A poesia brutal do cotidiano e o esqueite novo de Paulo Scott

Em muitos poemas de Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo os versos, livres, parecem não encaixar, não dizerem algo no conjunto, articulando-se com individualidade. No entanto, não é um surto dadaísta, e sim algo que tem a ver com a desfragmentação da vida moderna.

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A capa amarela com riscos pretos, como numa espécie de inversão do asfalto. O título, encaçapado numa caixa disforme que lembra, de alguma forma, o desenho animado Rocket Pocket, da Nickelodeon. E ao mesmo tempo em que nada pode ter a ver, a realidade desconexa, o novo livro de poemas de Paulo Scott, Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo, Companhia das Letras (2014), possui uma característica pouco comum em obras poéticas: é despretensioso.

Quando se inicia a leitura de um clássico de poesia, têm-se a sensação de estar ouvindo o tempo todo o poeta sussurrando no seu ouvido: “quero ser imortal! Quero ser imortal”. Este livro de Paulo Scott caminha exatamente no sentido contrário. Por exemplo, desde o primeiro poema, temos a perspectiva de um escritor desgastado, não de um gênio:

a conveniência
de ser apenas alguém estranho
com ideias estranhas
já não é suficiente

[…] então numa festa com uísque de graça
uma bonitinha de cabelo curto
chega bem perto de você
e diz que sente pena de você

diz que você está se tornando
tão patético quanto as personagens
que inventou […]

Ou melhor, substituo o adjetivo, a perspectiva de um escritor cansado. O que me remete a um perfil/entrevista realizado com Paulo Scott pelo Posfácio.

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Pausa para diálogo com um amigo sobre o livro:

“É bom?”.
“Dá uma olhada aqui”.
Folhas remexendo, poemas sendo lidos. Dentro do ônibus.
Minutos depois, o amigo diz:
“Mas parece que o editor ligou pra ele e perguntou se não tinha uns textos sobrando pra publicar. Não tem unidade. Um ou outro texto nem tem estrutura de poema”.
Devolvo:
“Mas é poesia contemporânea, você não quer um soneto puchkiano, né?”.

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Em muitos poemas de Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo os versos, livres, parecem não encaixar, não dizerem algo no conjunto, articulando-se com individualidade. No entanto, não é um surto dadaísta, e sim algo que tem a ver com a desfragmentação da vida moderna.

As peças do livro giram em torno de uma brutalidade do cotidiano, do esgotamento da vida que levamos. Há alguns poemas trágicos, como A garota medalha, uma história que vai crescendo dramaticamente com o avançar dos versos – “a garota medalha/ teve oito empregos diferentes durante esse ano/ mas este ano não acabou”. Mas há também uma beleza das coisas simples, como no poema Lã de vidro, em que o narrador fala sobre uma menina que mora no edifício em frente ao seu, e que aos sábados a vê dançar pela janela, esperando que ele olhe; e quando olha, há um cartaz escrito: “personagem para o teu romance”.

MESMO_SEM_DINHEIRO_COMPREI_UM_ESQUEITEComo já mencionado, é um livro despretensioso, porém ao mesmo tempo ousado, o que parece contraditório de se afirmar, mas, papo reto, uma leitura rápida pode fazer você concordar comigo, ou não.

Mesmo sem dinheiro comprei um esqueite novo
Paulo Scott
Companhia das Letras
2014
78 páginas

Vilto Reis Autor

Autor do livro "Um gato chamado Borges", professor de escrita criativa e apresentador do Podcast de Literatura 30:MIN.