Plataformas de autopublicação: democratização ou armadilha?

Um ponto de vista sobre algumas consequências da ascensão das plataformas de autopublicação

Se vejo com bons olhos o espaço que a Amazon abre hoje em dia aos autores independentes? Não entrando no mérito de a gigante comercial ao mesmo tempo engolir mercados menores, com seus preços e promoções muitas vezes difíceis de combater  — questão bem mais complexa do que apenas demonizar maniqueistamente a empresa norte-americana — , tem sim um lado interessante, que é o da democratização desse objeto tão pouco valorizado num país com tantos analfabetos (completos ou funcionais). Porém há também um contraponto importante, que é a elipse do papel do editor. Com essa facilidade toda oferecida pela multinacional, o que resulta em muitos casos é um produto (pois, além de tudo, em geral o leitor paga para ter acesso a essas obras) sem o mínimo de polimento editorial desejável.

Sem querer ser elitista ou excludente, mas aqui mais do ponto de vista de um revisor (e escritor), sempre olho com ressalva para um livro se logo noto nele algum erro gramatical muito básico. Claro que sei que em vários casos, inclusive em clássicos, essa subversão é proposital. Estou ciente disso. Não é a tais contextos que aludo aqui, no entanto. Refiro-me a quando esse erro é de fato claramente advindo da ignorância do autor quanto à regra em questão. É para isso que serve o trabalho editorial, para reconhecer esses problemas e, ou eliminá-los, ou até mesmo recusar a publicação de determinada obra. Sim, vejo que isso vai de encontro à democratização mencionada acima, só que às vezes democratização em excesso acaba trazendo consigo essa espécie de efeito negativo. Eu ao menos sou do tipo que conceitua escritor como alguém com um certo domínio da própria língua — o instrumento de seu ofício, aliás. Afinal, quem aqui consideraria bom um escultor que tivesse tão pouca maestria sobre o cinzel que precisasse que outro desse, ao término de seu trabalho, vários retoques para que só então pudesse pôr a obra a público?

Claro que haverá sim os que farão bom uso desse potencial todo que a autopublicação guarda (e não é só a Amazon não, existem já algumas plataformas atualmente), que tomarão todo o cuidado necessário a uma obra de qualidade, desde a revisão do texto à fonte escolhida, porém é mais ou menos como abrir as janelas de uma casa no campo: entra o ar puro, só que este traz consigo uma variedade de insetos. Que pinicam.

Como disse e reitero agora, pois já antevejo várias críticas nesse sentido, sei que existe a subversão da norma culta com propósitos específicos, como, por exemplo, o de retratar um personagem de modo realístico, visto que soaria no mínimo muito pouco natural uma fala como “ontem a temperatura estava demasiado elevada; hoje, entretanto, está mais amena” na boca de um personagem com baixa escolaridade ou até apenas em um ambiente informal, ou mesmo um “para” em vez de “pra”, pelo segundo ter uma marca de oralidade bem maior, ou o uso das já populares silepses, entre tantos outros exemplos. Porém até mesmo para o autor poder fazer tais subversões ele precisa ter algum domínio sobre o solo que irá revolver, sobre a massa que irá modelar. Isso sem nem citar a diagramação, a arte da capa, etc., também muitas vezes negligenciadas. Pode ser fruto – amargo – do fato de haver, ao que tudo indica, mais aspirantes a escritores do que leitores. Quem sabe?

Eu lá em cima falei em elipse, e não foi por acaso, pois o Houaiss nos dá como uma das definições da palavra: “num enunciado, supressão de um termo que pode ser facilmente subentendido pelo contexto linguístico ou pela situação”. No caso do editor, entretanto — apesar de pelo jeito parecer a muita gente —, a supressão não sai tão facilmente impune. E quem paga a pena somos nós.

Pode ser talvez uma visão apocalíptica demais (espero que seja), mas sinto estar assistindo a uma geração leitora quase exclusivamente desses “escritores” autoeditados e que se vê como leitora e que já é muito, afinal poucos leem neste país, não é? e que daqui a pouco estará reproduzindo essa literatura e escrita tão bem trabalhadas e…

 

Obs.: O espaço que a Amazon abre aos autores independentes, referido no começo, é uma plataforma chamada Kindle Direct Publishing, na qual qualquer pessoa pode escrever um livro, salvar em PDF e, com alguns simples passos, publicar e vender lá (e-book). E recentemente a empresa ampliou esse espaço para a venda de livros físicos.

 

Max Leite Author

Tradutor literário, revisor e legendador. Além de poeta, é claro, e leitor incorrigível. Formado em Letras (Português/Literaturas) desde 2008. Criador da página de facebook Poesia Contemporânea Brasileira. Contato: max_traducoes@outlook.com

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