Luís da Câmara Cascudo: o homem-mito

No dia 30 de dezembro, será comemorado o aniversário de 116 anos do nascimento do homem-mito: Luís da Câmara Cascudo. Quem foi ele? Se você não conhece a história desse brasileiro, não se preocupe, ele já conhece a sua. Como? Fez parte da sua infância antes mesmo de você se aventurar nas primeiras palavras. O homem-mito foi um dos grandes responsáveis em reunir todas as lendas do Brasil, antes e depois do descobrimento em 1500.

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Luís da Câmara Cascudo

“Queria saber a história de todas as cousas do campo e da cidade. Convivência dos humildes, sábios, analfabetos, sabedores dos segredos do Mar das Estrelas, dos morros silenciosos. Assombrações. Mistérios. Jamais abandonei o caminho que leva ao encantamento do passado. Pesquisas. Indagações. Confidências que hoje não têm preço.” Luís da Câmara Cascudo

Saci Pererê, curupira, mula-sem-cabeça, mboi-tatá são algumas lendas conhecidas de nosso tempo de escola infantil. O Sítio do Picapau Amarelo de Monteiro Lobato contém muitos dos mitos pesquisados por Cascudo. Todavia, seu trabalho não ficou apenas no registro das lendas típicas do folclore. Ele foi mais a fundo, vasculhou as entranhas de nossa história e descobriu mitos e lendas dos povos indígenas mais antigos que sobreviveram à ação dos primeiros jesuítas. Ainda não satisfeito, catalogou boa parte da tradição oral brasileira, ou seja, aquelas histórias contadas de pais para filhos das regiões mais remotas do nosso país hoje estão asseguradas para a eternidade.

Antes de prosseguirmos na compreensão da missão ambiciosa realizada por um sonhador, vejamos alguns dados da história do homem-mito. Cascudo nasceu em Natal – RN em 1898 e faleceu na mesma cidade em 1986. Formou-se em direito e etnografia e chegou a cursar quatro anos de medicina, mas desistiu da ideia de ser médico. Trabalhou em diversos cargos como diretor de escola, jornalista e professor universitário. Casou-se e teve dois filhos. Sua primeira publicação veio aos vinte e três anos de idade e não parou mais. Nem o próprio homem-mito sabia quantas obras escreveu ao longo de sua vida. Hoje há uma estimativa baseada na coleção de Carlos Lyra, amigo de Cascudo, detentor do maior acervo. São 234 volumes divididos entre livros e livretos, sendo 17 obras póstumas. Com brilhante erudição, sem perder a simplicidade do homem comum, Luís da Câmara Cascudo recebeu o reconhecimento por seu trabalho e personalidade por grandes nomes da literatura como Monteiro Lobato e Mario de Andrade, que inclusive foi padrinho de seu primeiro filho. Assim como toda amizade saudável, esse encontro produziu bons frutos para nossa literatura. O Sítio do Picapau Amarelo citado acima bebeu nessa frutífera parreira.

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Monteiro Lobato

“Os verbetes reunidos no dicionário de Cascudo são inacháveis” Monteiro Lobato

Dentre as muitas obras publicadas pelo homem-mito, destaco duas, principalmente para os leitores que desejam tornar-se escritores de literatura fantástica. São os livros: “Geografia dos Mitos Brasileiros” e o “Dicionário do Folclore Brasileiro”. No primeiro, Cascudo faz um mapa de norte a sul, leste a oeste com todos os mitos brasileiros conhecidos, tanto os mitos primários, oriundos dos povos residentes no Brasil antes da chegada de Pedro Alvares Cabral, como os secundários, ou seja, aqueles que receberam influência das culturas portuguesa e africana. A importância dessa obra não se resume apenas no exaustivo trabalho de reunir TODAS as lendas já contadas, mas também pelo autor organizá-las e dividi-las por cada região do país, inclusive por Estados. Você mora no Paraná, Rio de Janeiro ou Acre e quer saber quais lendas pertencem a sua região? Esse é o livro! A Academia Brasileira de Letras reconheceu os méritos do homem-mito por essa laboriosa empreitada através do prêmio João Ribeiro. A segunda obra que destaco – O Dicionário do Folclore Brasileiro – é considerada a grande obra de Cascudo. Finalizado em 1952 e publicado dois anos depois o dicionário ganhou o reconhecimento da população. Sua importância foi tamanha que em 1959 foi publicada uma segunda edição com a incorporação de duzentos novos verbetes enviados por leitores e pesquisadores. O homem-mito recebeu por correspondência diversas fotografias de objetos que até então só tinham sido descritos por ele na primeira edição.

Mario de Andrade
Mario de Andrade

“Ele diz, tintim por tintim a alma do Brasil em suas heranças mágicas, suas manifestações rituais, seu comportamento em face do mistério e da realidade comezinha. Não é apenas o Homem-Dicionário que sabe tudo, é muito mais, e sua vasta bibliografia de estudos folclóricos e históricos marca uma bela existência de trabalho inserido na preocupação de “viver” o Brasil.” Mario de Andrade

Portanto, se você é um amante da literatura nacional ou quer tornar-se um escritor de literatura fantástica, o homem-mito pode ser um grande guia. Graças ao amor que ele tinha pelas coisas que o povo conta, hoje sabemos (ou podemos saber) qual é a nossa história mítica, de onde viemos, qual o destino traçado para a humanidade segundo os deuses brasileiros. As mitologias grega e nórdica são altamente cultuadas por leitores e escritores brasileiros. Nossa mitologia também pode ter seu prestígio, ser cultuada aqui e lá fora. Basta seguirmos o homem-mito que se enveredou nessa selva mitológica ainda inexplorada. Ele deixou a trilha. Vamos segui-lo?

Mickael Menegheti Autor

É casado e trabalha como psicólogo. Paulista de nascimento e mineiro por criação vê na literatura o eco da alma humana corporificar-se em palavras. Conheceu o mundo das letras por culpa da série Vagalume com o clássico O mistério do cinco estrelas e desde então não parou mais. Fã assumido de J.R.R. Tolkien, Arthur C. Clarke e Luís da Câmara Cascudo. É amante declarado do Cinema, Blues e videogames. Contista e escritor de ficção tentando sair da ficção.