Os estudos shakespearenos de Ricardo Cardoso

“Eu dormia a um quarteirão da casa do Shakespeare. Espairecia na margem do rio em que ele ia”

O bardo admirando os estudos sobre suas obras
O bardo admirando os estudos sobre suas obras

Nesse ano de 2016 comemoramos 400 anos da morte de William Shakespeare, nascido em abril do ano de 1564 e que, no mesmo fatídico mês de abril do ano de 1616, há quem diga no mesmo dia do aniversário, morreu. Ator, dramaturgo e poeta, ele é tido como o maior escritor do idioma inglês e o dramaturgo mais influente do mundo. Shakespeare nasceu na cidade inglesa de Stratford-Upon-Avon, situada no condado de Warwickshire, ao sul de Birmingham.

Durante esses quatrocentos anos muito se falou, especulou e estudou sobre o bardo. E aqui no Brasil não é diferente, muitos estudiosos e especialistas brilham a cada novo dia e ganham destaque no mundo, inclusive na própria cidade de Stratford, polo turístico e de estudos sobre Shakespeare.

Para comemorar esses quatrocentos anos, entrevistamos um desses estudiosos: o historiador Ricardo Cardoso, também ator (há pouco tempo interpretou Romeu em uma adaptação de Romeu e Julieta que ele mesmo traduziu e dirigida por Ivan Feijó). A pesquisa dele é baseada no impacto da guerra Anglo-Espanhola (1585-1604), um dos eventos mais importantes na sociedade de Shakespeare, sobre as peças do poeta. Esta era uma visão até então não muito discutida, mas que ganhou relevância e a atenção de um dos maiores estudiosos do teatro elisabetano no Shakespeare Institute, o mais importante centro de estudos shakespeareanos, localizado na cidade onde o dramaturgo nasceu e cresceu.

1 – Você acabou de voltar de um período em Stratford Upon Avon, como foi a experiência de estudar Shakespeare na cidade onde ele nasceu?

Começou em 2014, quando me inscrevi para duas conferencias no Reino Unido, uma aconteceu no Shakespeare Institute e outra feita pela British Association Conference, que aconteceu na Escócia; esta última é a mais importante do mundo. Fui aceito nas duas e tinha um período de 40 dias entre uma e outra. Foi a primeira viagem que fiz para Stratford. Depois de realizada a conferência, decidi ficar em Stratford estudando no Shakespeare Institute durante os 40 dias que faltavam para a próxima na Escócia, foi então que participei de um ciclo de leituras dramáticas e conheci o Martin Wiggins, o maior especialista mundial na horizontalidade do teatro elisabetano, contei sobre minha pesquisa aqui no Brasil e ele ficou curioso com o assunto, pedi para que ele fosse meu orientador, e ele aceitou.

Voltei para o Brasil e fiz os processos para voltar para Straford e fazer um estágio oficial com a orientação do Martin, o que aconteceu graças ao financiamento institucional precioso da FAPESP. O que foi uma grande vitória, pois, diferente da linha de pesquisa do Martin, eu dissertava sobre a influência da Espanha e a guerra nas peças de Shakespeare. A vitória não foi só por ser aceito, mas também conseguir ajudar um pouco na pesquisa dele e até mudar sua opinião sobre alguns aspectos da obra do poeta em relação àquela guerra.Ricardo_Cardoso

Na cidade pude viver momentos únicos. Eu dormia a um quarteirão da casa do Shakespeare. Espairecia na margem do rio em que ele ia.

Estive lá no alto verão, o dia era longo. E viver essas pequenas diferenças em relação ao nosso dia a dia me fez entender muita coisa sobre as peças. Em Romeu e Julieta, por exemplo, tem uma passagem em que a Julieta reclama do pouco tempo que durou a noite que teve com Romeu; quando você vive essa questão climática entende a profundidade dessa ação, no verão o dia é longo, mas a noite é curta, e Julieta realmente passou pouco tempo com Romeu devido à noite curta que tem no verão. São pequenos detalhes que começam a fazer um sentido diferente.

2 – Você interpretou Romeu durante sua estadia, certo? Como foi interpretar Romeu em terras inglesas?

Nessa primeira vez em que fui pra lá, fiz amizade com o pessoal do Shakespeare Institute. Em uma festa, eles sabiam que eu já tinha feito o Romeu aqui no Brasil e me pediram para fazer um trecho lá, em português mesmo. Fiz um pouquinho, eles adoraram ouvir em português, acharam muito musical.

Logo depois fui visitar a casa do Shakespeare; quando saí no quintal, ouvi os primeiros versos de Romeu e Julieta, era um grupo encenando algumas cenas. Quando acabou, fui dar parabéns aos atores, expliquei que também tinha feito o Romeu no Brasil. A senhora que fazia a ama me convidou para fazer ali mesmo no quintal da casa uma cena, queriam ver o meu Romeu e também uma tradução em português, interpretaria em conjunto com a Julieta que faria a cena em inglês; fizemos a cena do balcão. Foi emocionante e pude ver os turistas meio sensibilizados, sorridentes, com a Juleita falando em inglês e o Romeu em português.

Alguns dias depois, a Royal Shakespeare Company faria a abertura de festival de verão, que acontece todo ano em estilo sarau. A organizadora de um dos palcos ouviu sobre um Romeu na cidade que encenava em português (risos) e decidiu o convidar para fazer o Romeu no seu festival. Nunca imaginei que faria o Romeu numa abertura de festival de verão da Royal Shakespeare Company, muito menos na casa dele, são daqueles momentos que a gente nunca esquece.

3 – Você foi visitar o túmulo de Shakespeare?

