Em defesa dos chatos!

Chatos
Os chatos

 

Há uma figura que, independentemente da época, é sempre rechaçada: o chato. Não sei bem o porquê, mas nutro uma simpatia pelos chatos e, mais do que isso, para mim, eles são fundamentais para que o mundo caminhe em frente. Na literatura, então, eles ainda são poucos, bem mais numerosos do que em outras áreas, mas nada que supere a classe dos contadores (sem ressentimentos, gosto dos chatos, como já mencionei). Enquanto o mundo distribui sorrisos fáceis, geralmente falsos, e muitos tapinhas nas costas, os chatos estão aí: eles são socos no estômago, dizem verdades inconvenientes, parecem esnobes e, o melhor, desdenham tudo e todos sem pudores. Gosto disso!

Demorei muitos anos para chegar aos textos dos chatos estilosos, com prosas encantadoramente ácidas. Ah, só de pensar o quanto demorei para chegar nesses malditos… Chego a ficar tristemente alegre! O importante é que cheguei a essas obras (ou essas obras chegaram às minhas mãos e pelos olhos foram devoradas). O primeiro, como todo bom chato que se preze, não se revelou facilmente para mim. Pinçado do alto de uma prateleira repleta de livros espremidos, um exemplar cinza e com apenas título e autor, sem nada na orelha e na contracapa nem uma fotinho sequer, fez meus olhos brilharem. O silêncio cinza de J.D. Salinger em seu memorável O Apanhador no Campo de Centeio teve um profundo efeito sobre mim.

Ainda lembro que iniciei a leitura das 205 páginas no início de uma madrugada fria em Porto Alegre. O que foi aquele primeiro parágrafo? Um soco no queixo? Não, quase isso! Não importa, estava fisgado e desde então sou um fervoroso fã do mais chato dos adolescentes (desculpe a redundância), Holden Caulfield! Sim, a obra máxima de Salinger, um chato de primeira ordem que sonhava com o estrelato literário e, quando o conquistou, não soube lidar com a fama, só potencializou toda a admiração que sinto pelo recluso autor. Depois de Holden, mergulhei nas tramas da Família Glass, na qual o escritor nova-iorquino manteve o tom irônico e ácido que me servia de combustível. Pela primeira vez, pensei: quero escrever como esse cara!!!

Terminada a leitura da última página da obra de Salinger, passei a me dedicar a um esporte um tanto incomum: encontrar outros chatos que nem ele… Como um devido investigador, infiltrei-me no universo dos chatos e fui, entre eles, descobrindo outros tantos nomes. Alguns me indicaram Thomas Pynchon, cuja obra ainda não li, afinal, o cara deve ser realmente chato, cada livro dele é maior que a Bíblia… Outros me indicaram mais um americano (será que é por isso que eles elegeram o mais chato e vazio dos presidentes?), David Foster Wallace! Gostei, mas não me causou o impacto de um Salinger. Eis que, enquanto minha busca mais sofria baixas do que qualquer outra coisa, um amigo escritor, para quem eu havia mostrado o início de um texto no qual vinha trabalhando, sugeriu um nome austríaco: Thomas Bernhard!

Outra bomba de impacto literário!

Mais do que Salinger, o tom extremamente ácido, irônico, sarcástico e não dando a mínima para o status quo, Bernhard foi além do que eu imaginava. Havia, enfim, encontrado o rei dos chatos literários! O cara simplesmente diz com extrema propriedade as verdades que eu gostaria de jogar na cara de muitos. Iconoclasta, este austríaco derruba uma penca de mandamentos fajutos que norteiam a minha e a sua vida… Uma sequência de informações ilógicas que nos são empurradas goela abaixo sem que ao menos sintamos o gosto e questionemos os porquês. Sensacional!

