Para escritores: não desanimem!

Assim como a arma está para a guerra, a libertação pessoal está para a escrita literária

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Imagem: autoria desconhecida

Isto é sobre os escritores e para os escritores. Serve também como uma admoestação para aqueles que intentam escrever. Porque a maior diferença entre aqueles que já estão inseridos no universo literário daqueles que ainda aspiram a ideia é de que os primeiros sofrerão de doenças mais graves que os segundos. E não trata-se da famosa tuberculose de Álvares de Azevedo, das farras de Ernest Hemingway ou qualquer outro autor boêmio, tampouco da loucura de Nietzsche ou da depressão de Kafka, Virginia Woolf e do mais polêmico Pessoa. Trata-se das doenças de responsabilidade, se ironicamente fizermos correlação com os crimes. É que somente os que criam podem ter essas patologias.

Uma delas, eu intitulei como a ‘doença das ideias falhas’. Inicialmente, aquele que escreve sente-se extremamente eficaz, contente com seus resultados, das ideias desenvolvidas, da singularidade das coisas escritas. Escreve quanto pode, tornando-se um literal fantasma das noites. Esquece de comer, de beber e por vezes, em casos graves, de se higienizar. Passados esses primeiros sintomas, adentra-se na segunda fase da infecção. É o período de descanso profundo. Achando que já produziu o suficiente, quer ‘aliviar a mente’. Não se preocupa em novas produções muito menos de voltar ao antigo ritmo de criação.

Mas entendendo-se como escritor, sabe que tem de continuar mantendo o título. É nesse estágio que provavelmente se diagnosticará com a enfermidade. Não lhe vem inspiração alguma. Nada. Nem para uma frase. Nem para um micro conto. Nada, nada. Por mais que tente, não produz nem o necessário para uma frequência baixa. Se desespera, enlouquece freneticamente. Chega dizer que nem mais escritor é.

A partir daí, tenta se remediar. Coisas caseiras: muda de sala, vai para uma biblioteca, quer férias, tudo isso para voltar a enxergar as coisas como um escritor as enxerga: além da sensibilidade comum.

A última etapa da ‘doença das ideias falhas’ é obviamente a cura. Caso o autor retorne naturalmente ao seu ritmo de escrita e de captação de ideias pelas experiências de vida, pela visão de mundo, o ciclo se encerra, podendo reincidir ou não. Caso essas novas ideias do autor seja, segundo ele, viciosas, de cunho genérico e popular, repetidas demais, ele cai noutra debilidade. Esta já mais citada pelos críticos e analisada anteriormente: a síndrome da página em branco, o bloqueio criativo ou também conhecida como ‘a mais temida das doenças’.

É aquilo de escrever, escrever, parar para revisar e ter de eliminar tudo, porque tudo até ali fora vazio, sem nexo, um grande desastre! Aqui vai minha mensagem neste caso: não desanimem. Que isto não sirva de fraqueza, que não os impeça de escrever, ao contrário, que sirva de estímulo para novas tentativas, novos estudos e exercícios. Não desistam!

Talvez isto venha acontecer porque nos esquecemos do real motivo de escrever: a afirmação de si. Talvez porque focamos demasiadamente no público leitor e nos prendemos nos meios pelos quais alcançaremos certo reconhecimento. No prestígio que teremos se estruturarmos um texto de um modo ou de outro. Lembrem-se sempre da função que carrega a escrita independentemente do gênero produzido, da transmutação do foco para nosso aprimoramento, de forma que qualquer notoriedade virá naturalmente como consequência da técnica e da disciplina.

Aliás, escrever é mais disciplina do que talento. É uma luta pessoal. Se Cortázar nos dizia que ‘escrever é uma luta contínua com a palavra’, Drummond nos admoestava que ‘lutar com palavras é a luta mais vã’. A luta travada deve ser consigo mesmo. A escrita é a arte do entendimento. Ou seja, uma das saídas para esse mal é mudança de objetivos.

Se atentem a qual tipo de escritor você pretende ser: daqueles que Schopenhauer classifica em A Arte de Escrever: os que escrevem sem pensar, os que pensam enquanto escrevem ou dos mais raros, que escrevem porque pensaram. Essa atividade deve ser resultado de raciocínios estritamente explorados. Se abstenha da percepção do tempo que isso levará e empenhe-se somente. A libertação pessoal está para a escrita o que a arma está para a guerra. E que tomemos as precauções devidas para que nunca venhamos adoecer.

Novamente para os escritores: não desanimem!

Ana Carolina Memória Author

Estudante de Direito pela UNIR e amante de Ciência Política. Lê para escrever, escreve para viver, vive por ler. Prefere Bernard Manin, Rudholph Von Iherin, Stanley Kubrick e Graciliano Ramos. Contista no blog Noah e Hadassa (https://noahehadassa.blogspot.com). E não, minha memória não é tão boa assim.