O inverno e depois. E depois?

O que fica depois do inverno?

Assis Brasil

Há livros que emocionam pelo conteúdo humano, outros modificam nosso olhar sobre a literatura do autor, há também os que ficam como referência de virtudes estéticas. Mas existem aqueles que, sem excluir nenhum dos itens anteriores, provocam uma espécie de luto quando terminam. É o caso de O inverno e depois (L&PM, 2016), último romance de Luiz Antonio de Assis Brasil, construído com maestria superlativa, em dez capítulos.  Ao lermos as duas últimas frases do romance – Me procure depois do concerto, na praça. Estarei livre – sentimo-nos excluídos de um mundo já todo nosso por direito. E tomo a liberdade de usar o plural porque não foram poucos os leitores com quem dividi, além do encantamento, a saudade após a leitura.

Mas que direito é esse que se ata ao desejo de pertencimento ao mundo romanesco? Seja qual for, suas bases foram planejadas pelo romancista. Por isso, apresento sem demora um inventário mínimo do que acredito sejam algumas causas do encantamento e da saudade, a partir de aspectos exclusivamente literários: o arranjo da história, a coordenação de tempos diversos – flashbacks, a construção e o caráter das personagens e a linguagem, que é exata, conotativa e transbordante de sentido e beleza para contar uma história de amor invencível.

Diferente da quase totalidade de seus vinte livros anteriores, Assis Brasil ambienta O inverno e depois no seu próprio presente (2015-16). O outro livro em que isso ocorre é O homem amoroso (1986). Trinta anos após a publicação dessa novela, o escritor retoma a história de um músico em conflito com sua arte, com seu talento e com o amor. Assim, a história de Julius, violoncelista da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo, em O inverno e depois, pode ser vista como uma variação ampliada do mesmo tema de O homem amoroso.  Lembremos que Assis Brasil foi violoncelista da OSPA por quinze anos. E não por coincidência, a música comparece, de alguma maneira, em todas as suas obras. Neste ponto, apesar de um narrador em terceira pessoa, temos de resistir à facilidade de apoiar a análise de O inverno na autoficção ou na biografia; opção que, em favor da vida do autor, pode gerar reducionismos e obliterar o valor literário do texto. Portanto, deixemos de lado, por ora, o autor e voltemos ao herói.

Julius nasceu em uma estância do pampa gaúcho, quase na fronteira com o Uruguai.  Órfão, terminou de crescer em São Paulo, aos cuidados de uma tia materna, que estimulou sua inclinação para a música. Por volta dos vinte anos, sonhou ser solista e frequentou a escola de música de Würzburg, na Alemanha.  Lá, num momento de inspiração comovida, prometeu a seu professor Bruno Brandt que tocaria o exigente concerto de Dvorak, mas a morte inesperada do mestre, para além da perda afetiva, gerou um revés em sua pretensa carreira musical. Na mesma época, Julius mergulha numa avassaladora paixão, que atendia pelo nome de Constanza – clarinetista, uruguaia e também estudante da escola. A relação amorosa, apesar de não vingar, plantou raízes definitivas em suas vidas. Julius acaba voltando ao Brasil sem cumprir o juramento e com duas grandes decepções: a dúvida sobre o próprio talento e a frustração de um amor que se revelaria irredutível.

Passados trinta anos da experiência Würzburg, Julius vive em São Paulo, casado com Sílvia e leva uma vida afetiva e profissional cômoda e previsível até reencontrar Klarika, colega do tempo de Würzburg. O encontro acaba remexendo com a lembrança de Constanza e sendo decisivo para ele resolver cumprir a promessa de tocar o concerto de Dvorak. Para estudá-lo, opta pelo isolamento de sua estância, local de onde saiu aos sete anos com a família, em situação dramática e nebulosa rumo a São Paulo.

O regresso se transforma numa espécie de acerto de contas com duas etapas de sua vida: a infância na estância Júpiter e a juventude em Würzburg. Dois passados em que o esperam duas mulheres – a meia irmã Antônia e Constanza – e a reconquista de seu talento. Pendências de uma busca tripartida que, não por acaso, corresponde à estrutura do gênero concerto. Coincidência numérica que remete também à relação entre os três tempos em causa: o presente e os dois passados do herói, isolados por abismos que fazem dele um homem fragmentado e sobre os quais terá de estender pontes, para reconquistar a unidade que ele talvez procure inconscientemente.

