Leia Mulheres: uma conversa com as mediadoras do projeto

O Homo Literatus conversou com algumas das mediadoras do Leia Mulheres e elas nos falaram sobre esse projeto que busca divulgar obras escritas por mulheres

Primeiramente, um pouquinho sobre o projeto Leia Mulheres, caso você ainda não o conheça. A história começou em 2014 quando a escritora Joanna Walsh propôs o projeto #readwomen2014 (#leiamulheres2014), o qual focava em ler mais escritoras, uma vez que no mercado editorial as mulheres têm pouca visibilidade e, em função disso, suas obras são pouco lidas.

Em 2015, Juliana Gomes convidou suas amigas, Juliana Leuenroth e Michelle Henrique, para transformarem a ideia de Joanna Walsh em algo maior, presente em livrarias, espaços culturais, bibliotecas e cafés. Assim, o Leia Mulheres transformou-se em um convite à leitura de obras escritas por mulheres, sejam elas clássicas ou contemporâneas, nacionais ou estrangeiras. Desse modo, o projeto é uma importante ferramenta, se assim podemos dizer, de ampliação da voz das mulheres.

Vale destacar que o Leia Mulheres não tem fins lucrativos, já existe em inúmeras cidades do país e tem cada vez mais visibilidade, sobretudo nas redes sociais, jornais e sites sobre literatura. Os encontros do projeto são sempre mediados por mulheres, mas tanto mulheres quanto homens podem frequentar os encontros para falar sobre o livro da vez, escolhido pelo clube.

Em conversa com o Homo Literatus, algumas mediadoras do Leia Mulheres, de vários cantos do país, relataram sobre como o projeto tem sido recebido pelos leitores, o que a leitura de livros de mulheres tem despertado nos participantes dos clubes e também sobre a experiência pessoal de mediação de clube de leitura. Confira!

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Tatiana Brasil Brandão, mediadora em Boa Vista – Roraima

O Projeto O Leia Mulheres busca a divulgação de autoras femininas e aqui em Boa Vista temos um formato bem democrático, decidimos juntas os temas para cada mês e depois as mediadoras fazem uma seleção prévia de 5 a 10 obras dentro do tema escolhido, em seguida lançamos uma enquete onde todos votam e escolhem o livro do mês. O Leia Mulheres ainda é relativamente novo em nossa cidade, mas já temos em nosso grupo mais ou menos 90 participantes, desses temos a participação em média de 20 pessoas por encontro, alguns mais assíduos que outros. Podemos perceber que muitas autoras não eram conhecidas e despertam “paixões”, através do grupo descobrimos diversas autoras e estilos de escritas muito diferentes dos romances comercias que estamos acostumadas a ver na mídia. Como mediadora do Leia tenho aumentado a minha percepção em vários assuntos, principalmente no que diz respeito às militâncias das minorias, pois aqui as frequentadoras gostam muito de abordar temas como: feminismo, gênero, racismo, homofobia entre outros. Busco sempre estar antenada com novos lançamentos de escritoras e principalmente trazer para o grupo autoras da nova geração Brasileira sempre indicando além do livro do mês algum outro que tenha lido.

 

Manoella Back, mediadora em Blumenau – Santa Catarina, com Fernanda Becker e Kelly Franz

Em plena era das tecnologias o sexo feminino ainda é minoria. O projeto Leia Mulheres surge, em minha opinião, como uma política afirmativa no que diz respeito a produção literária das mulheres que receberam apenas 12 % dos Prêmios Nobel de Literatura. A Academia Brasileira de Letras teve apenas seis mulheres como imortais deste de sua constituição. Títulos escritos por mulheres nem sempre estão em posição de destaque em livrarias e bibliotecas. Como entusiasta e mediadora do projeto Leia Mulheres em Blumenau-SC vejo um debate que se qualifica a cada encontro. Vamos sempre muito além da simples leitura, pois é possível trazer à tona diversos debates contemporâneos os quais ainda não permeiam o cotidiano dos blumenauenses ou, muitas vezes, não são atingidos por completo na esfera acadêmica. Posso parafrasear Virgínia Woolf e dizer que o Leia Mulheres é uma maneira das autoras encontrarem “Um Teto Todo Seu” para escrever e estar cada vez mais longe de ser “o gato sem rabo”. Com a experiência da mediação minha estante de livros mudou. Meus conceitos mudaram. Minhas amizades também. Meu modo de perceber o mundo mudou. Ler e dar voz a elas é um ato de cidadania.

