Haruki Murakami e os suicidas (comentários sobre o livro Norvegian Wood)

Como e por que os personagens de Norwegian Wood, de Haruki Murakami, acabam por se suicidar?

Este é um livro sobre a morte. A morte da esperança, que leva ao suicídio. A morte das emoções, que impede o indivíduo de viver plenamente a vida.

Um outro aspecto da morte é sinalizar, por contraste, as possibilidades contidas na vida. O personagem Toru busca “definir com clareza sua posição no mundo a sua volta”, já que “a ideia da morte o invade continuamente, apossando-se dele”.

Tendo como tema esse mistério que assombra secretamente a consciência de cada seu humano, compreende-se o impacto desse livro em uma sociedade como a japonesa, na qual o suicídio tem tido, por séculos, forte impacto cultural.

Por que viver, afinal? Qual meu papel no mundo? Afinal, quem sou eu?

Essas parecem ser as perguntas dos suicidas de Norvegian Wood. E, como na letra da canção dos Beatles, quando tentam dar sentido a suas vidas, penetrando na vida dos outros, “quando olham em volta, não encontram uma cadeira para sentar” e “quando acordam, estão sozinhos”. A madeira de lei, norueguesa, parece estar sempre no mundo do outro.

A tradução do livro em inglês me parece mais fiel à ideia, remete a uma outra interpretação: The bird has flown. Lembra-nos a fragilidade das relações humanas,  sua efemeridade e a intensa dor de perder o ser amado.

Os personagens desse livro são jovens e empenhados em resolver as angústias existenciais dos jovens adultos.

Cito Sartre, para quem “a existência precede a essência”. Explico: sem ter uma personalidade estruturada, sem saber quem é, uma pessoa não consegue se posicionar na vida.

E isso é exatamente o que acontece aos suicidas do livro. E por esse caminho segue Toru, o personagem principal.

Esses jovens mostram-se incapazes de estabelecer vínculos afetivos, não atingiram a maturidade emocional; são egocentrados, solitários e obsessivos.

Toru busca um modelo masculino.

Quem são seus amigos, o que Toru admira neles e como procura, através deles, estabelecer contato com mulheres interessantes? Descobrindo a resposta, descobriremos o que lhe falta.

Kisuki possui “o talento de discernir o ambiente à sua volta e ajustar-se”. A seu lado, Toru “sente-se uma pessoa extremamente interessante e vivendo uma vida idem”.

Nagasawa tem “capacidade de sedução e liderança”.

Por outro lado, a história nos apresenta um personagem esquisito, que, não fazendo parte da trama, ocupa páginas e páginas do discurso de Toru. Refiro-me a seu colega de quarto, a quem Toru ridiculariza por seus comportamentos rígidos, sua mania de limpeza, suas fragilidades, a estranha escolha profissional e o apelido que retrata a extensão de sua rejeição social: Nazista.  A mim parece ser seu alter ego. Toru se enxerga como desajustado e inadequado.

O inseguro Toru falha em sua primeira tentativa de namoro, quando nem sequer lhe passa pela cabeça a possibilidade de magoar a namorada com sua indiferença. Confuso com a percepção de que seu comportamento pode ferir outras pessoas, ele se envolve em aventuras noturnas sexuais fortuitas e em relacionamentos afetivos triangulares, onde, por tabela, por assim dizer, tenta aprender as sutilezas da comunicação, já que, sozinho com as garotas que admira, ele nem sabe o que conversar.

Esses relacionamentos triangulares lembram a dinâmica da relação pais e filho, com o casal de namorados servindo de modelo ao jovem Toru.

Citemos dois desses triângulos: Kisuki – Naoko – Toru. Nagasawa – Hatsumi – Toru.

Para os homens, a atividade sexual é crucial no processo de individuação. Ora, tanto Kizuki quanto Nagasawa falham nesse item. Cada um a seu tempo abandonará o relacionamento com a mulher que os ama.

Kisuki, pelo suicídio, Nagasawa pelo abandono.

