Os conflitos em Dois Irmãos, de Milton Hatoum

O conflito apresentado em Dois Irmãos vai muito além de uma trama familiar. Ela nos traz a história do Brasil e de Manaus, envolta em conflitos sociais

Divulgação

A obra de Milton Hatoum, Dois Irmãos, teve nas últimas semanas uma nova adaptação, dessa vez audiovisual, em forma de série e exibida à noite na Rede Globo. Em um país com hábitos de leitura tão escassos e de números do analfabetismo tão altos, a adaptação é um presente à obra literária, que ganha uma nova difusão, traz um autor manauara à frente do horário nobre e leva a trama até onde ela, talvez, não pudesse chegar.

A adaptação seguiu à risca o livro, uma das poucas que trouxeram tanto a essência da obra. Diálogos e cenas foram mantidos, e Nael narrou a série com falas diretamente do livro, sem adaptações. Trouxe ainda a poesia, melancolia e dor da obra, deu cor às letras. Uma adaptação que não decepcionou, mesmo com tanto choro.

A história de Dois Irmãos conta o conflito entre os gêmeos Yaqub e Omar, filhos de Zana e Halim. Yaqub nasce saudável e forte, mas Omar tem dificuldade respiratórias. Junto do fato vem uma diferença de cuidado que faz Omar, o Caçula, ser o filho mais zelado por Zana, enquanto Yaqub recebe mais cuidados de Domingas, índia que é empregada da família. O casal tem ainda Rânia, a filha mais nova. Os gêmeos são completamente diferentes, mas o enredo apresenta um reflexo que vai muito além da personalidade deles e uma diferença entre bem e mal.

A família de Zana e Halim mora na mesma casa em que Zana morava com o pai viúvo, Galib. Parte de sua exigência para casar com Halim. Após o casamento, o pai de Zana morre. Temendo sua solidão, mesmo com o marido presente, ela pede a Halim três filhos. Apesar de atender o desejo da esposa, ele não queria filhos, sabia dos riscos.

O problema entre os irmãos se agrava em uma sessão de cinema no porão da vizinha, quando Yaqub senta-se com Lívia, uma garota que ambos galanteavam. Com ciúme, Omar fica longe, aguardando, e quando a luz é acesa e o casal é visto aos beijos, Omar ataca o irmão com uma garrafa quebrada, atingindo seu rosto, marcando-o com uma cicatriz muito mais profunda que apenas na pele, e que marcaria muito além dos gêmeos. Halim decide mandá-los para o Líbano, pra se entenderem. Zana não permite que Omar vá, mas deixa Yaqub viajar sozinho, acreditam que a distância possa amenizar a rivalidade.

 

“Foi Domingas quem me contou a história da cicatriz no rosto de Yaqub. Ela pensava que um ciuminho reles tivesse sido a causa da agressão. Vivia atenta aos movimentos dos gêmeos, escutava conversas, rondava a intimidade de todos. Domingas tinha essa liberdade, porque as refeições da família e o brilho da casa dependiam dela.

A minha história também depende dela, Domingas.”

 

Cinco anos se passaram até a volta de Yaqub, que chega sem lembrar direito como se fala português, com roupas velhas e sem bagagem. Durante o tempo no Líbano não respondeu a nenhuma das cartas da mãe e a família só sabia notícias do filho por meio de amigos ou parentes. O reencontro dos meninos é pesado, doído. Yaqub um moço ainda mais quieto do que quando partiu, sem modos e nitidamente incomodado com todos. Omar, o garoto divertido, escandaloso, mimado e sem responsabilidade.

O decorrer da narração mostra a evolução de Yaqub e a irresponsabilidade de Omar, conta a vida dos gêmeos até a fase adulta, os conflitos, reencontros, separação e angústia.

Os irmãos nunca se reconciliaram. O ódio foi mais forte que os laços de sangue. Quase um Esaú e Jacó. Mas mesmo sendo esse o conflito central da história, que por si só já torna a obra impecável e foge dos clichês da história dos gêmeos idênticos e diferentes, há outros temas que rondam as personagens e que não podem ficar de lado.

O primeiro deles é Domingas. Ainda menina, é levada para casa de Zana, recém-casada, pra ajudar nos trabalhos domésticos. Ela é índia, mas depois de ficar órfã do pai é separada do irmão, retirada de sua casa e vai para o orfanato. Aprende a ler, escrever, limpar, cozinhar, a ser católica. Teve sorte em ser levada pra casa de Zana e Halim. Mora num quarto pequeno e quente fora da casa de onde ouve os gritos do quarto do casal e dos macacos da vizinha. Não parece receber qualquer salário, é meio empregada e meio escrava, mas grata de estar pelo menos fora do orfanato. Nunca desobedece aos donos, e estava disposta ajudar qualquer hora ou dia, ou por qualquer motivo. A rotina da casa dependia dela. Cuida de Yaqub enquanto a mãe cuida de Omar, e cria uma ligação forte com os gêmeos. No fim de sua adolescência engravida, e é Halim quem mais ajuda no cuidado desse filho bastardo.

