O outro Michelangelo

As pinturas de Michelangelo da Caravaggio retratavam a vulgaridade dos comuns

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Era sexta-feira, dia de festa. Nenhuma celebração específica a não ser a de ser sexta-feira. Na Trafalguar Square eu me despedi da minha sobrinha que, com viagem de volta ao Brasil em dois dias, precisava se abastecer de chaveiros e ímãs da minha cidade maravilhosa. No trem, em direção ao centro de Londres, eu tinha um plano: ver a exposição do Rodin na deslumbrante Somerset House. Mas ali na Trafalguar Square, um painel gigantesco avisava que a poucos passos de mim estava a impressionante mostra “Beyond Caravaggio”. Estiquei os olhos até o Big Ben para conferir se tinha mesmo tempo pra tanto luxo. Claro, era só abrir meu celular e ver a hora, mas quem recusaria ver os ponteiros do Parlamento se estão tão disponíveis. Meu único compromisso era não correr para conseguir ver tudo de uma vez. As mostras vão até o início do ano que vem. Se não visse tudo agora, voltaria. De certo eu seria capaz de tamanho sacrifício!

A National Gallery e a Somerset House não são distantes uma da outra. Pelo contrário. É pegar o Strand e bater as pernas. Assim, acabei criando uma ideia de par das duas mostras, aparentemente tão desconectadas em estilos, técnicas, mídia, tempo, época.

Acabei entrando no prédio principal da National Gallery. Estava no lugar errado. A exposição sobre e de Caravaggio era na Sainsbury’s Wing, um anexo mais moderno acessível pelo lado de fora, perto da Embaixada do Canadá. Eu percebi o meu erro depois de pedir informações para Janice, uma senhora que se aposentou e veio trabalhar na National Gallery como aquelas pessoas que guardam as salas. Aqueles tipos que vêm te dizer que fotos são proibidas e que você está muito perto do sensor que vai disparar o alarme de segurança. Janice está ali há vinte e cinco anos. Ela me recomendou esperar fevereiro para ver o que eu estava ali pra ver. A exposição estava muito procurada. “Até fila!” Lembrei-me das três horas só de espera no MAM do Rio de Janeiro para ver obras de Goya. Certamente que a mostra sobre Caravaggio estava sendo uma das mais visitadas da National Gallery, mas com todo respeito, a Janice não sabe sobre fila. Agradeci cordialmente pelo conselho e segui em direção ao anexo Sainsbury.

As paredes escuras, quase pretas recepcionam os visitantes colocando-nos dentro da dramaticidade tão visível de Caravaggio. A mostra não é de obras suas. Não exclusivamente. É uma exposição que consegue enriquecer ainda mais a significância de Caravaggio exatamente por incluir artistas que tiveram nele a motivação necessária para produzir suas próprias obras primas. Interessantemente não permanecemos unicamente na Itália. A influência de Michelangelo Caravaggio foi tão forte que ultrapassou as duras fronteiras do período em torno dos anos 1590 e 1600, quando o artista esteve muito ativo com uma produção intensa e decisiva para sua inserção inquestionável na História da Arte. Usualmente, a originalidade merece destaque.

Quando nos colocamos frente a frente com um quadro do artista, não é difícil detectar o fascínio gerado pela sua representação do cotidiano tão realista. O uso da técnica chiaroscuro, tantas vezes determinante para identificação da autoria das obras do italiano, foram exaustivamente copiadas, implementadas e na minha modesta opinião, aperfeiçoadas por, quem sabe, Jusepe Ribera. Lo Spagnoletto, como era chamado, produziu algumas das obras mais comoventes do período conhecido como caravaggiesco. Sua representação de Santo Onofre, permanentemente exibida na Galeria Nacional da Irlanda, é uma das pinturas mais emocionantes de todos os tempo. O contraste da luz e o do escuro, inspirado pelo mestre Caravaggio dá a dramaticidade tão pungente que delimita o corpo velho e flácido do santo em detalhes de rugas e músculos frouxos. É o tempo passado, estético, visível diante dos nossos olhos.  A carne crua, carne bem passada com uma emoção inquestionável. A pintura em óleo, exposta permanentemente na Galeria Nacional da Irlanda, tem uma doçura que só a velhice é capaz de promover, aqui, através das mãos em reza do santo em um naturalismo impecável.

A mostra dá exatamente a dimensão da importância de Michelangelo da Caravaggio durante quase dez anos quando foi a celebridade da vez pelo círculo artístico europeu. Seus seguidores entenderam e aplicaram as técnicas do mestre estabelecendo e celebrando a originalidade de pintar detalhes do cotidiano, a vida comum, a vulgaridade dos comuns. Como se a grande e definitiva glória estivesse de fato, na capacidade de reproduzir o mínimo, o que se esconde, o que se intimida, o imperceptível aos olhos desatentos e distraídos com o cenário grandioso, com o envolto. Mas com a técnica e a sensibilidade de Caravaggio, o músculo que se contorce, os dedos que se apertam, os ombros que se deslocam passam a movimentar a cena com uma comoção e movimento raros. O pequeno passou a ser o grande espetáculo.

Ah, sim. Eu cheguei à Trafalgar Square para ver Rodin também. Mas dizem que alegria demasiada é covardia. De certo, beleza demais cansa.

 

Destaques da mostra:

Boy bitten by a lizard – Michelangelo da Caravaggio.

Saint Sebastian tended by the Holy Irene and her servant  – Nicolas Régnier.

David and Goliath  – Orazio Gentileschi.

 

Livros recomendados sobre Caravaggio:

A morte da Virgem, de Milo Manara  (Editora Veneta), livro em quadrinhos sobre o mestre da arte no século XVII.

Caravaggio – A life sacred and profane, de Andrew Graham-Dixon (Penguin Publishers).

Ficção com personagens como o próprio Caravaggio e o tempo turbulento e violento que viveu em Roma.

Nara Vidal Author

Nara Vidal é mineira de Guarani. Formada em Letras pela UFRJ, é Mestre em Artes pela London Met University. Mora na Europa há 14 anos. É autora de infantis, juvenis e seu primeiro adulto, “Lugar Comum” (Editora Pasavento), já em reimpressão, foi lançado em abril deste ano. Nara já participou como autora palestrante em diversas feiras literárias como a Flipoços, Clim, FNLIJ e Cheltenham Festival. Premiada com o Maximiano Campos e com o Brazialian Press Awards, Nara tem textos publicados em revistas como Germina, Mallarmargens e Confeitaria. Escreve sobre dança e artes para publicações inglesas. Lança este ano o livro de contos “A loucura dos outros” pela Editora Reformatório.