Por que devemos ler os clássicos (mas não respeitá-los)

Os clássicos são livros que todo mundo deve ler pelo menos uma vez na vida, mas o que são? E devemos gostar deles sempre?

os clássicos

Você sabe ou já parou para pensar para que servem os clássicos?

Há quem diga que são os livros indispensáveis. Já outros afirmam que são o que há de melhor na Literatura. Outros ainda afirmam que são as obras primordiais da humanidade.

Mas quem está correto?

Muita gente já pensou sobre assunto: Jorge Luís Borges, Umberto Eco, Harold Bloom, Machado de Assim, Ítalo Calvino, entre outros.

Ítalo Calvino, por exemplo, em Por que ler os clássicos, cita uma lista de 14 razões para tanto. No fim, porém, ele diz que devemos ler por que os clássicos estão ali e nós, aqui. Por que não lê-los então?

Isso não significa, nas palavras de Calvino e nas nossas, que devemos amar os clássicos. Visão crítica sobre o tema é importante, e todos temos o direito de tê-la, não acha?

Continue lendo e sabia por que lê-los.

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Em primeiro lugar, o que são os clássicos?

Há muitas formas de se definir o termo, mas, no geral, significa que são as obras mais importantes de um determinado grupo. Entenda, dissemos as mais importantes, não as melhores.

Fixar o que é bom dentro de uma cultura significa defini-la, assim como seus valores. Os clássicos estão aí para tanto. Quando afirmamos que Machado de Assis é clássico, dizemos “isto é a nossa cultura”. Da mesma forma, ao negarmos ou não Paulo Coelho, fazemos o mesmo movimento.

 

Mas quem escolhe os clássicos?

Parece difícil descobrir, mas a resposta está na nossa cara o tempo todo.

Dentro do grupo dos leitores há os que têm mais poder como em qualquer outro grupo. Assim, os leitores com poder (professores universitários, escritores, editores, entre outros), dizem este(a) autor(a) é, este(a) não, e por aí vai.

Conforme seus gostos e interesses, durante séculos, eles decidem o que se deve ou não ler. Chamamos os escolhidos de clássicos.

 

E os clássicos são sempre os mesmos?

Definitivamente não.

A melhor forma de mostrar como os clássicos são variáveis é falarmos da história e da recepção de William Shakespeare.

Falar do bardo inglês e não dizer que suas peças são os clássicos maiores de teatro parece absurdo hoje. No entanto, até o romantismo, o autor foi relegado ao segundo plano – e quase ao esquecimento.

Foi preciso duzentos anos e escritores românticos alemães para que seu valor fosse estabelecido. Os clássicos até então eram bem diferentes.

E quem era clássico nesse tempo?

Depende de onde você estava. Na Inglaterra, Chaucer dominava, por exemplo. Muitos outros nomes que não temos ideia hoje também figuravam como grandes exemplos.

Porém, as ideias foram mudando e com elas os clássicos.

A cada nova geração, novas formas de pensar surgem, o que demanda novos modelos. Dessa forma, os clássicos mudam constantemente, indo e voltando conforme o movimento das ideias.

Da mesma forma que Shakespeare é clássico hoje, daqui a cem anos pode não ser mais.

 

Então por que ler os clássicos?

os clássicos em língua inglesa

Ler os clássicos, sejam os de hoje ou os de ontem, nos ajuda a entender como chegamos aqui.

Se queremos ter um painel maior sobre o mundo das ideias hoje, os clássicos sempre surgem como forma de compreender de que maneira partimos do ponto A ao ponto B. Lê-los significa seguir discussões de ideias de séculos ou mesmo milênios. O que é certo? Por que devemos fazer isto? O que se considera bom? Por que se considera tal fato bom hoje? E por que não era assim há 100 anos?

Lembre: os clássicos – ou melhor, as obras – ficam enquanto as pessoas que os conceberam partem. Sua leitura nos conecta com pessoas muito distantes no tempo e também com suas ideias.

Se elas formaram nossa forma de pensar, não seria ruim conhecê-las, não é?

 

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Se os clássicos são importantes, por que não respeitá-los?

Caso tenha chegado até este ponto do texto, você já sabe a resposta e talvez nem tenha percebido.

A história de qualquer grupo no transcorrer da história se faz com rupturas. Coisas que hoje nos parecem óbvias e normais já foram novidade e incomodaram muita gente. O modelo para Shakespeare estava na Grécia Antiga. Hoje, para nós, está em Shakespeare.

Para melhorar, precisamos romper, caso contrário, do que adianta ler?

Podemos ler qualquer coisa que esteja às nossas mãos, conforme queiramos. Não há regras ou etiquetas para a leitura. Podemos conhecer Shakespeare e não gostar (sabe-se lá por que). Isso não tira o valor da obra nem da nossa ação. Pelo contrário, na contradição do que se espera e do que compreendemos que a leitura se faz mais interessante. Na desleitura, segundo Harold Bloom.

Tomo aqui um exemplo pessoal para que tudo fique claro.

Eu não gosto de Ulisses, de James Joyce. Acho chato, intelectualizado demais, longo demais, pedante a um nível insuportável. Li porque queria conhecer e sabia da sua importância para a Literatura. Nunca vou deixar de reconhecer porque ele é considerada um clássico hoje, mas não gosto. Se pudesse, gritaria aos quatro ventos.

 

E então como ficamos com os clássicos?

Como sempre ficamos, lendo-os.

O que devemos ter em mente ao ler os clássicos é que sua importância não deve significar qualidade para nós. Podemos ler Flaubert e achar chato ou não gostar de Balzac. Temos o direito de discordar que Machado de Assis é bom ou que Drummond seja nosso melhor poeta.

Todo leitor tem o direito a desrespeitar os clássicos como queira.

No entanto, e isto deve ficar claro, discordar não significa tirar seu lugar enquanto clássico. Voltando ao Ulisses, de James Joyce, o fato de não gostar dele não tira seu valor dentre os clássicos. Antes, reforça uma posição minha frente ao que ele representa. No fundo, negá-lo acaba por reforçar o seu valor.

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Caso ainda não esteja convencido a ler os clássicos para desrespeitá-los, Ítalo Calvino, citando Emil Cioran lhes dá um bom motivo:

Enquanto era preparada a cicuta, Sócrates estava aprendendo uma ária com a flauta. ‘Para que lhe servirá?’, perguntaram-lhe. ‘Para aprender esta ária antes de morrer’

José Figueiredo Autor

editor-chefe do homoliteratus, podcaster (30:MIN), mestrando em teoria da literatura (UFRGS), autor de "Há um tubarão na piscina" (2018)