Filolobia e A Comédia Mundana: três novelas policiais sacanas

“Cara. Para você ter uma ideia, na livraria, A Comédia Mundana é vendida lacrada”.

Biajoni

Como leitor assíduo e etimólogo extraviado, proponho aqui fazer um estudo sobre a língua do Bia: digo, para esclarecer, da linguagem do escritor Luiz Biajoni, autor de A Comédia Mundana: três novelas policiais sacanas (Língua Geral, 2013). Mas, antes deste trabalho etimológico, direi de um sururu, de como cheguei até a obra e ao seu autor.

Conheci o Biajoni ao acaso, através da complexa rede de coincidências proposta pela literatura. Pelo romance que escrevi, O Evangelho segundo Hitler, fiz um amigo no Rio de Janeiro, o querido Márwio Câmara, poeta, escritor, jornalista e investigador cultural de todos os rincões brasileiros. Lembro-me ainda do dia em que ele, pelo Facebook, me disse, mais ou menos com estas palavras: “Cara. Fiz uma reportagem com o Biajoni. Foda, né?” Meu amigo superestimava meus conhecimentos literários, Biajoni me era um total desconhecido, confesso, mas acho que fingi conhecê-lo. Ele continuou. “O Bia é muito bom. Grande pessoa, excelente autor”. “Pois é”, tergiversei, como costumeiramente tergiversamos opinativos sobre aqueles maravilhosos livros que, infelizmente, não lemos. “E A Comédia Mundana é um livraço. Aquilo é o fino”, continuou. Recuei, minha curiosidade sobre um grande livro, neste ponto, ficou maior que minha vontade de transparecer culto. Retruquei-lhe: “É bom mesmo?”, “Porra! Bom? É sensacional”. Recuei outros dois passos, pensando em como extrair mais detalhes da tal Comédia Mundana e do tal Biajoni. Optei, neste ponto do embate, por uma pergunta neutra, que não me comprometeria: “Legal. Diga-me uma qualidade que viu no livro?” Dentre muitos adjetivos, meu amigo disse: “Cara. Para você ter uma ideia, na livraria, A Comédia Mundana é vendida lacrada”. E, dos muitos elogios, a palavra lacrada reverberou em mim. Lacrada, até então, seria elogio a qualquer mocinha, digna de ser protagonista do Bia (como na terceira novela em que o lacre é pressuposto exigido pelo pai-pastor-do-noivo, Aleluia). Mas elogio para um livro? Um livro vir lacrado era algo novo, perturbadoramente novo. Não faz muito tempo, eu era um menor impúbere e sei muito bem que os muros dos selos de “proibido para menores de 18 anos” não eram tão difíceis para serem escalados. Sei também que hoje os tempos são outros, que a Internet – e todas as suas variantes, celulares, redes sociais, whatsapp, snaps chats – acabaram por diluir esse muro de Berlim entre o lado da sacanagem adulta e o adolescente pululando de hormônios. Seria hipócrita ignorar que grupos do Whatsapp de ensino médio possivelmente possuem mais conteúdo adulto que a revista mais cabeluda daquela banquinha tocada pelo senhor puritano de cabelos gris, hoje soando tão antigo quanto um realejo, um SMS ou um título do Palmeiras. Em tempos em que a maior metáfora existente no mundo do consumo literário é a do vampiro e da virgindade e que sadismo e masoquismo são feitos cultura de massa em tons de cinza, para um livro vir lacrado, convenhamos, o buraco tem que ser mais embaixo. Comprei, assim, a Comédia Mundana e adicionei o seu autor no Facebook.  E aqui termina o sururu, aqui começa o trabalho filológico. As experiências que tive como leitor do universo da Comédia Mundana serão despedaçadas, para que meus leitores consigam, enfim, enxergar a linguagem do Bia:

