar ali, e a ideia de escrever e vender os livros lá veio quando eu percebi que não prestava pra nenhum outro trabalho”

E. L. – Eu estou de segunda a sexta lá na Paulista. Vendo meu primeiro livro, Querido Jaime, enquanto estou ali com minha cadernetinha, escrevendo o próximo. Eu tenho uma ligação muito íntima com a rua, gosto de ficar ali, e a ideia de escrever e vender os livros lá veio quando eu percebi que não prestava pra nenhum outro trabalho (risos). Por formação sou designer, trabalhei em algumas agências, mas o que eu gosto mesmo é de ficar parado na esquina, vendendo uns livrinhos que eu faço. A Paulista é palco de ativismo diariamente, é verdade. Eu acabo presenciando tudo isso. Vendo os dois lados da moeda, e isso tem feito muito bem pra minha cabeça, tem aberto algumas janelas pra enxergar o movimento interessante que a sociedade reproduz.

H L – Partindo um pouco do ponto acima, escrever geralmente é visto como um ato de solidão e vender livros um teatro necessário, às vezes bastante enfadonho. Conta tua opinião sobre isso, já que escreves numa das mais conturbadas avenidas do país, enquanto vendes outro livro.

E. L. – É ótimo pra mim, escrever enquanto um turbilhão de pessoas passa na minha frente. As coisas nunca ficam chatas, mesmo. Além disso, eu já fiz amizade com todo mundo que trabalha na rua, os camelôs, é muito divertido; tem gente de todo lugar do país, eu sinto como se tivesse caído bem no meio do Brasil. Eu acho muito engraçado essa coisa de sotaques,  acabo trazendo um pouco disso para o novo trabalho que estou escrevendo.

H L – Indica quatro escritores brasileiros e estrangeiros que, de algum modo, influenciaram tua literatura ou mesmo tuas demais leituras.

E. L. – Machado de Assis, Marcelo Quintanilha, Mutarelli e José Roberto Pereira. Bukowski, Giuseppe Berto, Elena Ferrante, Zola.

H L – Já que soa muitas vezes azarento falarmos da obra que estamos escrevendo, fala um pouco da obra que você está lançando.

E. L. – Falo sobre as duas, sem problema. O Jaime é um velho solitário, que muito raramente sai de casa, e num certo dia acaba deixando seu lar e se perdendo na cidade de São Paulo. Aí eu vou jogando os dramas e conflitos, nesse dia atípico da vida do personagem. O meu segundo livro se chamará Enxame e vai falar sobre o cotidiano da vida de um menino que tem uns pesadelos estranhos, alguns traumas, e passa por algumas situações engraçadas e dramáticas.

Mario Filipe Cavalcanti Author

Advogado graduado pela Ufpe, escritor, prêmio Pernambuco de literatura com o livro "Caninos amarelados" (Cepe, 2016), leitor voraz e pianista retraído, é ainda algumas coisas mais e, sobretudo, absolutamente nada.