Para ler mais poesia

O porquê nós devemos ler mais poesia hoje e sempre

Quantos livros de poesia você leu este ano? Você tem o hábito de ler poesia? Qual o seu poema preferido? Eu sei, essas perguntas são um tanto bobas e clichês, no entanto ainda são pertinentes. Conforme avançamos no tempo, cada vez menos lemos poesia em detrimento de gêneros em prosa como o romance, o conto, o ensaio, o relato pessoal etc. Não há demérito nestes outros gêneros, pelo contrário, muito dos grandes textos contemporâneos em prosa têm um quê de poesia. Mesmo assim, ainda não são poesia, são prosa.

Ler um poema pode ser um desafio no começo. Um texto poético no geral é um amalgama concentrado de sentidos, sons e sensações. Ao contrário da prosa, ele tem suas próprias regras – e demanda um tempo de leitura diferente de outros gêneros textuais. O leitor mais do que nunca tem de ser ativo no(s) sentido(s) dado pelas palavras, pelas assonâncias, pelo jogo do que mostra, pelo conjunto interage – e muitas vezes se anulam ou se contradizem propositalmente.

Num mundo de internet, no qual citações, ou quase, de poetas e grandes pensadores afloram, ler o que de fato esses autores pensam e disseram é importantíssimo. Não ser apenas mais um a dar vazão ao vazio de cartazes no facebook com um trecho obtuso de uma origem duvidosa atribuído a fulano e ciclano. Poesia é muito mais do que a quantidade de caracteres que cabem num tweet ou num cartaz de autopromoção. Ela vai além de uma piada-poema tão em moda nas redes sociais – que não tem demérito, mas se torna vazia com a repetição excessiva.

Ler poesia nos torna mais humanos. De certa forma, todas aquelas defesas que levantamos num mundo cada vez impessoal e profissional caem por terra. Nos tornamos mais humanos no sentido de ouvir mais, de tentar entender antes de julgar, de analisar mais e ler nas entrelinhas (eu sei, literatura em geral faz o mesmo). No entanto, a forma com que somos conduzidos a fazê-lo pela experiência poética é mais refinada, mais precisa, e dada a nos obrigar a buscar os pequenos pedaços de sentido que às vezes deixamos passar nos grandes discursos cotidianos.

Além disso, por deus, precisamos tirar alguns estigmas sobre ela. Não, a poesia não pertence ao mundo altamente letrado (Cora Coralina é um exemplo). Poesia não é um mundo fechado com interpretações sedimentadas (isso se chama escola mesmo). E não, tirem as duas piores (e preconceituosas) ideias que a sobrevoam: a ideia de pessoa com tempo (ou vagabunda) e de coisa de mulher (ou homens sensíveis e afeminados). Difícil acreditar que ainda hoje ambas sigam no imaginário coletivo sobre o que poesia é. Ler um poema sim demanda tempo, um tempo que na maioria da vezes temos, mas preferimos delegar a outras coisas pela insistência de um mundo mais fluído e menos reflexivo. O precioso tempo investido em poesia (o verbo é horrível, verdade) se converte em prazer, em conhecimento e outras tantas coisas que o fluxo de tempo superacelerado do século XXI põe em segundo plano. E ainda lembre que se poesia se mantém até hoje, infelizmente, como um jogo de meninos, meninos brancos na maior parte das vezes. Se você ainda supõe que sensibilidade é apenas algo feminino, ler poesia te tirará desse lugar comum. Ser sensível está mais para o humano, indiferente de sexo, cor, gênero, crenças. Se emocionar com as constatações de Manuel Bandeira sobre a vida, com a beleza dos versos de Cecília Meireles, com a dureza do sonho americano nos versos de Bukowski, na singeleza e poder de uma paisagem rural apresentada por Robert Frost, na perversidade mundana de um Baudelaire, no peso do tempo exposto por Borges.

Por um mundo mais humano e sensível, sem pieguice, precisamos ler mais poesia hoje e sempre.

José Figueiredo Autor

editor-chefe do homoliteratus, podcaster (30:MIN), mestrando em teoria da literatura (UFRGS), autor de "Há um tubarão na piscina" (2018)