A Comedia Mundana FinalComédia: o termo, sozinho, é facilmente ligado a Aristóteles, que coloca a Comédia em um patamar menos elevado que a Tragédia. Bia, como Aristóteles, também não quer exaltar homens superiores. Seus personagens são mocinhos e anti-heróis comuns, com tesão e brochadas, com dúvidas banais ou que se casam com um médico porque sabem que isso não os levarão ao Paraíso de Beatrice Portinari, mas os darão um cartão de crédito e almoços em restaurantes chiques. A Comédia de Biajoni não se apoia no absurdo, em situações inverossímeis. Bia não é um comediante de stand-up, dizendo besteiras com o intuito de ver a plateia gargalhar. Sua comédia é existente, lacrada, hermeticamente real, porque, apesar de presente, talvez só seja conhecida em registros picantes de uma conversa do whatsapp ou confessada para um padre, que o mandará rezar algumas dúzias de padres-nossos, se é que isso existe ainda. E, neste ponto, para ser verdadeiro, para ser terrivelmente verossímil, a comédia do Bia se aproxima de um conceito aristotélico mais afeito à tragédia: a catarse, que é, conceitualmente, a capacidade de se ver em uma ficção e sentir o vivido pelo personagem; a capacidade de se colocar, por alguns instantes, na pele do personagem fictício. Neste ponto, abro um parênteses e uma pergunta: levante a mão (ou o membro) aquele que leu a Comédia Mundana e não teve uma danada de uma ereção!? Não atirarei a pedra, nem tergiversarei: A Comédia é terrível, deliciosamente catártica e passou no (meu) teste do colo.

Mundana: Ligada ao mundo, o termo é indissociável à Comédia, que, unidos, fazem a menção à Comédia Humana, de Balzac. Também não é preciso muita acrobacia interpretativa pra concluir que A Comédia Humana é a antítese da Divina Comédia, de Dante. Bia, assim, segue o jogo: bebe de fontes literárias e deliberadamente assume o tom de sua brincadeira.  Seu livro é uma corruptela do livro de Balzac, que, por sua vez, é a antítese do famoso poema de Dante. Brincadeira posta, termo final da tradição literária, Bia não se propõe a ser um Dante, que desceu aos círculos infernais, circundou o purgatório e encontrou a virtude, indissociável a sua musa Beatriz. Se A Comédia Humana é antítese do poema dantesco, A Comédia Mundana pode ser colocada como um paradoxo à Divina Comédia. Não se trata apenas de palavras opostas. As ideias, essencialmente, estão com o vetor oposto. A Comédia Mundana é dividida em três (e sobre isso explanarei depois) como o poema de Dante, mas, para Bia, Musa e virtude não andam na mesma trilha (trilha real, eu insisto, trilha perturbadoramente real). Se Capitu não traiu, Machadinho se chamou Alencar. Se as personagens femininas de A Comédia Mundana forem para o paraíso de Dante, Biajoni se chamou Carpinejar. E tenho dito.

Três: Neste ponto, faço menção aos três subtítulos das novelas: Marrom, Vermelha, Cor de Rosa. Já neste ponto, com as citadas brincadeiras de um autor que bebe da tradição, impossível não pensar na trilogia das cores, os três célebres filmes do Kieslowski – Azul, Vermelho e Branco (no Brasil: A Liberdade é Azul, A Fraternidade é Vermelha e A Igualdade é Branca). São filmes que unem a prevalência de uma determinada cor na película com a temática a que ela se liga, quais sejam, liberté, égalité ou fraternité. O pensamento de que eu estava diante de um Kieslowski tupiquinim, no entanto, foi se dissipando no decorrer da leitura. A referência à cor proposta por Biajoni é obviamente uma brincadeira e, para tais cores, o autor não está predisposto a ser o arauto de uma revolução brasileira, seja lá o que isso queira significar. Se serve como elemento de ligação à trilogia das cores do Kieslowski – ainda que discreto, talvez até fortuito – é a curiosidade de que temos um autor extremamente ácido contra uma sociedade burguesa, acomodada, sem fé e que se reúne em clubes secretos semanalmente. Ora, as vítimas do humor sarcástico de Biajoni são os mesmos heróis que preconizaram o ideário de liberdade, igualdade e fraternidade, são os mesmos revolucionários que deram origem ao primado da burguesia – agora gorda, sem vontade, sem razão. Sob este enfoque, portanto, as cores marrom, vermelha e rosa se mostram como o resultado da decadência da liberdade (azul), da igualdade (branca) e da fraternidade (vermelha). Imperceptivelmente, por cores, que simbolizam posições sexuais, Biajoni foi além e mostrou a decadência da sociedade.

