Menina de 11 anos mostra a importância da representatividade negra na literatura

Menina americana passou a colecionar livros que tivessem protagonistas negros. A coleção agora conta com a mais de 4 mil exemplares

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Marley Dias curtindo seus livros | Foto: Folha de São Paulo

Marley Dias, aos 11 anos, reuniu mil livros que traziam meninas negras como personagens principais, mostrando a importância que histórias, enredos, livros, filmes e séries têm em relação a identidade e reconhecimento de crianças, adolescentes e até mesmo adultos. A presença de narrativas que destacam personagens, em sua maioria, sempre com as mesmas características de gênero, cor, peso e classe social, pode ser extremamente prejudicial no desenvolvimento de uma autoestima saudável, criando meninas que não se identificam com o universo que as limita ao seu redor.

Marley, que vive em New Jersey, Estados Unidos, teve a ajuda de sua mãe para começar uma campanha na internet, em que divulgava a hashtag #1000blackgirlbooks (1.000 livros de garotas negras). Em entrevista para o jornal Folha de São Paulo, a menina afirma: “Eu estava na quinta série e fiquei frustrada porque só líamos livros sobre garotos brancos e seus cachorros. Daí, eu falei com a minha mãe e ela me disse: ‘ok, mas o que você vai fazer sobre isso?’ E eu decidi que ia colecionar mil livros. Eu gostava daquelas histórias, mas queria algo com que eu pudesse me relacionar”. Entre os livros preferidos da menina está Brown girl dreaming, que conta, em poemas, a história de uma garota afro-americana criada no sul dos Estados Unidos durante os anos 1960 e 1970, em um contexto de segregação racial.

O debate acerca da representatividade da literatura é levantado por outras minorias. Outro exemplo de reflexão e tentativa de mudança deste quadro é o projeto Leia Mulheres, que tem sua versão brasileira e em diversos países, com o objetivo de incentivar que o público leia mais livros escritos por mulheres, que são minoria no mercado editorial. Outras iniciativas, como o blog A mãe preta, de Luciana Bento, ampliam a discussão para a literatura e outros setores diversos da sociedade, mostrando o quanto a exclusão representativa pode ser complicada para o desenvolvimento infantil. Um projeto semelhante ao de Marley foi lançado em janeiro pela criadora do site, que busca listar 100 livros infantis com meninas negras em posição de destaque.

Em seu site, Luciana deixa um depoimento muito semelhante ao da menina americana de 11 anos, mostrando o quanto essas questões não se limitam a idade ou localização geográfica: “Como todo mundo sabe, sou mãe de duas meninas negras. E, antes disso, fui uma menina negra. Eu sei bem o que é olhar pra tv e não obter o reconhecimento da minha imagem como algo positivo. Olhar pro material didático, encontrar vários personagens infantis e não encontrar nenhuma menina negra. Viver constantemente a sensação de não pertencer a um determinado espaço porque não me vejo representada nele”. Luciana diz, no site, que o projeto tem sido muito bem recebido e que deve render ainda muitos frutos, já que 100 livros é pouco diante da variedade de material que está disponível no Brasil sobre o tema.

Mais de 4000 exemplares!

O projeto de Marley Dias apareceu nos jornais e ganhou visibilidade; a partir daí, doações de livros começaram a chegar em grande número para a estudante e agora o projeto já reúne mais de 4000 livros. O índice online das pesquisas e leituras feitas pela garota, que já estava cansada de não mais se reconhecer na literatura, está disponível aqui!

 

Com informações da Folha de São Paulo.

Isabella de Andrade Autor

Isabella de Andrade é arte-educadora, jornalista por formação e atriz por paixão. "Escrever é um dos poucos vícios socialmente aceitos, permito-me abusar" (Mais em: https://www.facebook.com/ociclorama)