Literatura contra Deus

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O que fazia Deus antes da criação do tempo? Com certeza criava o inferno para quem fazia esse tipo de pergunta, dizia Santo Agostinho, um dos cânones da obra teológica e filosófica do ocidente.

A dúvida e o questionamento sempre estiveram presentes com o ser humano, logo, a culpa também se instauraria, e imposta pela igreja que mandou milhares de pessoas para a fogueira e encaminhou diversas obras literárias para o index. A polêmica em torno de livros ‘perigosos’ vem de longe: Galileu Galilei, Giordano Bruno e Kepler sofreriam as consequências de seus pensamentos, a ira de Deus seria feita: livros seriam queimados, ideias abortadas e o conhecimento privado de vir à luz.

No século XIX, Nietzsche proclamaria a morte de Deus, não obteria fama em vida e muito menos venderia muitos livros, entretanto, após muitos anos, seria o maior ícone do combate às ideias cristãs por meio de sua obra. Outros compêndios do ateísmo moderno dariam ar da graça à mesma época. Marx diria que “A religião é o ópio do povo”, Das Kapital seria a bíblia de muitos no século que se iniciaria. Enquanto isso, Darwin lançaria aquele que seria o maior dos golpes científicos, A evolução das Espécies, revolucionaria a ciência e acabaria com o antropocentrismo humano vigente até então.

Contudo, o ateísmo na literatura não acabaria por aí, outros ícones surgiriam arrebanhando leitores e inimigos, Bertrad Russell seria um deles, Por que não sou Cristão e Ensaios Céticos seriam dois de seus mais festejados textos. Atualmente, o ateísmo na literatura continua em voga e produz seus best sellers, como Richard Dawkins, escritor e professor de Oxford que emplacou o seu Deus um delírio, enquanto o filósofo norte americano Sam Harris contemplou o sucesso de Carta a uma nação cristã – devidamente lançados por aqui.

No Brasil, alguns autores já se enveredam pelo ateísmo militante, um dos exemplos é o filósofo e psicanalista Marcos Oliveira. Em 2012 Oliveira lançou seu primeiro livro, fruto de sua dissertação de mestrado, Autópsia do Sagrado.  “Ainda é muito difícil debater a questão do ateísmo no Brasil, ainda mais quando a tese a ser defendida visa propor o ateísmo como uma linha filosófica genuína. O que tentei demonstrar em meu livro é que não estamos entre uma escolha binária simplista do tipo ou a fé, ou a loucura”, afirmou ele.

O autor de Autópsia do Sagrado desconfia da recente onda de ateísmo tão comum em nossos dias, de maneira enfática salienta:  “A grande ‘indústria cultural’ vende o ateísmo e seus variados atores como rentáveis mercadorias, com isso, milhares de livros são “consumidos”, sem serem, necessariamente, entendidos”.

Como não poderia ser diferente, o Brasil já possui um número grande de leitores desse tipo de literatura, entretanto, para Oliveira a causa do sucesso é a fragilidade das instituições religiosas em um mundo cada vez mais laico. Contudo, adeptos do ateísmo continuarão a comprar seus livros em sua maioria com cédulas marcadas “Deus seja louvado”.

 

Ronaldo Lages Author

Jornalista e publicitário, leitor dos clássicos da literatura e da filosofia, contestador e eternamente inconformado. Acredita que os livros não mudam o mundo, mas são o caminho para a mudança.