Novelas: aqui serei breve, não colocarei no sentido literário, como contraponto ao Romance ou ao Conto. Luiz Biajoni, isso descobri depois, é um cara formado na TV e, por isso, é mestre na narração visual. Em muitos momentos de A Comédia Mundana, fica-se com a impressão de estar diante de um teatro, de um filme, ou de uma novela, que acaba no ápice, que o deixa instigado para saber sua continuação. A qualidade imagética de Biajoni o auxilia, principalmente, nas cenas picantes, na tal catarse que me referi acima, nos momentos tórridos em que, se o livro está sob seu colo, ele se levantará um pouco (sim, incauto leitor. É isso que significa o teste do colo: movimentou-se no colo no momento da leitura, o livro é bom, selo Hilda Hist de qualidade. Faça o teste!).

Policiais:  Também, neste ponto, o autor, apesar de conhecedor da tradição policialesca, não a reproduz, absurdamente, como reproduzimos Papais Noeis com roupas pesadíssimas  descendo, no escaldante verão brasileiro, em chaminés, tão comuns em nossa arquitetura. Borges, para criar um detetive, alçou-o em uma prisão (talvez influenciado por sua cegueira). Na prisão, este detetive resolve todos os enigmas apenas com a narração de outros (certamente influenciado pela tradição de detetives na literatura, racionalistas convictos, puros pensadores, dervixes com razão e percepção acima dos demais). Os “homens da lei” do Bia, ao contrário, vendem furos para a imprensa, envolvem-se com as vítimas, são falhos e carregam, ainda que imperceptivelmente, a precariedade, a falta de preparo e a truculência dos policiais, que cuidam de mim, de você, do Bia e de todos desta Comédia brasileira Mundana. Cito, neste ponto, o belo momento em que o pai descobre que 2 adolescentes abusaram de sua filha (que não era nenhuma Beatrice Portinari do Paraíso de Dante, diga-se de passagem) e pede para que os policiais enrabem os adolescentes. Qualquer semelhança com alguma passagem narrada pelo Datena não é mera coincidência. A Comédia Mundana é policialesca como a polícia é.

Sacanas – aqui volto ao teste do colo, explicando-o: Hilda Hist dizia que, para um livro erótico passar no teste, era só deixá-lo no colo, no ato da leitura. O movimento do livro é um sinal, por si só, da qualidade do seu autor. Bia é um autor sacana, não há nenhuma dúvida sobre isso. Mas tenho minhas dúvidas pra enquadrá-lo como um mero “autor erótico”. O erotismo em Bia não é um fim, não é a consequência do seu esforço como autor. Ao contrário, as cenas picantes aparecem ao natural, sem querer, como por exemplo no meio de uma consulta médica em que a paciente se vê excitada e pede, instintivamente, para que o médico a possua. O erotismo da Comédia Mundana não é fim, mas meio para que a narrativa se desenvolva. Neste ponto, penso, refugo. Meio para quê? Para desenrolar a trama policial? Creio que não. A premissa poderia se repetir, os trechos policiais também não funcionam como um fim, último, na ideia da tríade crime, detetive e criminoso oculto, com o quarto elemento, o leitor, que descobrirá a identidade do criminoso nas últimas linhas. Na Comédia Mundana, os crimes e os criminosos também são fortuitos, premissas do sexo ou geradores do sexo. O erotismo alimenta o policialesco que alimenta o erotismo, em uma roda vertiginosa e, no meio de tudo isso, há um quadro da sociedade que vivemos, de se pegar, como diria Drummond. Para Bia, tudo é meio, nada é fim, os elementos vão se sucedendo, coincidindo-se, amalgamando-se. O que é fim, na filosofia e na filologia de Luiz Biajoni, do Bia, deste grande calhorda, é apenas a Literatura. E que assim seja, amém.

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Escrito por:

Marcos Peres nasceu em Maringá e viveu sua infância em Astorga/PR. É graduado em Direito pela Universidade Estadual de Maringá e, além de escritor, é servidor do Tribunal de Justiça do Paraná. É coautor do Projeto Contos Maringaenses que reuniu jovens escritores locais e que resultou no livro homônimo. Seu primeiro romance O Evangelho segundo Hitler foi vencedor do Prêmio SESC de Literatura 2012/2013, 5º Lugar do prêmio Jabuti 2014 e é Finalista do Prêmio São Paulo de Literatura. Em 2015, terá seu segundo romance Que fim levou Juliana Klein? publicado pela Editora Record.

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