Escrever muitos livros é um problema?

Será que o mito (ou rótulo?) do “escritor que escreve pouco é escritor bom” vale para todos os casos?  Ou: 10 escritores e escritoras que parecem não se importar com isso!

Ignácio de Loyola Brandão

Em entrevista ao Cândido, jornal da Biblioteca Pública do Paraná, Ignácio de Loyola Brandão foi denominado pelo jornalista Luiz Rebinski Junior como “um dos escritores mais prolíficos da literatura brasileira”, isto é, um escritor que escreveu muitos livros, e neste caso específico: livros dos mais variados gêneros literários (romances, contos, crônicas e biografias).  Para quem não sabe, Brandão já escreveu mais de 40 livros, em quase todos os gêneros literários, ganhou diversos prêmios, participa com frequência de eventos de literatura no país todo e é autor de Zero e Não verás país nenhum, dois importantes romances brasileiros do século XX.

Ainda em relação à entrevista, o jornalista perguntou como se dá o processo de escrita de Brandão. O escritor respondeu o seguinte:

“Leo Gilson Ribeiro, um bom crítico que já morreu, um dia sentou-se ao meu lado, fomos amigos, trabalhamos na Abril juntos, certa época e me disse: “Vou te dar um conselho. Você escreve demais. Tire o pé do acelerador. Os grandes escritores são os que escrevem pouco, são parcimoniosos. Veja o Raduan Nassar.” Raduan sempre foi celebrado por seus escassos livros. O meu “problema” talvez seja a compulsão. Escrevo, tenho de escrever, é o que me dá vida. Talvez eu não seja um grande escritor. Mas sou um escritor. Não estou aqui para disputar corridas de Fórmula 1. Mas dou alguma contribuição no meio de campo, fazendo alguns lançamentos para o pessoal da área. De qualquer forma sinto que tenho dois marcos: Zero Não verás país nenhum. São aquilo que em golfe se chama longest drive. Acertar o buraco 18 numa tacada só, de longuíssima distância. Não, não jogo golfe, mas sei certas coisas inúteis. Nunca sei se a situação será conto ou romance. Sei quando é crônica. Isso tenho certeza. E quando sei, sento e escrevo e guardo, depois trabalho e retrabalho. Pega ele silêncio seria um romance, que virou conto. Bebel que a cidade comeu seria um conto, que virou romance. Não verás país nenhum começou como um conto, O homem do furo na mão, e se transformou em um romance. Às vezes, sei que é um conto, a situação tem fôlego curto. Aliás, faz muitíssimo tempo que não escrevo um conto”.

Como podemos perceber o que move a escrita de Ignácio de Loyola Brandão é o seu desejo de viver. É a escrita que lhe dá vida e que o salva. E quanto a escrever muito, ele menciona que talvez não seja um bom escritor, como estes que escreveram poucos livros, como é o caso de Raduan Nassar. No entanto, ele parece não se importar com isso, porque de qualquer modo a escrita, para ele, talvez seja um caso de compulsão nada negativa.

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Evidentemente, não é só Brandão que pode ser chamado de escritor prolífico. Há muitos outros escritores e escritoras nacionais que escreveram vários livros, dos mais variados gêneros literários, e que nem por isso podem ser taxados de escritores ruins ou menores (termo que alguns críticos literários adoram). Escrever com qualidade não necessariamente é sinônimo de poucos livros publicados, livros nos quais os escritores passam décadas de suas vidas indo e voltando ao texto, tirando-o da gaveta inúmeras vezes.

Como exemplos de escritoras e escritores brasileiros que escreveram muitos livros, publicados tanto durante suas vidas quanto postumamente, temos:

  1. Rubem Fonseca – cerca de 30 livros, entre contos, romances e crônicas, além de textos em antologias;
  2. Marina Colasanti – cerca de 40 livros, entre contos, poesias e literatura infantil e juvenil, além de textos em antologias;
  3. Lygia Fagundes Telles – cerca de 22 livros, entre contos, romance, além de antologias e coletâneas.
  4. Moacyr Scliar – cerca de 60 livros, entre contos, romances, crônicas e ficção infantil, além de textos publicados em antologias e coletâneas e ensaios.
  5. Jorge Amado – cerca de 36 livros, entre romances, memórias, biografia, teatro, crônicas e literatura infantil.
  6. Clarice Lispector – cerca de 23 livros, entre romances, contos, livros infantis e crônicas, além de correspondências.
  7. Érico Veríssimo – cerca de 35 livros, entre romances, contos, biografia, autobiografia, narrativas de viagem e livros infantis e juvenis, além de ensaios e compilações.
  8. Machado de Assis – cerca de mais de 35 livros, entre romances, contos, peças de teatro e poesia.
  9. Ana Maria Machado – cerca de 37 livros, entre literatura infantil e juvenil, romances biografias e livros teóricos.
  10. Carlos Drummond de Andrade – cerca de quase 60 livros, entre poesia, literatura infantil e prosa, além de textos publicados em antologias.

É claro que estes escritores e escritoras são apenas uma pequena parcela daqueles e daquelas que possuem uma vasta lista de livros publicados. E é importante mencionar que estes dados acima não são de fato precisos como gostaríamos, uma vez que é difícil enumerar com exatidão as obras literárias com base em poucas pesquisas.

Os autoras e os autores mencionados acima são grandes nomes da literatura brasileira que são reconhecidos em outros países, com seus livros publicados em vários idiomas. Muitos são lidos e estudados em várias escolas e universidades brasileiras até hoje. O fato de terem publicado vários livros não lhe tiram o mérito de serem grandes escritores e escritoras, pois suas obras têm qualidade e muitas delas foram premiadas, inclusive.

Será que o mito (ou rótulo?) do “escritor que escreve pouco é escritor bom” vale para todos os casos? Acreditamos que não. Resta-nos, então, pensar o que será que motivou os escritores e as escritoras a escreverem tanto. Talvez, assim como no caso de Ignácio de Loyola Brandão, seja a escrita a mola propulsora que faz com que sintam vivos!

 

Estela Santos Author

Editora e colaboradora do Homo Literatus. Mestra em Letras - Estudos Literários (PLE-UEM). Mediadora do #LeiaMulheres. Twitter: @psantosestela