Móveis construídos com livros e músicas

Sobre móveis (re)construídos com livros e músicas

casa

Ouvir e ler sobre Heavy Metal me ensinou sobre literatura. Desconfio ter sido uma das minhas escolas sem cara de escola, talvez porque enquanto eu ouvia tudo que era novo aos meus ouvidos e buscava saber um pouco mais sobre a música em si, me deparei com a mesma matéria-prima nas duas artes, onde passei a me sentir em casa.

Comecei a ouvir Heavy Metal aos meus 16: chegava em casa da escola e ligava o rádio na 96 Rock antes de aquecer o almoço que minha mãe deixava pronto. Naquele tempo eu também comecei a ter a mania de ler ouvindo música, mesmo sem prestar tanta atenção na trilha sonora mas pelo menos pra me sentir mais à vontade. Para o leitor e ouvinte ingênuo e sem repertório que fui, o pouco estava ótimo.

Eu tinha um inglês razoável fruto de umas aulas do colégio e muito videogame. Ia caçando palavras na músicas, tropeçando em dúzias desconhecidas, e a medida em que envelhecia e buscava mais repertório achei músicas cujos temas vieram de livros, e foi como se eu pudesse desenhar um grande painel de como os meus gostos se encontravam. Eu estava ainda mais em casa com essas descobertas.

Mesmo estando em casa, comecei a ficar chato com os móveis construídos com músicas e livros. Comecei a trocar alguns e relegar outros à sombra, polir outros, essa coisa toda. Enjoei de algumas bandas cuja sonoridade não me dava vontade de ouvi-las de novo após um mês, passei a ignorar outras que eram muito ligadas a um período ou uma sensação específicas demais da minha vida, sem a menor nostalgia e sem me arrepender de as ter ouvido. O repertório mudava, as pilhas de bandas largadas também – e com elas as leituras abandonados.

Parte disso se deve à mudança que (ingenuamente) espero ser natural à qualquer pessoa apaixonada por música e leitura. Me parece normal que escolhas iniciais nem sempre venham por pesquisas criteriosas ou indicações de amigos próximos, quase por curiosidade ou mero acaso. Também acho normal a gente potencializar músicas e livros que parecem nos falar direto à alma, como se fossem capazes de expressar o que nem sempre conseguimos ou com a linguagem que gostaríamos de ter. Ironicamente, tais artes  poderiam expandir nossos mundos e acabam por moldá-lo e confirmá-lo sem a gente perceber. Às vezes é melhor procurar algo novo, pelo menos pra cumprimentar a própria ignorância de cabeça erguida.

Outra parte dessa mudança foi ainda mais pessoal. Por um bom tempo eu lia entrevistas com escritores e com músicos. Nos anos iniciais, os mesmos do repertório ainda menor, a sensação era de deslumbramento e de saber uma parte de um mundo inatingível, ou pelo menos fisicamente muito longe de mim. Com o tempo, isso se tornou apenas mais uma coleção de móveis largados e nem sempre substituídos na minha casa feita com livros e música, talvez por chatice minha com seus fabricantes.

A literatura tem seu coro de esnobes a quem qualquer obra com um mínimo de sucesso financeiro mereça desprezo. O Heavy Metal tem seu coro de quem não perde a chance de massagear o próprio ego por ouvir música fora do mainstream do país onde vive. As duas artes tem gente talentosa e capaz de se reinventar a cada obra, e também gente pernóstica regurgitando o passado – principalmente quando entrevistados por algum jornalista folgado fazendo perguntas no piloto automático do início ao fim. As duas tem sua cota de polemistas gratuitos, do autor dizendo ‘foda-se o leitor’ ao músico metido se contradizendo a cada opinião. Também tem sua cota de gente cuja ideologia parece ter mais espaço do que a produção em si, a guiando e até a deixando em segundo plano; ou uns autores e músicos cujo discurso não passa de um teatro de autoafirmação ensaiada, desses que você lê e não acredita ser verdade.

Abraçar ou abandonar totalmente os móveis desses fabricantes por causa desses pregos seria uma solução radical. Cada um se vira como pode e com o repertório disponível, é o que tem pra hoje – hoje, não pra sempre. Mais de uma vez achei que não entenderia anos atrás as leituras e audições atuais, talvez por precisar de tempo pra absorver tudo com um pouco de distância até fazer encomendas mais caprichadas, e pode ser o caso de muita gente. E mais de uma vez descobri não ter solução quanto a essa troca de móveis, e passei a estranhar sua ausência.

Walter Bach Author

Colaborador do Homo Literatus desde 2014, demente profissional (vulgo editor) desde 2016.