O beijaflorar dos cavalos de Luiz Ruffato

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Eles eram muitos cavalos,
mas ninguém mais sabe os seus nomes,
sua pelagem, sua origem…

O trecho acima é de um poema de Cecília Meireles. O verso que abre a estrofe dá título a um dos maiores romances brasileiros dos últimos anos: Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato.

Depois de mais de dez anos de seu lançamento, ocorrido em 2001, este ano o livro ganhou uma reedição pela Companhia das Letras, trazendo, assim, uma nova possibilidade para leitores que corriam atrás deste romance do autor mineiro.

Luiz Ruffato, que recentemente ganhou os holofotes da mídia ao discursar na Feira de Frankfurt, tenciona apresentar com seus cavalos (falo do romance) um retrato do que seria um dia em São Paulo. Especificamente, nove de maio de 2000. O texto se contrapõe num tecido narrativo que traz em seus nós à junção de setenta textos, alternando entre estilos como: poesia, música, discurso publicitário, listas aleatórias até uma prosa inventiva, que mescla a simplicidade da fala da rua com a habilidade narrativa do autor – não poucas vezes usando de um fluxo de consciência elegante (Joyce, Woolf e Faulkner mandaram lembrança).

O autor, que já foi operário da indústria têxtil, pipoqueiro, atendente de armarinho e jornalista, salta entre textos mais acessíveis ao leitor e outros que soariam extremamente difíceis a quem se atem apenas ao enredo.

Há, por exemplo, o episódio oito, chamado Era um garoto, cujo texto de aproximadamente duas páginas não contém uma única vírgula. É o fluxo de consciência duma mulher que se refere ao filho, seu “jesuscristinho”, mas que ao mesmo tempo conduz o relato da vida dum garoto, culminando numa tragédia não especificada.

Outra coisa que chama a atenção nos cavalos de Ruffato é a alternância de recursos visuais gráficos. Num dos episódios mais chamativos do livro, número dez, O que quer uma mulher, o autor usa dos itálicos para sinalizar os diálogos, os quais não são marcados por parágrafos. A narração, por sua vez, mantém-se de forma comum. Já a história trata da revolta duma mulher com a passividade do marido que, segundo ela, quer apenas continuar dentro da sala de aula, dando suas aulinhas:“você esconde sua covardia e falta de vigor atrás do seu inconformismo intelectual”.

Mas não só de linguagem e jogos de palavras são feitos os cavalos de Ruffato. Salta das páginas um sentimento humano cruel por ser tão real, como se o autor se esquivasse de suas próprias opiniões, pois está ocupado apenas em retratar, ou denunciar, a forma como as coisas são. Vê-se muito forte tal sentido no episódio vinte e seis, intitulado Fraldas, no qual um segurança – repetidas vezes descrito como um “negro agigantado, espadaúdo, impecável dentro do terno preto” – é acionado por seu chefe para interceptar um cliente suspeito – descrito como um “negro franzino, ossudo, camisa de malha branca surrada calça jeans imundo tênis de solado gasto”. Acontece a interceptação, um diálogo acalorado, as desculpas, a não aceitação. Por último, o segurança exclama uma frase sobre seu chefe, no caso de ter acertado a respeito de suspeitar do cliente, que dá um novo sentido à expressão humor negro, se me permitem o trocadilho vagabundo.

Os cavalos de Luiz Ruffato também proseiam poeticamente, como no episódio quarenta e sete, Crânio, que merece menção honrosa por seu início:

lá da comunidade o crânio é o sujeito mais que esquisito
mas por isso mesmo o mais querido
ele tem dezesseis anos quase um metro e setenta e cinco uns noventa
[quilos
é preto que nem a água preta que escorre no meio dos barracos
os dentes brancos e bons como os de ninguém
e principalmente ele é meu irmão

A descrição de um irmão completamente diferente do outro ganha tons épicos. O narrador, menino do tráfico, não oculta a admiração que tem pelo irmão, que lê de tudo. Cita a vez que roubou um malote de livros só para presentear o irmão, sabendo que ele ficaria feliz. Por outro lado, o narrador não consegue entender quando Crânio lhe explica sobre o traficante estar se aproveitando dos serviços dele (narrador): “porra o crânio este é o mal dele o crânio tem um coração destamanho”.

eles-eram-muitos-cavalos-luiz-rufattoE agora você se pergunta donde tirei o “beijaflorar”, que adorna o título desta resenha. Obviamente, dos cavalos de Ruffato. Mais precisamente, na página sessenta e um, episódio trinta e três, A vida antes da morte, cuja descrição da vida dum velho traz o seguinte trecho: “Há outros filhos: vêm quando se ausenta saúde, beijafloram o cubículo cevando o ódio […]”. É impossível ver um verbo tão formidável quanto “beijaflorar” e não se sentir na obrigação de usá-lo. Gracias, Ruffato.

Na abertura de seu discurso em Frankfurt, Luiz Ruffato indagou: “O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora?”.

Afirmo que ele já respondeu esta pergunta quando escreveu Eles eram muitos cavalos.

Eles eram muitos cavalos
Luiz Ruffato
Companhia das Letras
134 Páginas