Precisamos falar sobre Raymond Carver

Por que precisamos falar, e ler, o contista americano Raymond Carver

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Tem gêneros na literatura que ficam no segundo plano. Acontece em todos os períodos e em todas as sociedades. Na prosa, o conto hoje é deixado em segundo plano pelo romance. Também devemos admitir que anda mais difícil escrever contos no século vinte e um por vários motivos. É um texto curto, tem uma grande escola com grandessíssimos nomes, técnicas muito bem aplicadas. Escrever um conto, em suma, não é para qualquer um – pelo menos um bom conto.

Raymond Carver talvez seja um dos grandes nomes do gênero do século passado. Americano de classe média, começou a escrever tarde. Também era poeta, o que talvez explique sua predileção por textos curtos e intensos. Seus livros de contos são intensos, com boas histórias e observações sobre o comportamento humano. Se você quer entender as mazelas e limitações da classe média (e aqui digo classe média geral, pois mesmo que ele use personagens americanos, é quase impossível não ver um conhecido aqui, outro ali, até então nos depararmos com nós mesmos), ele é o homem. Seus textos são minimalistas, com poucos detalhes fora do necessário para seguir a trama e a análise (caso não tenha entendido ou queira mais sobre o termo minimalista, clique aqui), o que não significa que sejam rasos. Embora se tenha descoberto que seus textos diretos sejam também influência do seu editor, Raymond Carver faz algo muito difícil dentro de um gênero como o conto: foi moderno e inovador ao mesmo tempo sem perder as bases clássicas do gênero.

Me explico.

Mesmo que seus contos estejam focados em contar uma história, Raymond Carver prefere sempre mostrar, nunca contar. Em contos como Fat (Gordo), no qual o narrador conta a história de um homem gordo que come obsessivamente onde ele trabalha, em nenhum momento é citado a epifania ou o entendimento que ele tem com a cena. Carver prefere que contemplemos a situação e cheguemos a nossas próprias conclusões. Seja mostrando um menino indo pescar ou um casal cuidando o apartamento vizinho, seus contos nos apresentam os pequenos dramas do cotidiano, aqueles que nos fazem chorar no chuveiro, que nos impõe as pesadas questões da vida (por que estou fazendo isso? como fui parar nessa situação? não há outra alternativa? onde foi que eu errei?). Não o leia esperando nada épico ou grandes viradas (nós, a classe média, deveríamos saber há séculos o que significa ser classe média). Precisamos ler nas entrelinhas, caso contrário você vai ficar boiando.

Ele utiliza de narradores em primeira pessoa na maior parte do tempo, o que acaba por ser um mecanismo importante nas tramas. Raymond Carver mostra que as grandes epifanias da vida, dos nossos problemas e limitações, não acontece naquele momento intenso em que estamos agindo ou tentando pagar contas, e sim ao sentar no sofá, olhar para a televisão e pensar no que estamos fazendo. Falando de forma bem pessoal, me identifico muito com seus personagens, principalmente aqueles que não gostei, pois neles vi que não sou o único ser humano a notar as grandes questões da vida nascem do que normalmente compreendemos como banalidade.

Caso queira ter uma ideia comparativa, Raymond Carver se assemelha muito ao tipo de conto feito por Graciliano Ramos, principalmente em Infância: narrativas curtas, concisas, reveladoras. A cada texto lido é impossível não sentir que o autor americano tinha plena consciência de que não estava inventando a roda, bem como Graciliano também sabia. No entanto, ele consegue transferir uma formula empregada por Anton Tchekhov numa nova realidade, enxugá-la ao extremo e ainda sim oferecer uma obra de arte cativante e assustadora. Isso não é para qualquer um.

Uma pena que não há muitas obras traduzidas do autor no Brasil. Caso esteja interessado, há dois livros. O primeiro, Iniciantes, traz os primeiros contos que o autor publicou. No entanto, caso realmente queira ter acesso a obra de Raymond Carver, recomendo ler 68 contos de Raymond Carver. Nele você encontra alguns contos do livro Iniciantes, além das três grandes obras do autor na integra: Você poderia ficar quieta, por favor?, Do que estamos falando quando falamos de amor e Catedral, além de outros contos (se quiser conferir uma amostra do livro, clique aqui). Ambos livros foram publicados pela Companhia das Letras e podem ser uma boa pedida para quem quer ler um bom contista.

Enjoy it.

José Figueiredo Autor

editor-chefe do homoliteratus, podcaster (30:MIN), mestrando em teoria da literatura (UFRGS), autor de "Há um tubarão na piscina" (2018)