“Literatura é soco em ponta de faca” – Entrevista com Diego Moraes

Diego Moraes é um porralouca que acha que fazer literatura é a coisa mais foda do mundo, palavras do próprio escritor

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Diego Moraes é um escritor Manauara. Autor dos livros: A fotografia do meu antigo amor dançando tango (2012) e A solidão é um deus bêbado dando ré num trator (2013), publicados pela Bartlebee; Um bar fecha dentro da gente, pela editora portuguesa Douda Correria; e Eu já fui aquele cara que comprava vinte fichas e falava ‘eu te amo’ no orelhão, pela Corsário-satã e o recém-lançado Meu coração é um bar vazio tocando Belchior. Moraes pega pesado na hora de escrever, mas sua escrita é cheia de lirismo.

Em entrevista para o Homo Literatus, Moraes conta um pouco sobre sua vida e sua literatura.

Homo Literatus: Quem é o Diego Urso Moraes?

Diego Moraes: Um porralouca que acha que fazer literatura é a coisa mais foda do mundo.

HL: Começou a escrever com que idade? Lembra do primeiro conto que escreveu?

DM: Escrevi meu primeiro conto aos 16 anos no quarto de uma tia professora que faleceu recentemente. Ela tinha muitos livros. Através dela conheci Rubem Fonseca, Graciliano Ramos e Lima Barreto. A pegada desse primeiro trabalho era gospel. Falava de uma mina que convertia um bissexual numa boate gay. O que me lembro dele é que no final os dois casam e morrem na velhice. No mesmo dia. Eletrocutados pelo mesmo raio.

HL: Teus contos são curtos e agora você está escrevendo um romance. Como foi essa transição?

DM: Passei muitos anos escrevendo contos. Correndo cem metros rasos. Agora é arrumar fôlego e encarar maratonas. Esticar a narrativa. Confesso que bate uma puta ansiedade. A sintaxe de contista é foda. Bate fissura de terminá-lo como conto. O lance é ter serenidade e alongar o passo. Aumentar a noia.

HL: Conta como é teu processo na hora de escrever, as diferenças entre os poemas, contos, e agora, o romance.

DM: Não tem processo ou disciplina. Basta estar de ressaca ou sóbrio pra escrever poesia, conto, peça, roteiro e agora romance. Tem uma parada que o Baudelaire disse que guardo comigo: “ser sempre poeta, mesmo na prosa”. E já era.

HL: Qual importância do fracasso na tua escrita?

DM: Sou fracassado desde quando nasci. Sou um fracasso econômico. Fracassado no amor. Sempre fazendo merda quando encho a cara. As sarjetas de Manaus e São Paulo me conhecem. Fracassadão na vida. Não sou formado em nada. Não tenho nenhum curso do Senai. Minha tábua de salvação é a literatura. Sou o zero cosmológico. Se meu romance não engrenar acho bom pensar num plano b ou suicídio. Estou cansado de humilhações.

HL: Literatura já tirou teu nome do Serasa? Qual conselho que você tem para quem está começando a escrever?

DM: Fazer literatura é aumentar a dívida no Bradesco. Eu sou doente mental. Só posso ser louco de querer viver de literatura num país onde reinam milhões de analfabetos e miseráveis. Meu conselho a jovens autores? Literatura é soco em ponta de faca. Desista. Peça para o papai pagar curso de direito ou medicina e viva bem. Tenha uma família estilo comercial de margarina e seja um idiota feliz. Ou melhor: vire pastor e ande de Hilux.

HL: Como você enxerga a literatura contemporânea?

DM: Tem uma galera boa. Um monte de gente evoluindo. Melhorando. Publicando na internet e fazendo correr pelas beiradas.

HL: Queria que você indicasse autores contemporâneos que vale a pena ler.

DM: Mário Bortolotto, Reinaldo Moraes, Bruno Bandido, Marcelo Benvenutti, Marcelo Mirisola, André de Leones, Adriana Brunstein, Bruno Brum, Fabiano Calixto, Kleber Félix, Ricardo Lísias, Roberto Menezes, André Timm, Marcia Barbieri, Cristina Judar, Marcelo Adifa, Aldo Júnior, Eduardo Lacerda, Luiz Biajoni, Nydia Bonetti, Tarcisio Buenas, Eduardo Sabino, Nina Rizzi, Luiz Felipe Leprevost, Marcelo Montenegro, Ana Farrah, Felipe Pauluk e Ingrid Carrafa. Esqueci uma galera, mas é isso.

HL: Longe das grandes editoras e até das editoras pequenas, existe um movimento grande de escritores na internet. A internet tem seu peso no meio literário? Conhece gente boa que só publica seus textos na internet?

DM: A internet é o big brother dos escritores pobres. Tem que usar a ferramenta. Se vender mesmo. Mostrar o trampo e foda-se. Uma hora pinta leitores, fãs, sexo e editora.

HL: Vale a pena ser escritor no Brasil?

DM: Se você odeia dinheiro e gosta de humilhações, faça literatura. É preciso vocação pra se foder.

HL: Você é manauara, como é ser escritor em Manaus? Como anda a literatura no Norte do país?

DM: Minha cabeça roda em Hollywood. Moro em Manaus, mas é como se estivesse no exílio. Não vivo a cultura da cidade. E também parei de acompanhar a literatura faz tempo. É muito ego, mesquinharia e fuleiragem pra pouco lirismo. Manaus é a cidade dos gerentes de cultura. Dos diretores literários. Dos vereadores da poesia. Já percebeu que todo mundo é artista? Gente que não produz nada e paga de artista. Que aparece na televisão, mas a gente não vê produção. Manaus é a capital dos embustes.

HL: Urso Moraes. Ainda sonha em trabalhar com cinema?

DM: Penso em trabalhar com cinema e abrir um puteiro. Terminar meus dias comendo índias num flutuante no rio negro.

HL: Quem é feliz no domingo à noite?

DM: Quando a gente morre, toca a vinheta do corujão.

Paulo Monteiro Author

Manauara, nascido no ano de 1991. Amante de literatura, cinema e quadrinhos