Nael é o filho de Domingas, e de algum dos gêmeos. Talvez por um acordo entre Domingas e Zana e Halim, a índia nunca revelou o nome do pai ao filho, que se sentia perdido, angustiado sem origem. Nael quem narra a história a partir do que vê e do que Halim e Domingas lhe contam. É recluso, mas luta da maneira que pode por seus direitos. Trabalha na casa pra ajudar a mãe, fazendo o que quer e o que não quer. Se torna o companheiro de Halim no fim de sua vida, quem também o incentivou a estudar, assim como Yaqub. Não é tão submisso quanto a mãe, mas fica na casa por causa dela.

O bairro, ou pelo menos a rua onde mora a família de Halim, é composto de imigrantes. Vindos de diferentes lugares, mas focados principalmente no Líbano. São bem adaptados ao clima e rotinas de Manaus, aderiu a sua cultura muito da cultura brasileira. É um local de classe média. Todos estão bem vestidos, não lhes falta recurso, festas acontecem sempre. Mas apesar disso, a história narra os demais lugares de uma Manaus talvez desconhecida, como a cidade flutuante, as casas de dança, as escolas… A cidade cresce, ferve, de maneira desordenada, junto com a história. Cidade essa que por sua evolução também pode ser considerada uma personagem do livro. Até mesmo a chegada dos seringueiros aparece sutilmente na narração. Podemos acompanhar a evolução do lugar, que é preenchido por chuvas diárias. São narrados os detalhes da cidade, as árvores típicas, frutos, detalhes da água, o rio negro, da temperatura da chuva. Uma maneira literária de conhecer um pouco sobre Manaus.

No decorrer da narração, a história do Brasil, do mundo e de Manaus aparece. O fim da segunda grande guerra, a ditadura militar. A volta de Yaqub do Líbano é comemorada, mas o jantar é pautado pelo fim da segunda grande guerra e os sofrimentos causados por ela. Durante os anos de batalha, a escassez é presente na família, e detalhes como a falta de luz à noite são apresentados. Outro fato histórico bastante presente no enredo é a ditadura militar, que tem como ponto principal a morte do professor de francês, também amigo de Omar.

A linguagem. Com um ritmo fácil e poético e repleto palavras tipicamente brasileiras a história se desenrola. Pra quem quer conhecer, entender e se aprofundar na literatura brasileira contemporânea esse é um livro ideal. Há ainda uma mistura sutil com palavras em árabe, que deixa a narração mais envolvente.

Há ainda um outro ponto que merece destaque na história: Rânia. A filha mais nova e irmã dos gêmeos é uma mulher forte e batalhadora. Lutou por seu direito de não casar, contrariando, principalmente, a vontade da mãe. Abandonou seu primeiro ano na faculdade e resolveu cuidar do comércio da família. Durante os períodos de dificuldade, principalmente no período da ditadura, foi ela quem manteve-se forte para sustentar a família. Aprendeu a vender, comprar e negociar. Foi também ela que, diferente dos irmãos, ajudou o pai e a mãe, foi presente e viu quase como espectadora toda a batalha dos irmãos. Nunca recebeu grande destaque, os protagonistas da família eram os gêmeos. Mas foi uma personagem essencial pra história.

A narrativa poética de dois irmãos nos mostra muito da origem de Manaus, do apego familiar e dos conflitos. Não foi à toa que a obra de Milton Hatoum ganhou tantas adaptações e prêmios. Escrita com uma poesia própria, uma história pesada, trazendo elementos tipicamente brasileiros, misturando as culturas e falando de alguns tabus ainda atuais e trazendo discussões esquecidas. A obra foi publicada em 2000 e ganhou um Jabuti em 2001. Teve adaptações que foram desde quadrinhos à TV.

Irmãos que se odeiam, mãe excludente, pai despreocupado, pais despreparados, índia domesticada, filho mimado, filha solteira, filho frio, guerra, separação, militarismo, a vida em São Paulo, o crescimento de Manaus, a cidade flutuante, a chuva, a casa, ressentimento, um bastardo. Dois irmãos é uma obra prima da literatura brasileira, traz muito mais do que uma história de dois irmãos que se odeiam: nos ensina um pouco sobre o amor, família, história e exclusão.

Dayane Manfrere Author

Comunicóloga como primeira formação se aventura agora no mundo das Letras. Colunista e revisora no Homo Literatus (as vezes também traduz). Escreve seus pensamentos no Enquanto a Chuva Caí e tem uns contos publicados por aí. Uma Shakespeareana sem cura, que ama Poe, Wilde e Tchekhov.

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