Escritores e o medo de avião

Falemos do medo de avião que escritores como Gabo, Jorge Amado e Suassuna tinham

Em 1980, o escritor que já imaginara pelotões de fuzilamento e chuvas de quatro anos seguidos confessou em um artigo no jornal El País um temor maior: “seamos machos: hablemos del miedo al avión”. Gabriel García Márquez, em uma noite de viagem sem nuvens entre Miami e Nova York, entendeu que seria mágico demais uma máquina como aquela voar e chegou a prometer que jamais embarcaria de novo. Teve apoio de colegas de ofício como Carlos Fuentes, que certa vez passou uma semana de trem em trem para chegar da Cidade do México a Nova York. Contudo, outros amigos com tanta tremedeira e superstições para zonas de turbulências e afins convenceram o colombiano que o maior medroso é aquele que voa. Após dez anos longe dos aviões, Gabo seguiu a desbravar o mundo, com a única garantia de uma vela de sua mãe permanentemente acesa apenas para esses casos.

No mesmo artigo, entre “machos” como Picasso, Oscar Niemeyer, Ruy Guerra e Miguel Otero Silva, é citado Jorge Amado. Sabe-se que o baiano tinha uma fascinação por barcos e, em sua quase autobiografia, viu-se mesmo como um marinheiro em uma navegação de cabotagem. É decerto um gosto pelo mar, intensificado talvez por seu desapreço pelo ar. Em uma carta vinda do exílio, no final dos anos 40, contou para Zélia que sobreviveu em um voo entre Paris e Praga apenas “por um milagre”, com direito a explosões de motor e descidas entre montanhas. Chegou depois a viajar de navio milhares de quilômetros. Mas com certeza seu amigo Vinícius de Moraes viveu trauma maior: em uma viagem de hidroavião ao Uruguai, assistiu à hélice se desprender do maquinário e destruir a poltrona em frente à sua. Entre o Rio e São Paulo, eram famosas as viagens do poetinha apenas de carro, à companhia do não menos medroso Baden Powell. Por sorte, o convívio por horas na autoestrada fez surgir sambas inteiros.

Vinicius de Moraes, além do acontecimento forte, tinha também na memória a recomendação de Mãe Menininha de Gantois, em uma das consultas feitas na Bahia, para que evitasse entrar em aviões. O mesmo disse uma cigana ao poeta nortista Mario Faustino, em novembro de 1962. Dias depois, ele foi convocado como correspondente do Jornal do Brasil para o México. Em uma das escalas, em Lima, a aeronave decolou e se chocou contra uma montanha. Era a tragédia que mais acometia os maus sonhos de outro poeta do Norte, Ferreira Gullar. Em 2010, recebeu o Prêmio Camões, mas se recusou a viajar para comparecer à cerimônia em Portugal. Com outra homenagem, fez mais desfeita: no Prêmio Moacyr Scliar, de um escritor gaúcho organizado pelo governo do Rio Grande do Sul, convenceu a produção a montar o evento no Rio de Janeiro.

Em “Viagens”, Graciliano Ramos narra a sua primeira preocupação em ser convidado a um Congresso Internacional na URSS, de 1952: “os aparelhos assassinos”. Após perder um amigo para um acidente aéreo, passou a viver de carro, e mesmo de Maceió a Porto Alegre, rumou nove dias na máquina de quatro rodas. Chegara a hora de enfrentar então um voo sobre o Atlântico.

“Estava decidido a não viajar; e, em consequência da firme decisão, encontrei-me um dia metido na encrenca voadora, o cinto amarrado, os cigarros inúteis, em obediência ao letreiro exigente aceso à porta da cabina […] Andei como um gafanhoto, a dar saltos consideráveis por este mundo, sempre dizendo a mim mesmo que não me arriscaria a nova empresa.”

De tantos pânicos, o humor ainda alivia, e ninguém mexeu com mais risos para o assunto do que Ariano Suassuna. Ele, que partiu desse mundo sem nunca ter conhecido outro país, foi obrigado a voar muito em nosso território continental para apresentar suas aulas shows. Certa vez, ao desembarcar em Curitiba, foi recepcionado por um grupo de estudantes que educadamente lhe perguntou se ele havia feito boa viagem. “E isso existe?”, respondeu. “Eu só conheço duas viagens de avião: a tediosa ou a trágica. Tomara então que as minhas continuem tediosas.” Em uma das idas à Bahia, Suassuna quis mesmo ir de carro, e um amigo interveio para dizer que automóveis eram mais perigosos do que avião, por estatísticas. Os números não convenceram o paraibano. Então o amigo exemplificou: “E se seu carro estiver na estrada e vier um buraco, o que acontece? Cai, e você morre.” Suassuna não se conteve: “Pior é o avião: por onde ele vai, o buraco segue embaixo…”

Saulo Dourado Author

É escritor e professor e vive na Bahia. Mestre em Filosofia pela UFBA, publicou os livros de contos "O Autor do Leão (2014)" e "O Mar e Seus Descontentes (2016)", além de histórias infanto-juvenis, como colunista do Jornal A Tarde. Escreve sobre literatura com o prazer de quem bem conversaria uma tarde depois de cada leitura.

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