Mas afinal, de onde vem a inspiração?

Todo produtor de arte, seja ele escritor, pintor, arquiteto, músico ou qualquer outra vertente que use de dotes artísticos, escuta, pelo menos uma vez na vida, a pergunta: “De onde vem sua inspiração?”

Joel Robinson
Imagem: Joel Robinson

Antes de nos perguntarmos de onde vem à inspiração, é importante perguntar: o que é de fato a inspiração? É curioso como ela é tratada como um dom divino e que apenas uma pequena parcela de pessoas a detém. Será que é mesmo? Ou qualquer um pode ter uma inspiração?

No dicionário, a palavra inspiração (um substantivo feminino) é a ideia ou pensamento que surge de repente. Além, é claro, de outros significados mais diretos e concretos, como o ato de inspirar ar aos pulmões.

Sócrates tinha uma voz interna que passou a ele todo o seu conhecimento; chamou-a pelo nome de daemon. Dizia-se que o filósofo ouvia essa “voz interna” e transmitia as mensagens ao público. Era Sócrates um doido? Houve relatos de seus discípulos sobre o daemon. Vamos também até o Romantismo, onde efetivamente a ideia de inspiração (e suas musas) se fez presente (e o faz até hoje). O ser quase divino que era capaz de receber essa inspiração. Kant, o filósofo, definiu esse gênio que molda as grandes obras.

E a inspiração é de fato tudo isso? Algo apenas para pessoas escolhidas?

Em um século de grande variação cultural, tecnologia e fácil acesso à informação, talvez não seja bem assim que um artista receba (conceba, talvez) sua inspiração. Há uma série de fatores que, juntos, alimentam seu daemon e sua musa, que divinamente te fornecerão tudo o que precisa (a sua, de fato, inspiração). Sustentar essa origem de inspiração é para toda e qualquer pessoa, todos temos um daemon e uma musa, para “ativá-los” basta unir esses fatores:

1- Trabalho. Não é de hoje que se ouve: escreva todos os dias, desenhem todo dia, leia todos os dias, treine música pelo menos meia hora por dia. Trabalhe. O trabalho lhe dá experiência, ajuda nos erros, faz com que aprenda ainda mais, evolua, entenda, conheça. A tal frase (que nos remota, em tempos de um 2016 astuto, a certo cantor) 99% trabalho e 1% inspiração, é de fato real, é o trabalho que te fará bom, que fará com que produza algo incrível. Algumas pessoas tem de fato uma facilidade diferenciada, outras não. Mas é o trabalho duro que te fará exercer uma obra genial. Ninguém acorda com um projeto genial pronto. Arte dá trabalho.

2- Talento. Vale ressaltar que mais uma vez aqui não se trata de um dom divino e sim de habilidade. Cada pessoa tem um gene em seu DNA que o fará mais propenso a algo do que a outro. Eu, por exemplo, adoro desenho, mas não sei nem rabiscar um coração direito. Já tentei, fiz aulas, passei semanas estudando e treinamento, por fim entendi que desenho não é pra mim. Possivelmente não nasci com um gene para desenhar. Com meu marido é o contrário, ele desenha desde que se lembra (e muito bem), mas não consegue de maneira alguma se desenvolver em música, não consegue tocar um instrumento sequer. Talento é sua aptidão natural (genética, no caso) para algo. Se você tem esse talento, pequeno que seja, já pode começar a trabalhar duro para desenvolvê-lo. Aqui os tópicos 1 e 2 se encontram de maneira única.

3- Bagagem Cultural. Toda e qualquer coisa que se faça precisa de bagagem cultural. Entende-se por bagagem tudo aquilo que você adquire no decorrer dos anos, e esse conhecimento todo faz você ser o que é. Os filmes que assiste, os livros que lê, as músicas que ouve, as pinturas que você vê, as viagens que faz, os programas que assisti… tudo isso é suprimento pra sua bagagem. Lembrando que a bagagem é o conhecimento e uma pessoa é o que é pelo conhecimento que adquire. Conhecimento (ou a ausência de) é o que molda a arte e a pessoa. Pode não parecer, mas todo esse consumo de suprimentos da bagagem vão moldar você (inclusive a bagagem ruim, a mala sem alça), te ajudar a produzir e de fato te “inspirar”, dar ideias –no caso. Seu inconsciente e consciente precisam ser alimentados, seu daemon e sua musa também.

4- Paciência. O conselho pode até assustar no começo, mas é um fato: paciência é fundamental no desenvolvimento da arte e na busca por inspiração. Não adianta querer terminar uma obra (seja de qual vertente for) em um dia, raríssimos artistas finalizaram tudo em um dia. Aprecie sua obra, produza com cuidado e amor. É a paciência para deixar algo com o seu jeito que fará a obra ter a sua cara e o efeito desejado. Ter paciência ajuda a “inspirar”.

5- Tenha um foco de inspiração. E foco nesse caso pode ser inclusive uma pessoa inspiradora. Aqui, inspiração não quer dizer aguardar o espírito daquele artista que você admira invadir seu corpo e te ajudar a produzir. O foco nesse caso é usar e entender da vida e obra da inspiração, consumir o trabalho dele e mantê-lo como um objetivo a se atingir. Tenha, por exemplo, Picasso como foco de inspiração. Queira ser como ele, estude as obras dele, faça dele um “deus”. Você nunca será o Picasso, mas querer se aproximar do que ele foi e produziu é um jeito de manter o foco e a inspiração. Tenha diferentes focos de inspiração. É ali que você terá a resposta naqueles momentos de bloqueio criativo.

Por fim, a pergunta que dá título a esse post precisa ser reformulada: Como você sustenta sua inspiração?

Dayane Manfrere Autor

Comunicóloga como primeira formação se aventura agora no mundo das Letras. Colunista e revisora no Homo Literatus (as vezes também traduz). Escreve seus pensamentos no Enquanto a Chuva Caí e tem uns contos publicados por aí. Uma Shakespeareana sem cura, que ama Poe, Wilde e Tchekhov.