Li a obra de Bernhard traduzida, um feito digno do chato que sou, afinal, muita coisa do autor está fora de catálogo. Tive de suar a camisa e percorrer sebos do Rio e de Porto Alegre até encontrar os últimos exemplares disponíveis na Estante Virtual. Fui ao limite, onde mais um chato poderia ir? Em cada página, um rigozijo, quase um orgasmo! Em Origens e o impagável Meus Prêmios, Bernhard fez em mim mais do que um fã, um seguidor, tornou-me um pretendente a chato. Isso mesmo! A cada estocada, opa, quero dizer palavra, despejada no texto, um corte, um tapa, uma cusparada… Que texto! Que texto!

O Brasil também produz chatos afiados, muitas vezes mal compreendidos e, por isso, duramente atacados. O que dizer de um Nelson Rodrigues, que barbarizou a literatura e a dramaturgia brasileira com aqueles escabrosos casos extraconjugais em plena década de 1940? Se os textos ainda têm poder de choque nos dias de hoje, imagina naquela sociedade defensora da moral e dos bons costumes décadas atrás. Vestido de Noiva e Meu Destino é Pecar, esse último título assinado com o pseudônimo Suzana Flag, além do sempre provocativo A Vida como Ela É, provam que Rodrigues era mesmo um dos chatos da literatura nacional. Numa linguagem fluida, diria até leve, o “anjo pornográfico”, como também era conhecido, destilava ali verdades que só um chato literário tem a capacidade de dizer! Uma maravilha que merece ser revisitada com frequência!

Outro legítimo exemplar da boa e velha chatice tupiniquim é Rubem Fonseca, afinal, que outro autor seria capaz de desnudar as mazelas que assolam nosso país, num tom provocativo que beira um tapa na cara? O que é o belíssimo Feliz Ano Novo? Afinal, quem mais colocaria um bando de ladrões na casa de gente finas em plena festa de Réveillon para evidenciar as desigualdades que, de tão profundas, já fazem parte do cenário brasileiro, ou que mostra um rico entediado que pega o carro para atropelar pessoas com a finalidade de “desopilar”? Só pancada da melhor qualidade! Os textos de Fonseca dizem tudo o que não queremos ouvir, mas ele “fala” como se ostentasse um sorriso dócil enquanto despeja farpas que causam impactos no leitor! Secreções, Excreções e Desatinados é outro livro que merece ser lido e relido várias vezes. O próprio título já deixa um gosto amargo na boca! É isso que os chatos literários, tão fundamentais para leitores como você e eu, fazem!

O chato, ao contrário dos sorrisinhos falsos e tapinhas nas costas, desnuda a verdade das coisas. Às vezes deturpam, mas não fazem isso gratuitamente. No exagero é que eles conseguem nos levar além do que os queridinhos costumam nos direcionar e, assim, abrimos o horizonte que nos cerca! Foi lendo J.D. Salinger, Thomas Bernhard, Nelson Rodrigues e Rubem Fonseca que decidi solenemente que eu seguiria, para sempre, o caminho dos chatos, da oposição à maioria, o que percorre trilhas diferentes, o que aplaude pouquíssimas iniciativas, porque duvida de todas!

O mundo, claro, não é só mazela nem só alegrias, o chato é o cara que encontra o equilíbrio das coisas. Um tanto pessimista, admito, mas que se dilui em meio a tantas futilidades e vaidades. Os chatos não querem os holofotes da glória nem da fama vazia! Geralmente, eles vêm ao mundo, pelo menos da literatura, para dizer o que precisam e para, logo em seguida, sumirem na escuridão, para nunca mais serem encontrados.

Um brinde à escuridão que clareia o nosso mundo!

Antonio Munró Filho Author

Formado em Jornalismo e em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Grande do Sul (PUCRS), Antonio Munró Filho tem larga experiência na área de comunicação. Entre 2001 e 2012 trabalhou nos jornais Zero Hora e O Sul, dois dos principais veículos impressos do Rio Grande do Sul. Vive no Rio de Janeiro desde 2012 e, atualmente, faz uma pós-graduação em Literatura, Arte e Pensamento Contemporâneo.