Memórias do Subsolo, ou um rato filósofo

dostoievskiUm pequeno livro, uma novela que não recebeu muita atenção na época de seu lançamento. Poucos foram capazes de compreender o alcance do texto. Memórias do Subsolo tem uma trajetória quase mística, como vários dos livros de Dostoiévski, porque antecipou várias teorias importantes e até acontecimentos históricos (ou pelo menos a maneira como seriam percebidos).

O personagem se define como um homem doente, que sofre do fígado, imagina, porque sente amargura o tempo todo. A vida o irrita e ele olha de seu pequeno buraco de rato com profundo ressentimento. Tudo parece zombar de sua condição, de seu apequenamento. E como vingança, já que não consegue realizar nada concreto e mudar, se afunda cada vez mais em um mar de fel. Vem daí, certamente, sua “doença do fígado”, nada tem um gosto agradável, nenhuma situação é vivida sem esta reserva. A caracterização do personagem é tão forte, que nada pode substituir as próprias palavras do autor, porque o ritmo faz parte do quadro psicológico que vamos sendo apresentados e que termina nos absorvendo. Sempre após uma afirmação surge a necessidade de explicação e a contradição vem logo em seguida, também. Desta forma, mais do que as próprias palavras, ou seja, no encadeamento do texto, descobrimos que está nos falando de dentro das páginas.

É visível o ódio impotente contra si mesmo, e de modo admirável, como o discurso oscila entre esse reconhecimento e sua projeção em todas as pessoas com que trava contato (incrivelmente antecipando em alguns anos a teoria do complexo de inferioridade de Alfred Adler). De sua incapacidade de alcançar seus objetivos e se estabelecer, impor seu desejo sobre outros, para negociar, como todas as pessoas, aquilo que consegue e que cede aos outros, acaba nascendo esse ressentimento contra a vida. E esse sentimento de inferioridade faz nascer um desejo compensatório de superioridade, que pode se tornar patológico. O caso do nosso personagem, sem dúvida alguma é esse, afinal ele insiste que seu rosto deveria demonstrar sobretudo inteligência, que seria uma maneira de se impor aos outros. Quando não há realização do desejo de se impor, resta então o reino da imaginação, e está aberto o caminho para as neuroses. Uma delas, belissimamente ilustrada por Dostoiévski é a disputa imaginária com o oficial e seu sabre, que é contado apenas de passagem no início do livro. Prosseguindo, o narrador escreve que o que mais lhe atormentava era ter completa consciência que no fundo não é uma pessoa má, e isso, novamente, serve como combustível para enraivecê-lo mais ainda…

Impossível falar desse texto sem mencionar logo a nota introdutória do autor. Há um jogo fascinante com a ideia de que o relato não passa de imaginação, que esse tipo de pessoa está superado pelo andamento da história, e o próprio corpo do texto, que coloca esse homem do subsolo como a espécie que tende a dominar a vida europeia dali para frente. Ora, se atentarmos para o fato de que esse novo homem é alguém que vive de alimentar sua imaginação, que perdeu em algum lugar a capacidade de ação, então o trecho ganha um novo sentido, mais amplo, e que insere o próprio autor (Dostoiévski) nesse campo. Não que possamos identificar inadvertidamente o personagem ao autor, não é isso; considero, inclusive, esse tipo de leitura muito banal, muito simplista. Mas podemos dizer que Dostoiévski via em si esta tendência; que havia perdido, também ele, esta capacidade de ação. Assim, o texto é imaginário no sentido que o personagem vai definir mais para frente: nada acontece, um simples pisão no pé pode ofender seriamente esse sujeito e fazer com que ele deseje a reparação, heróica, floreada, porque é incapaz de se aproximar e resolver a questão ali, com uma atitude concreta. E o fato se perde, é esquecido, depois que o ofendido teve milhares de devaneios em relação ao modo como deveria ter agido.

Primeira frase: “Sou um homem doente… Um homem mau.” (p. 15). Aqui, sem deixar dúvida, temos a definição absoluta desse tipo que ascende lentamente na história da humanidade até se tornar dominante no século XIX.