 

Adriana Emerim Borges, mediadora em Gravataí – Rio Grande do Sul

O projeto #leiamulheres Gravataí iniciou-se no dia 8 de Junho, na Biblioteca Pública Municipal. Inicialmente, estamos agendando os encontros para as segundas quintas-feiras, às 18h. No primeiro encontro consultamos o grupo sobre o dia e o horário, e todos estavam de acordo com o proposto. Escolhemos um título de uma autora local que se tornou conhecida nacionalmente, a Martha Medeiros, que ficou muito feliz e quis saber detalhes sobre o projeto e como aconteceria a conversa sobre o livro. Tivemos um grupo pequeno, de nove pessoas, mas todas muito interessadas em falar e ouvir sobre a obra, sobre a autora, sobre a escrita de mulheres, e, principalmente, sobre a iniciativa de se criar um Clube de Leitura no qual se leem apenas mulheres. O retorno tem sido muito positivo, todas as pessoas com quem converso pessoalmente ou por rede social ficam muito interessadas em ouvir sobre o projeto. Aqui mesmo, na Secretaria de Cultura, a recepção foi muito boa; colegas que não participaram do primeiro encontro já estão lendo o livro escolhido (​A Hora da Estrela​, de Clarice Lispector) para o segundo, que ocorrerá em 13 de Julho.

 

Marcela Güther, mediadora em Joinville – Santa Catarina (colaboradora aqui no Homo Literatus)

Eu comecei a ir mais atrás de escritoras mulheres e vi que existem muitas autoras que não têm a visibilidade que deveriam ter pelo simples fato de serem mulheres. O intuito do clube é justamente ir mudando esta cultura de mercado e de consumo, mostrando para os leitores que existem muitas opções ótimas de leitura de autoria feminina, fazendo com que eles se interessem em ler homens e mulheres, e não só homens. A ideia é que se ganhe igualdade, que as autoras ganhem o mesmo grau de importância no mercado editorial. Outro ponto é fugir das autoras tradicionalmente aclamadas e mostrar que existem muitas contemporâneas, de variados gêneros e temáticas, que são muito relevantes e merecem mais espaço nas prateleiras. Só havia clube do Leia Mulheres, em Santa Catarina, nas cidades de Florianópolis e Blumenau. Eu sentia uma necessidade de evidenciar na cidade esta demanda, pois tive contato com o grupo e movimento através da internet e achei interessante demais, acabou me despertando muito interesse em autoras que eu desconhecia. O primeiro encontro é no próximo dia 22 e a nossa expectativa é que se gere, em Joinville, o hábito de se discutir livros em clubes e em encontros, fomentando cada vez mais a curiosidade por autoras e pela leitura em si. Que se possa repensar o mercado, com as pessoas procurando mais autoras e com as livrarias expondo mais essas escritoras nas estantes.

Da esquerda para a direita: Juliana Leuenroth, Michelle Henriques e Juliana Gomes, as coordenadoras do Leia Mulheres