Kisuki e Naoko amam-se desde crianças, mas são incapazes de consumar o ato sexual. Longe de aceitarem que seu afeto é fraterno, não físico, deixam-se destruir pelo fracasso erótico. Primeiro Kisuki, depois Naoko, desistem da vida. Sem nenhuma pressão social, nenhuma situação externa, o que os destrói é a situação de não-ser. Nenhum dos dois concebe existir sem o outro, sem a relação dentro da qual sua vida ganha sentido. Não ser homem. Não ser mulher. Incapazes de estabelecer uma identidade sexual, eles se suicidam. Kisuki segue primeiro, deixando atrás de si uma Naoko perplexa, mergulhada em culpa, primeiro por não ser capaz de satisfazer Kisuki e posteriormente, culpada por realizar-se sexualmente com Toru, e apenas um vez, talvez porque ela não veja em Toru uma nova oportunidade de ser feliz, e sim uma traição à memória do amado. O suicídio de Naoko é lento, ela passa por uma longa agonia: doença mental, anorexia, isolamento, até a elaboração da cena final. Porque esses dois suicidas são teatrais na montagem de suas cenas de morte. O drama dá sentido a suas mortes, já que não conseguiram achar o sentido de suas vidas.

Na companhia de Kisuki e Naoko, o jovem Toru enxerga-se como um provável substituto, contudo, se consegue levar Naoko ao orgasmo, não consegue atingir o coração dela.

Importante é a cena – considerada por alguns a mais bela do filme – em que Naoko leva Toru a um passeio pelo campo, afirmando que por ali existe um poço fundo onde os descuidados caem e morrem, pois é um poço que ninguém sabe onde fica. Ora, que poço é esse e por que alguém andaria por um lugar tão perigoso? Uma pessoa que se sente tão só que deseje a morte, por exemplo.

Com Kasagawa e Hatsumi a relação de Toru é ligeiramente diferente. Como um menino envolvido em conflito edipiano, Toru despreza Nagasawa e admira intensamente Hatsumi, que deixa claro a Toru que ele deve procurar uma outra mulher, oferecendo-se para apresentar-lhe algumas amigas. Como uma mãe que direciona o afeto do filho para fora do lar, para um relacionamento afetivo mais apropriado.

Na sequência da narrativa, Toru se encontrará em relacionamentos triangulares com mulheres.

Morando certo tempo com Naoko e Reiko, uma mulher mais velha, ele a princípio é um observador dentro de uma relação tipo mãe e filha; posteriormente, um componente lésbico apimenta a relação. Reiko afirma sua preferência sexual com clareza: “não quero ninguém penetrando em mim”. Frase de duplo sentido, que tanto pode referir-se ao ato da penetração fálica quanto à intimidade emocional de abrir-se a outro ser humano. Reiko permanece infantil, prefere isolar-se na segurança do hospital do que enfrentar o mundo.

Finalmente, Toru conhece Midori, e vê-se confrontado a escolher entre ela e Naoko. Midori está sempre presente, é alegre, corajosa, compreensiva, generosa; enfim, uma mulher proativa, realista, receptiva e madura, diante da qual Toru recua. Naoko tem o sabor da mulher proibida, da ex-namorada do amigo, é o desafio da mulher que resiste, que o rejeita apesar de ter com ele atingido o orgasmo.

Naoko escolhe a morte, contudo, e Toru fica totalmente desorientado.

O livro termina quando ele resolve enfrentar a oportunidade de um relacionamento a dois e reatar com Midori, que deixou essa possibilidade em aberto. Depois de tantas e tão dolorosas perdas, porém, o solitário Toru ainda não está preparado para o passo definitivo de sua individuação. Ele é ainda uma pessoa dilacerada, quiçá passível de reparos, que se descobre “no centro sem vida desse lugar que não leva a lugar nenhum”.

Enredo complicado, convidando velhos e  jovens leitores à reflexão sobre quem são e qual caminho seguem no mundo.

Sonia Rodrigues Author

Sonia Regina Rocha Rodrigues é escritora e médica ,idealizou o jornal "Um Dedo de Prosa" e foi co-editora da revista literária "Chapéu-de-Sol", que circulou em Santos/SP de 1996 a 2001. É autora dos livros de contos "Dias de Verão", (1998), É suave a noite (2014), Coisas de médicos, poetas, doidos e afins (2014) Em 1996, participou da fase regional do Mapa Cultural Paulista com o conto "A Auditoria", representando a cidade de Bebedouro. Sua monografia "A Importância da Cultura Para a Formação do Cidadão" foi utilizada pelo prova do Enem em 2011.

Comments

    Marcelo PuddingPop

    (Fevereiro 20, 2017 - 10:28 am)

    Olá Sônia! essa edição que você leu é portuguesa? pq a opção por essa edição?

      Sonia R R Rodrigues

      (Março 3, 2017 - 6:19 pm)

      Eu li em epub. Esta capa que aí está foi o pessoal do site que escolheu.
      Eu leio muitos epubs, é prático, leve, fácil de carregar e fácil de comprar.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *