Os anos de chumbo em Cabo de Guerra e uma conversa com Ivone Benedetti

Em Cabo de Guerra, Ivone Benedetti traz o movimento dos dois lados na Ditadura Militar

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Ivone Benedetti chega com seu novo romance, Cabo de Guerra. Tradutora, doutora em literatura e com três livros publicados, ela traz em Cabo de Guerra uma narrativa que se passa nos anos de ditadura militar no Brasil, com um livro narrado por um personagem que, depois de inundar-se na militância, põe-se a serviço da repressão ajudando os militares com preciosas informações e enrascadas. Com uma visão diferente daquela normalmente relatada, Ivone surpreende.

 

Temos um personagem narrador sem nome, que é um dos pontos mais marcantes de sua identidade. Ele escolhe o lado da traição, talvez o mais fácil no momento, apesar de aparente dúvida sobre sua falta de escolha. Como foi fazer um livro contando o lado do traidor e não do herói?

De fato, o ponto mais marcante de sua identidade é a falta de identidade. No primeiro sentido da palavra identidade, ele deixa de ser identificado por um nome. E a narração em primeira pessoa facilita a tarefa de criar personagens inominados. Mas há outro sentido de identidade: o de se identificar com algum grupo, com alguma causa. A esse personagem, justamente, faltam os dois sentidos da palavra identidade. Quanto a não contar a história de um herói, penso que uma história de herói íntegro e inteiriço só pode ser panfleto ou parábola. Não me interessa nenhum dos dois gêneros. O herói só me interessa na medida em que seja possível identificar (voltamos à palavra) suas facetas não heroicas, suas debilidades. Uma mesma pessoa pode agir heroicamente em certa circunstância e cometer atos covardes ou vis em outra. A complexidade é nossa marca.

 

Por que escolher um ponto de vista de um “delator”, uma vez que, após esses anos de pós-ditadura o que mais se fala hoje são dos heróis (mortos ou não) ou dos torturadores e o assunto dos “cachorros” não ser tão abordado como os outros?

É um assunto espinhoso. Como lidar com personalidades escorregadias como essas, de indivíduos que mesmo depois de quarenta anos precisam viver na sombra, porque são execrados pelos inimigos e desprezados pelos protetores? Os infiltrados reais daquela época, com exceção de umas poucas figuras notórias, hoje ninguém sabe quem são. Por isso, desde o começo, não tive a intenção de criar uma individualidade, uma história intimista ou um personagem realista. Esse personagem é mais símbolo que indivíduo, mais amálgama que núcleo, ainda que canalizado por uma história individual, por um enredo, por uma trama. O livro narra as peripécias da vida de um indivíduo, mas, se você olhar de perto, verá que por trás dele há elementos mais gerais, mais coletivos. Mas não cabe a mim analisar meu romance. Cada leitor há de interpretá-lo de modos diferentes. Assim espero.

 

Como é falar de ditadura 31 anos após seu fim, em um 2016 em que passamos por um colapso político, e que infelizmente ainda está repleto de pessoas que vangloriam os pesares do totalitarismo e repressão de minorias?

É preciso notar que esse livro foi escrito em plena vigência da democracia, numa fase de crescimento ainda, quando não tínhamos provado as maiores agruras da crise econômica. Mas, a esse respeito, há duas coisas que eu gostaria de dizer. A primeira é que quem viveu aqueles anos de chumbo, fazendo oposição àquele regime de força, fica marcado para sempre por aqueles acontecimentos. Então, mais cedo ou mais tarde, eles acabam vindo à tona. Muitas pessoas acham que é excessivo falar da ditadura, que já chega, já se falou demais. Mas, enquanto há chaga, há necessidade de falar. Por que se fala e escreve até hoje sobre a perseguição e o extermínio de judeus durante a Segunda Guerra? É excessivo? Não. Enquanto houver resquícios dos acontecimentos traumáticos, é preciso falar deles, porque o silêncio em torno de um trauma não é saúde, é doença. A segunda coisa que quero dizer é que, no fundo, nunca acreditei na robustez de nossa democracia pós-ditadura de 64. Sempre me pareceu que os venenos instilados pelo autoritarismo nunca tinham sido debelados, e que um dia surtiriam seus efeitos. Só não imaginava como seriam esses efeitos, nem que meu livro seria lançado num período como este. Quanto à outra parte da sua pergunta, sobre os saudosos da ditadura, eu diria que se trata de uma minoria. Felizmente. Não podemos ser sonhadores. A verdade é que sempre haverá quem louve regimes totalitários, por mais sanguinários que sejam ou tenham sido. Está aí o exemplo dos neonazistas. A realidade sempre será interpretada de maneiras discrepantes, quando não opostas, ainda que nem todas as interpretações sejam válidas. Meu personagem é um bom exemplo disso, para voltar ao livro.

 

Por fim, ainda somos uma sociedade com uma enorme cicatriz dos anos de chumbo. Escrever sobre esse período carrega um peso e uma importância muito forte. Como foi o processo criativo para trazer Cabo de Guerra ao papel?

Foi difícil por várias razões. Primeiro, porque assumi uma voz masculina. Segundo porque essa voz em primeira pessoa era de um personagem com o qual eu não gostaria de cruzar. Terceiro, porque precisei desenterrar alguns defuntos. Quarto, porque não quis ser panfletária, quis fugir ao lugar-comum, quis escapar da dicotomia, justamente inserindo no meu personagem todos os elementos da dualidade. Não foram poucas as dificuldades, como vê.

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Quem quiser saber um pouco mais sobre o livro temos a resenha disponível aqui.

Dayane Manfrere Author

Comunicóloga como primeira formação se aventura agora no mundo das Letras. Colunista e revisora no Homo Literatus (as vezes também traduz). Escreve seus pensamentos no Enquanto a Chuva Caí e tem uns contos publicados por aí. Uma Shakespeareana sem cura, que ama Poe, Wilde e Tchekhov.