Tais triangulações entrelaçam os três planos temporais orquestrados pela memória de Julius, sinalizando ainda um quarto regime temporal – o Outrora, que não é propriamente o passado.  No presente do músico, cápsula em que ele isolou as outras duas etapas de sua vida, começam a surgir rachaduras, oferecendo pontes para os outros planos temporais. Alçapões da memória são acionados de forma inesperada, mas também por uma predisposição do herói para atravessar precipícios íntimos de seu mundo afetivo.

A história da viagem ao pampa e a história de Würzburg, por meio de feedbacks pontuais, correm paralelas, sendo ainda pontuadas por lembranças da infância na estância Júpiter, como um terceiro tempo. Essa sintaxe narrativa opera na construção não apenas do herói, mas de todas as personagens com a mesma qualidade, sendo mais um dos méritos do livro. A progressão textual cria um delicado tecido de metáforas e conotações, refratando o complexo perfil psicológico e emocional de Julius como um homem cindido que se reencontrará, de forma metafórica ou simbólica, por meio das pontes que surgem em seu caminho. No final do romance, ele também terá de atravessar uma última ponte para atar ou desatar em definitivo as pontas de seu destino.

Merece destaque também o refinamento da linguagem que, em nada, excede. Há um cuidado com o ritmo da frase, extraindo potencialidades semânticas da língua em cada palavra. O estilo sóbrio e transitar entre o rigor e o apuro do dizer sem dizer, criando uma estética da sutileza. É o caso do erotismo, pois, embora, em certos momentos, a história de Julius e Constanza tenha todos os ingredientes para dar rédeas a tais anseios, nada é explícito. A sugestão pauta inclusive a sensualidade tensa e contida do protagonista tanto em relação aos corpos femininos quanto com relação à música. Nada, porém, é vulgar. As entrelinhas ocultam as motivações que o arrastam para reviver talvez o vórtice das oito semanas finais de sua estada (em Würzburg), nas quais viveu uma exaltação de prazer, desastre e cólera.

E porque a elegância é uma das formas da beleza, o conjunto é eficaz na sedução do leitor. Mas não apenas isso justifica o vazio deixado no final da leitura, quando somos excluídos do mundo romanesco. Lugar para o qual viajamos com o protagonista e onde aprendemos que o tempo tem uma quarta dimensão. Voltamos da viagem com a consciência sobre esse regime especial do tempo que Julius chamou de Outrora, lócus de imagens e de evocações afetivas do passado atadas ao presente e que pertence a todos nós.

Há beleza, há dilemas humanos reconhecíveis com os quais nos identificamos e muitas coincidências. Estas, porém, aí estão apenas para comprovar que, em uma obra com tanta arte, coincidências não existem. Todas são artifícios a comprovar o quanto a verdadeira arte literária sensibiliza e potencializa nossos sentidos.

Por fim, seja pela relativa abertura ou ambiguidade do final, seja por nossa identificação com as buscas do herói, seja pela força que um amor forte e imperecível exerce sobre nós ou por motivos que não foram aqui citados, sentimos saudade desse universo romanesco tão desejável e magnificamente construído. Ao terminar a leitura, queremos permanecer no romance. Ficamos querendo saber o que acontece depois. E depois? Creio estarem aí reunidos alguns dos porquês da saudade.

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Débora Mutter é graduada em letras pela UFRGS; mestre em Literatura Comparada (2001) e doutora em Estudos de Literatura Brasileira e Luso-africanas, ambos UFRGS. Defendeu a tese intitulada Imagens do Século XIX na ficção de Luiz Antonio de Assis Brasil (2008). Desde 2002 é professora na Universidade Luterana do Brasil​, atuando​ na área de Letras graduação e pós-graduação. Tem pesquisa na área de História e suas relações com a literatura e identidade, semiótica, cibercultura e novas tecnologias em suas relações com a literatura. É autora do livro A poética da perseguição em Clarice Lispector e Julio Cortázar (2009) e organizadora dos livros Cem anos sem Machado de Assis (2008); João Simões Lopes Neto: ontem, hoje e sempre (2016) e ​participou como colaboradora no livro  Novos ensaios para a teoria da literatura e das mídias (2012); ​possui artigos e ensaios publicados ​​em revistas especializadas.

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