O personagem é tão bem construído que apresenta contradições, como uma pessoa real. Não da maneira habitual, dirigida, com o intuito de levar o leitor a uma determinada conclusão que corrobore a visão do autor. Não é nada disso. As contradições do suposto escritor das memórias são complexas, difíceis de ser lidas e interpretadas, são reais. E uma fala pode contradizer a outra, não para expressar o desprezo do autor, mas porque é assim no pensamento, ao menos quando escrevemos de uma levada só, como o texto sugere. O pensamento vem e anotamos, sem parar para refletir nas relações entre as ideias e possíveis conclusões, apenas vamos anotando os pensamentos e depois deixamos, sem retoques. Esse parece ser o método do escritor-personagem das memórias, mas imagine o trabalho que deve ter dado a Dostoiévski atingir esse nível…

E não apenas as contradições chamam a atenção como as próprias ideias do personagem. Ele polemiza com alguns pensadores de sua época, como Tchernichevski, para quem o mal era feito por falta de conhecimento, ou seja, um erro a quem a razão eliminaria assim que fosse disseminada. Trocando em miúdos, esse pensador russo era um iluminista tardio (movimento filosófico do século XVIII, que propunha reformar a sociedade a partir dos princípios da razão e julgava que diversos males seriam suplantados então) partia da noção de que a educação e a razão poderiam levar os homens a um novo patamar. Mas o personagem de Dostoiévski destrói estas pretensões ao afirmar: “O que suaviza, pois, em nós a civilização? A civilização elabora no homem apenas a multiplicidade de sensações e… absolutamente nada mais.” (p.36), e assim vai. Isso sem deixar a ironia de lado, porque a todos esses pensadores, ele chama de irmãos, o que significa não a intenção de entrar para o bastião dos grandes da humanidade, mas sim para rebaixá-los até a sua condição. Isso faria de todos os grandes filósofos, com raras exceções, que não ficam muito claras em momento algum do texto, também homens do subsolo, de consciência hipertrofiada e doentes da vontade.

memorias_de_subsolo Memórias de Subsolo, em versão da Editora 34

Esta riquíssima complexidade do texto se deve ao que Bakhtin (Problemas da Poética de Dostoiévski) chamou de polifonia. Porque as vozes dos personagens nunca são instrumentalizadas pelo autor, não há uma tese a ser provada. Dentro dos romances do escritor russo assistimos a verdadeiros embates ideológicos, que seus personagens travam sem a certeza de quem sairá vencedor, ou mesmo se ainda vão manter seu ponto de vista depois da discussão. É por esse motivo, porque cada um tem uma visão de mundo, às vezes mais elaborada, outras menos, que Raskolnikov pode afirmar que matou por uma questão filosófica, de princípios. Aqui, no pequeno livro que nos interessa, o monólogo inicial não permite que se confronte visões de mundo diferentes. Mas a genialidade de Dostoiévski fez com que o personagem já conheça pormenorizadamente qualquer refutação de suas afirmações, porque, de acordo com suas palavras, o homem do subsolo está acostumado a observar os outros a sondar a vida de todos, num ressentimento maníaco por não conseguir ser como eles. Assim, mesmo que a disputa não ocorra efetivamente, com vozes se posicionando, a polifonia está lá. O personagem antecipa as críticas e muitas vezes as refuta categoricamente.

Esta maneira de escrever é própria de Dostoiévski, é sua contribuição para o panorama da arte mundial, de acordo com Bakhtin. Não há, até onde se saiba, outro romancista com esta capacidade. O caso é que muitas vezes tomamos a fala de seus personagens e buscamos coerência com os eventos (por exemplo, a suposta redenção de Raskolnikov como um aprendizado em relação a suas ideias “tortas”). Mas nada pode ser mais enganoso. Que se saiba, podemos retirar uma interpretação da realidade das obras dele sim, como a questão da morte de Deus e o que os homens fariam a partir de então. No entanto, isso não passa do solo onde vai construir o edifício de sua arte. É como se ele dissesse: “Deus está morto, alguns não sabem disso, outros vão se sentir livres e investir na humanidade, outros tentarão uma vida ainda mais nebulosa, etc…” Seus personagens estão muito bem localizados no século que conheceu o florescimento das ideologias marxistas, do avanço do imperialismo e do liberalismo econômico. É por esse motivo que não podemos deixar de situar o autor, mas o desenvolvimento que deu a sua literatura não poderia ser previsto por estas mudanças históricas, nem pode ser entendido como sua mera reprodução.

