Preferencialmente, uivos!

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Não sei em terras lusitanas, mas, no Brasil, todos já sabem que agosto é o mês do cachorro louco. Uivava a cachorra de Dóris, louca que não estava, no cio talvez. Mas a cachorra, coitada, dessa história é a fração milloriana mais ordinária. Deixemo-la.

Dóris tomou o café, saiu mais cedo que o horário habitual e, a caminho do trabalho, foi ao banco. Constava em seu boleto: após o vencimento, pagável preferencialmente nas agências Ludibris. Entrou na agência que ficava no caminho do trabalho, chamada Burlander do Brasil, e, por instantes, Dóris pensou que seria atendida por uma unha vermelha. Precisou de alguns momentos para que o lapso passasse e ela caísse na conta de que havia uma mulher por trás da imensa unha.

— Bom dia! Quero pagar este boleto.

— Não pode ser pago aqui, apenas em alguma agência Ludibris.

— Como não? Aqui diz: “após o vencimento, pagável preferencialmente nas agências Ludibris”.

— Pois então, a senhora não entendeu? Significa que não posso receber aqui. A senhora deve pagar apenas nas agências Ludibris.

— Moça, sei ler, escrever e entender. Você não vai me ludibriar! Preferencialmente é preferencialmente e não exclusivamente. Se o boleto é pagável preferencialmente na Ludibris, significa que posso pagar na Burlander, porque ele não é pagável exclusivamente na Ludibris.

— Veja, senhora, preferencialmente ou exclusivamente é um problema linguístico que não posso resolver, o que posso dizer é que reclame isso na empresa que cobra esse serviço que a senhora precisa pagar. Solicite que deixem claras as condições e local de pagamento.

Saiu Dóris com toda sua revolta e decepção. Jamais imaginara que um problema linguístico e uma falta de clareza de língua portuguesa pudessem gerar aquele transtorno.

Chegou atrasada no trabalho e, passando pelo hall de entrada, encarou alguns dos candidatos que a aguardavam para a entrevista referente à vaga do setor comercial.

— Bom, senhor Justino, seu currículo é muito bom, mas infelizmente, há um quesito que o exclui do processo de seleção. O senhor não fala,  escreve ou entende bem o inglês. É uma pena, porque para a vaga, é primordial o conhecimento da língua.

— Desculpe, senhora Dóris. A senhora fala de que língua? Que língua é primordial conhecer? Se for a língua inglesa, posso não conhecer bem, mas primordialmente conheço o português. Na descrição da vaga dizia: “preferencialmente, que tenha conhecimento de língua inglesa”. Com pesar lhe comunico que preferencialmente é diferente de primordialmente. Esse é um problema linguístico que deveria ser resolvido para não gerar mais confusões. Obrigado!

Saiu Justino com as experiências e a língua primordial embaixo do braço, pensando nessas mazelas que fazem as pessoas escreverem uma coisa querendo dizer outra, o mesmo que há pouco pensara Dóris, tomada da indignação que lhe valera o atraso da hora e da conta a ser paga.

Foi pra casa já cansada das primordiais preferências das modernas vernáculas. Tomou uma xícara de chá e, por mais que tentasse se livrar dessa linguística aplicada, isso não se aplicava, estava difícil.

Lembrou-se da cachorra, que a essa hora não uivava mais. “Seria ótimo se ela uivasse” – pensou. Assim, o barulho a incomodaria mais que os advérbios. “Seria ótimo se ela uivasse! ”.

Mas esse subjuntivo não pôde acontecer. A cachorra estava em outro subjuntivo. Estava sub, embaixo da laranjeira. Estava juntiva, juntinha ao vira-lata que rondava a vizinhança. Foi então que Dóris se deu conta de que teria que, primordialmente, esquecer o advérbio, preferencialmente, em sono profundo e, infelizmente, com juros a pagar por causa do bom ou mau uso da língua.

 

Giselle Lourenço Autor

Giselle Lourenço é professora de Língua Portuguesa e Literatura, revisora de textos e teóloga. É também finalista do Prêmio Sesc de Literatura 2015 - categoria crônicas. Alimenta um canal no Youtube com resenhas de obras literárias, uma página no Facebook com dicas de Língua Portuguesa e um blog com alguns de seus textos, todas essas mídias com o mesmo nome: Tao da Letra.