Renata Oliveira, mediadora em Campina Grande – Paraíba

Diante da ausência, pelo menos aqui na cidade, de espaços para o compartilhamento de experiências de leitura em geral, e leitura de autoras em específico, o Leia Mulheres foi muito bem recebido. O projeto tem funcionado como um ponto de encontro de pessoas e de ideias; um espaço onde, além de descobrir novas autoras e obras, saímos da angústia da leitura solitária, fazemos novos amigos, aguçamos sentimentos e espírito crítico, bem como, fortalecemos nosso senso de humanidade. É comum o relato de leitores, principalmente de homens, que nunca tinham se atentado para as inúmeras (às vezes sutis) formas de opressão que as mulheres sofrem cotidianamente, assim como para a incisividade e lucidez da escrita da mulher, cuja produção literária foi sistematicamente invisibilizada ao longo da história. Ainda hoje, é gritante a predominância do autor homem-heterossexual-branco-classe média-letrado (jornalistas, juristas, acadêmicos etc.) nas estantes de livrarias, na grande mídia e nos livros didáticos de literatura. Esse fato, em si, justifica a importância, para não dizer a indispensabilidade, do Leia Mulheres como um projeto que apresenta, promove e dá visibilidade à literatura de autoria feminina estimulando sua produção, consumo e conquista de espaço no mercado editorial. Minha experiência enquanto mediadora tem sido edificante, é sempre um aprendizado lidar com tanta gente e ideias diferentes. Meu ritmo de leitura e a gama de gêneros que aprecio estão sempre crescendo. Sinto-me amadurecer como leitora e como mulher a cada encontro.

 

Juliana Lima, mediadora em Santa Rita – Paraíba  

O Leia Mulheres é um projeto bastante significativo que contribui para um aumento na visibilidade das obras produzidas por mulheres. Existe uma desigualdade notória na cena literária. É mais fácil você encontrar obras de autores nas bibliotecas, do que autoras. Eu percebo o abraço caloroso das pessoas que frequentam o clube de leitura de uma forma direta ou indiretamente. O projeto tem alcançado diversos voos. Hoje se tem mais preocupação sobre o que e quem está lendo. Está despertando a sensibilidade das pessoas, o gosto pela leitura e sua discussão construtiva. Mediar um projeto, principalmente sobre mulheres, instiga-me cada vez mais a propor, a ouvir o que as pessoas falam com um olhar diferente, mais atencioso. O projeto nos sensibiliza e reforça o quanto precisamos de iniciativas que coloquem a mulher, não mais como coadjuvante, mas como protagonista em seus espaços de trabalho. Existe mulheres escrevendo e queremos que pessoas tenham acesso a essa escrita.

 

Amanda Faria, Cristiane Passos, Maria Clara Dunck, Taluana Wenceslau, mediadoras em Goiânia – Goiás

A primeira edição do Leia Mulheres Goiânia (LMG) foi em março de 2016, com a iniciativa e mediação de Ana Luisa Rolim, Maria Clara Dunck e Pilar Bu. Desde então, o projeto tem se consolidado e conseguido um importante espaço na cena cultural goianiense. A principal estratégia do projeto tem sido a realização de encontros mensais por meio de um bate-papo informal e a interação via grupo do Facebook. Com isso, o LMG atrai pessoas de diversas formações, realidades e com interesses variados. O LMG procura contemplar diversos gêneros literários, bem como incluir livros de autoras estreantes e/ou fora do eixo comercial, com o objetivo de dar visibilidade e voz.  O LMG também traz quando possível – visto que é um projeto sem qualquer tipo de financiamento – autoras para participar dos debates.  Por fim, o LMG também tem feito parcerias com outros grupos/eventos/militâncias. Como exemplo temos: uma edição especial com o Cineclube DelAção; uma edição especial na ocupação dos estudantes da FIC-UFG; a participação de uma mesa-redonda no evento Mulheres por Mulheres; uma edição especial na programação paralela do Festival Internacional de Cinema Ambiental – Goiás e realizou a roda de leitura e discussão #LeiaMulheres GOIANAS, em que homenageou autoras do Estado, na edição regional do Mulherio das Letras 2017. Acreditamos que o LMG já se consolidou enquanto clube de leitura na capital goiana e que renova a si mesmo.