Um fator que chama a atenção, já que mencionamos o marxismo, é a questão das famosas teses sobre a história. Resumidamente, a leitura marxiana da realidade é a seguinte: existe uma tese, a antítese e depois a síntese, como consequência do conflito que se estabelece entre as duas. Um exemplo é o feudalismo (tese), que enfrentou o capitalismo surgindo (antítese) e depois a síntese foi o liberalismo (toda a análise do capitalismo, que é impossível reproduzir aqui). Nesses termos, que Marx tirou de Hegel, outro filósofo alemão, a ênfase está nas sínteses. O importante é o que sobra das mudanças históricas, afinal, a síntese significa o fim do termo que não venceu, sua superação. Temos vários problemas decorrentes desse modo de pensar, e que não vou colocar aqui porque desviaria totalmente o foco do texto. Para nós, aqui, o importante é que a própria polifonia de seus romances estabelece uma visão mais humana. Os conflitos existem (a luta entre a tese e a antítese), mas nem sempre são resolvidos. É uma maneira de pensar muito diferente. O importante, o que nos faz humanos, não é a superação da luta, como se apenas ao final da vida tivéssemos o direito de afirmar que vivemos. Nada disso, a ênfase é na luta. É isso que nos dá humanidade, que nos define e dá sentido à vida. Ou seja, Dostoiévski é um escritor que tem uma visão verdadeiramente humanista, porque não diminui a vida na tentativa de uma busca de sentido.

Embora isso pareça complicado à primeira vista, é facilmente perceptível em seus livros. Os eventos modificam os personagens, causam dúvidas, os fazem mergulhar em profunda reflexão. Nosso personagem aqui é um rico exemplo disso, mais uma vez. O livro inicia num ritmo acelerado, frases derramadas, quase desordenadas. E isso é fruto dos conflitos que vive, de tudo aquilo que está fervilhando em sua cabeça e precisa sair. O que acontece à medida que o texto avança? Mais conflitos se estabelecem, mais dúvidas, mais incerteza. Penso se não é assim que nos sentimos por toda nossa vida… E a cada momento que a luta cessa, apesar da alegria das vitórias, não sentimos a necessidade de nos colocar em novo conflito.

Isso tudo que foi dito até aqui antecipa o pensamento de outro célebre filósofo: Friedrich Nietzsche. Este se apropriou das críticas ao socialismo, estabeleceu a vida como um incessante processo de luta, e principalmente, através do seu famoso personagem Zaratustra, questionou sobre o sentido da morte de Deus. Toda sua filosofia toca esse ponto, ou seja, se os valores absolutos, se o pecado — e a redenção, consequentemente — são conceitos ocos, como os homens vão se comportar? A proposta de Nietzsche era sepultar completamente os restos daquele passado, criar novos valores, e uma nova sociedade. Mas seu grande temor era justamente que os homens se tornassem niilistas, que renunciassem a esta responsabilidade/ liberdade e se submetessem a novos deuses (um deles, o espírito científico, justamente um tema que o personagem de Dostoiévski ataca). O grande temor de Nietzsche era que os homens estivessem caminhando para trás, deixando de serem homens de ação, se refugiando numa existência mediana, evitando se tornar aquilo que poderiam ser.

Por tudo isso esse pequeno livro é um dos mais influentes da história. Nele podemos encontrar mais de 200 anos da história humana, resumida em discussões que só foram aprofundadas mais tarde e que, de certa forma, ainda estão ativas. Isso para salientar o aspecto filosófico do texto, porque artisticamente, não apareceu ninguém capaz de realizar tamanha revolução depois de Dostoiévski.

Marcelo Gabriel Delfino Author

Nunca falo a meu respeito, muito menos na terceira pessoa. Mais importante ouvir e tentar entender o que os outros tem a dizer. Leitor chato, não gosto de um monte de coisas, mas adoro conversar sobre os livros que gosto. Sou apenas sociólogo e leitor.