O nazismo que consola

Nós mergulhamos nas leituras dessas “coisas piores”
Reza a sabedoria popular que até de grandes tragédias se pode tirar proveito, ou ao menos aprender algo com ela. Praticamente todo mundo já se flagrou fascinado por um relato nazista, sem conseguir tirar os olhos da página do livro, ou tenso na cadeira do cinema sem sequer ousar respirar assistindo a O ovo da serpente. Quanto mais ético for o autor, mais elaborada será sua obra, mais difícil de acreditar que coisas horríveis assim possam acontecer, pois nos julgamos tão civilizados! Difícil abandonar a leitura do Millenium, do sueco  Stieg Larsson ou de A menina que roubava livros, do australiano Markus Zusak. Calam no fundo da alma os relatos autobiográficos e a vida de pessoas reais, como A bibliotecária de Auschwitz e A lista de Schindler
A pergunta é por que isso acontece.
Não é possível mais ser ingênuo e ignorar que a humanidade está destruindo o planeta. Séculos atrás, ainda poderíamos duvidar: será mesmo que o Homo sapiens causou a extinção dos mamutes? Que os maoris comeram todas as moas? Hoje, basta-nos olhar o céu e nos depararmos com a ausência da noite – onde estão o negror,  as luzes da Via Láctea, os sons dos grilos, as mariposas?
Quem lê os jornais – quem não lê fica do mesmo jeito informado pela televisão ou pelo Facebook – sabe que a tragédia de Mariana foi o bioma perdido, mais do que a enxurrada de lama. Chernobyl. Fukushima. É desastre após desastre, todos provocados pela arrogância e negligência humana.
Por toda parte, apesar de os políticos gananciosos se recusarem a ver os efeitos nocivos do uso de agrotóxicos, de transgênicos, das mudanças climáticas, da mortandade dos animais, das lutas acirradas pelos grupos de ecologistas para garantir espaço para outras formas de vida, tão merecedoras de espaço, ar, água e luz quando nós.
Em sua obra O mal estar da civilização, Freud aborda o tema: existe uma incompatibilidade básica entre ser feliz e ser civilizado. O homem ou está seguro ou está livre. Ou estamos integrados à natureza ou degeneramos. A ciência é um péssimo substituto para a religião. Quanto o homem afasta-se do culto ostensivo de um deus, começa a cultuar outra coisa na sombra: o dinheiro, o poder, a fama. A mitologia, como bem sabem filósofos e psiquiatras,  não é um monte de historinhas fantasiosas, é a representação simbólica da realidade psíquica poderosa presente em cada ser humano. O estado laico não segue mais as ordens de um Papa, segue Afrodite, Pluto, Marte, sem se dar conta das correntes que o prendem a estes poderosos “deuses” mitológicos tão presentes a atuantes dos primórdios da História até nossos dias.
É nessa época negra em que a terra se desertifica, os polos derretem e toda espécie de catástrofe parece iminente, que a literatura sobre os acontecimentos na época do nazismo nos fisga. Sim, a realidade é horrível, é horrível, tão horrível que não conseguimos imaginar algo pior – porém, não precisamos imaginar,  basta ler os relatos dos que sobreviveram aos campos de concentração, enfrentaram, sofreram e escaparam aos monstruosos Mengeles, nos oferecendo seu testemunho  de fé: “Sossegue, há coisas piores”
Nós mergulhamos, aterrorizados, na leitura fascinante dessas “coisas piores” e retornamos revigorados, pois, ao nos identificarmos com os Fredy Hirsches e os Schindlers  da II Grande Guerra, ganhamos esperança no futuro, resgate do nosso lado bom e consolo pelas agruras do presente. Esses são os elementos presentes nos contos de fadas que a criança dentro de nós quer receber: esperança, resgate e consolo.
O psiquiatra Bruno Bettelheim, em seus estudos sobre a ação dos contos de fadas no psiquismo infantil, demonstra que ler não é um ato passivo, é um processo mental ativo através do qual nosso psiquismo estuda, modela, compara e escolhe linhas de ação que promovem o crescimento da alma. Escolhemos o enredo que queremos viver, os personagens que desejamos ser, os recursos que desenvolveremos para nos nortear. Em suma, o que uma boa história nos oferece são elementos para reescrever nosso roteiro pessoal.
Em cada fase da vida, a pessoa escolhe o tipo de literatura mais adequado – dos contos de fadas passamos às jornadas dos heróis, aos vampiros, aos romances de amor, aos policiais, aos livros técnicos, aos textos espirituais e filosóficos etc. Cada seleção de histórias tem seu papel a cumprir.
Quando o horror é muito, contudo, quando o sofrimento grita à flor da pele, do que precisamos mesmo é de histórias reais, de pessoas comuns que se fizeram fortes e desafiaram o destino. Quando o planeta se encontra em total Babel, eis que o que nos consola, quem diria, são as histórias do tempo dos nazistas.

Sonia Rodrigues Author

Sonia Regina Rocha Rodrigues é escritora e médica ,idealizou o jornal "Um Dedo de Prosa" e foi co-editora da revista literária "Chapéu-de-Sol", que circulou em Santos/SP de 1996 a 2001. É autora dos livros de contos "Dias de Verão", (1998), É suave a noite (2014), Coisas de médicos, poetas, doidos e afins (2014) Em 1996, participou da fase regional do Mapa Cultural Paulista com o conto "A Auditoria", representando a cidade de Bebedouro. Sua monografia "A Importância da Cultura Para a Formação do Cidadão" foi utilizada pelo prova do Enem em 2011.

Comments

    Wérlen M. Dos Santos

    (Abril 19, 2017 - 5:03 pm)

    Nossa! Que texto bonito.

      Sonia R R Rodrigues

      (Abril 20, 2017 - 7:06 pm)

      Que bom que gostou, Werlen. Obrigada.

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