 

Clarissa Xavier, Maurem Kayna e Helen Pinho, mediadoras em Porto Alegre – Rio Grande do Sul

Os encontros em Porto Alegre começaram em agosto de 2015, a partir da mobilização em um grupo feminista do Facebook e pela iniciativa da mediadora Clarissa Xavier. No começo, sem endereço cativo, o número de participantes era pequeno, apesar da movimentação intensa na rede social – fosse na eleição dos livros ou comentando as obras escolhidas. A cada mês, no entanto, a participação cresceu e atualmente contamos com uma média de quinze a vinte leitoras por encontro – já tivemos em torno de 70 participantes no evento em que se discutiu Como conversar com um Fascista, da Marcia Tiburi. Além de funcionar como um estimulante do hábito da leitura – tanto para as moderadoras como para as participantes – o clube de leitura é um verdadeiro exercício político para a transformação do espaço ocupado pelas mulheres no mercado editorial e para a reflexão (potencialmente transformadora também) sobre as realidades retratadas nas obras debatidas. E, por fim, talvez tão importante quanto a mudança em hábitos de leitura é o cultivo de um espaço de convívio onde os vícios e mitos da interação entre mulheres podem ser confrontados e modificados, pois, ao menos no nosso caso, onde o público é majoritariamente feminino e constante, laços de amizade se esboçam e nos suportam e estimulam a seguir contestando.

 

Déa Paulino, mediadora em Itapetininga – São Paulo

Ousei, ainda um pouco receosa, propor o Leia Mulheres em Itapetininga, porque participava do muito bem-sucedido Clube do Livro, proposto e mediado pelo professor João Leonel. Para minha surpresa, foram poucxs xs participantes oriundxs do Clube do Livro que migraram para o Leia Mulheres; que acabou atraindo, reunindo e unindo, pessoas interessantes e interessadas que ainda não se conheciam antes de nos encontrarmos. Nosso grupo, que tem o que chamo de “núcleo duro” composto por uma média de 15 pessoas, estabeleceu dinâmicas deliciosas, que enriquecem as experiências de leitura e dos encontros que promovemos. Como a cidade não tem livraria, fazemos compras coletivas dos livros que escolhemos, o que cria uma corrente e promove a proximidade entre nós. Sinto um prazer imenso em buscar novas autoras e também por saber que xs outrxs participantes se empenham em fazer novas descobertas. Assim partilhamos a experiência e também fazemos nosso sussurro para ecoar o registro das vozes de outras mulheres. Embora quase sempre o debate seja conduzido sob o viés do feminismo, gostamos especialmente de trazer a leitura para o cotidiano, para os olhares individuais e diversas experiências de vida. Participar do Leia Mulheres como mediadora me transformou como leitora e me ensina todos os dias. Hoje, ler um livro, sobretudo se nele estiver o registro de uma mulher, é fazê-lo sob muitas outras vozes e olhares; a leitura, que já foi solidão quase abandonada, tornou-se solitude ainda mais prazerosa. Estou certa de que já não estamos sós.

 

Laíza Felix, mediadora em João Pessoa – Paraíba

Até conhecer o Leia Mulheres, nunca tinha percebido que uma das minhas atividades favoritas era tão marcada pelo sexismo. Como uma garota muito ligada ao feminismo desde que me entendo por gente, achei importante transportar meus esforços em prol da igualdade de gênero para leitura. Esse gesto foi, na minha vida pessoal e como leitora, a descoberta de um mundo novo dentro do universo que eu já sabia ser infindável. Ao ler livros escritos por mulheres, aprendo diariamente sobre privilégio de gênero, etnia e classe; sobre vivências que a Natureza nos concedeu com exclusividade; sobre memória e, infelizmente, esquecimento. É por não querer permitir que mais autoras sejam apagadas de seu próprio tempo que estou no Leia Mulheres. Porque, ao moderar na minha cidade, comungo com todas as participantes desse legado, o mantenho vivo e o passo adiante. Percebo que o encontro do Leia Mulheres é uma experiência muito orgânica, que cria laços de afeto entre quem partilha desse espaço, favorecendo a amizade e a sororidade. O grupo aqui ainda é predominantemente feminino e, embora isso crie, por um lado, o chamado “local seguro” para o debate, por outro evidencia que os homens ainda resistem aos espaços comandados por mulheres ou em que elas sejam o foco.

Estela Santos Author

Editora e colaboradora do Homo Literatus. Mestranda em Letras - Estudos Literários na Universidade Estadual de Maringá (UEM). Mediadora do #LeiaMulheres. Twitter: @psantosestela

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