Sim, e enquanto estive lá fiquei um tempo observando, a pia batismal fica a 2 metros do túmulo, fiquei pensando na poesia do que é a vida, a dele estava em dois metros entre a pia batismal que marcou seu nascimento e o túmulo, em dois metros… há um aspecto metafísico naquele espaço.

Mas o lugar que de fato mais me marcou foi o rio (a cidade é cortada pelo rio Avon), foi onde Shakespeare brincava, caminhava. E foi ali, observando as crianças brincando e os casais de adolescentes namorando na margem do rio em um domingo à tarde, que entendi mais um pouco de Sonhos de uma Noite de Verão, pude entender melhor a atmosfera que ajudou a gerar a peça, aquelas fadinhas brincando, o erotismo no ar.

Outro momento da viagem que me marcou muito foi na véspera da festa de abertura desse festival de verão da Royal. Eles fizeram uma festa para abrir o festival e ela acabou por volta de uma da manhã; não queria voltar para casa, então comprei uma cidra e fui caminhar, seguindo o caminho na margem do rio; cheguei até a igreja, o terreno é envolto por um cemitério; era madrugada, já um pouco bêbado, tudo escuro. Senti um vento passar sibilando, meio espectral, as folhas sussurrando, a torre ali na frente e aqueles túmulos no chão. Pude me sentir ali no início de Macbeth quando as bruxas aparecem. Mais uma vez, foram os pequenos detalhes e situações que me fizeram refletir e entender um pouquinho mais a fundo a concepção de algumas peças.

4 – Sua pesquisa é baseada hoje na relação dos personagens de Shakespeare com a Espanha, certo? Além de um estudo sobre os índios americanos e Caliban, durante sua estadia em Stratford, como conseguiu enriquecer sua pesquisa? O que trouxe de novo?

Minha pesquisa é orientada pela Dra Iris Kantor na USP e financiada inteiramente pela FAPESP, sem o qual não seria possível alcançar esses resultados, é envolta com o conceito de guerra e paz com a Espanha; naquele momento a Inglaterra era quase uma província e estava em pânico porque a Espanha era muito mais forte, a inquisição estava no auge, eles temiam tudo que poderia vir de uma conquista católica na ilha protestante. Sobre o equilíbrio de força militar entre elas, é mais ou menos como se hoje os Estados Unidos atacassem o Paraguai, eu estudo como Shakespeare e os outros dramaturgos representaram dramaticamente esses sentimentos coletivos de pânico e coragem, vontade de enfrentar sem medo o inimigo acontecendo junto com a vontade de fazer a paz.  Esse é o foco principal da minha pesquisa hoje e é o que está me dando projeção entre os estudiosos internacionais, por incrível que pareça, ninguém estudou isso até hoje. A história do Caliban e sua correlação com os índios brasileiros é apenas um braço dessa pesquisa, mas quero me aprofundar nesse assunto. Basicamente, na época o Brasil era governado por Felipe II, rei da Espanha, que governava também Portugal e automaticamente o território que hoje é o Brasil.

O que mais me instigou foi o fato de que Shakespeare, para escrever Caliban em A Tempestade, leu o ensaio de Montaigne sobre os índios tupinambás da Baía da Guanabara, chamado de O Canibal. Claro que Caliban não é diretamente descrito como se fosse um índio brasileiro, mas há essa camada na composição que também nunca foi estudada, é o segundo foco da minha pesquisa que é inédito, o que mostra a força que nós brasileiros temos nesse campo de estudos porque não temos o olhar meio viciado, tudo é novo pra gente.

Quando falamos de Shakespeare, todo mundo lembra do que é estudado lá fora, mas precisamos olhar para o que é produzido no nosso próprio país, afinal, Shakespeare olhou pra nós antes de nós brasileiros olharmos pra ele (risos).

5 – E por fim, o que tem surgido de novo no Brasil para o estudo de Shakespeare?

Hoje eu cito 3 casos:

Regis Closel, que é uma das pesquisas que mais ilumina o Brasil hoje, ele estuda a composição da peça Sir Tomas More, onde temos uma importante referência à reforma inglesa, é dele a primeira tradução para o português.

Paulo Gregório, que participa de um estudo inédito no Shakespeare Institute. Ele foi aceito imediatamente e o próprio diretor do Instituto é seu orientador. Sua pesquisa é sobre o impacto que as encenações de Beckett tiveram sobre as encenações das peças de Shakespeare na Inglaterra.

John Milton, que é professor da USP. Ele estuda as adaptações das peças de Shakespeare no Brasil. Ele atenta-se à encenação no Brasil e ao redor do mundo.

Também vale ressaltar a Iniciativa do Ronaldo Marin de criar o Instituto Shakespeare Brasil , e juntar os estudiosos e professores, além de lançar livros com artigos de diferentes estudiosos. O livro de comemoração aos 450 anos de Shakespeare, inclusive, contou também com artigos de dois professores do Shakespeare Institute.

Além disso, o Brasil precisa aprender a olhar para aqui dentro. Estamos em um momento de desconstrução, de trazer as peças de Shakespeare, fazer novas traduções, adaptações…  Estamos mais do que nunca discutindo gênero nas peças do poeta e entendendo o quão belamente ele tratou dessa questão no palco em um momento tão peculiar na história da Inglaterra.

Precisamos agora perceber o quão autônomos somos e o quanto temos a contribuir com nossa sensibilidade e ginga com os estudos praticados lá fora; eles, nas principais instituições, foram os primeiros a perceber nosso potencial. Estão muito animados com esse novo olhar, e gratos.

Dayane Manfrere Author

Comunicóloga como primeira formação se aventura agora no mundo das Letras. Colunista e revisora no Homo Literatus (as vezes também traduz). Escreve seus pensamentos no Enquanto a Chuva Caí e tem uns contos publicados por aí. Uma Shakespeareana sem cura, que ama Poe, Wilde e Tchekhov.