Quem a gente alcança com o nosso texto

Vamos jogar o romantismo da escrita fora: gostamos que nosso texto seja visto

Levante o chapéu pra eu ver quem é você, leitor
Levante o chapéu pra eu ver quem é você, leitor

Nada como ler o sucesso de um texto após sua publicação. Alguém gostou? É, se esses likes do facebook e retweets valerem alguma coisa – essa moeda sem forma que às vezes nos conta algo do público -, então sim, o texto foi útil pra mais alguém. Podemos ler os comentários, quando existem: um gostou, outro chamou mais dois pra leitura, um terceiro discordou, uma quarta pessoa desceu a lenha, uma quinta passou adiante; nada espetacular, mas leves mostras de interação do público.

Isso quando decide interagir. Você passa parte do dia na frente do computador a trabalho ou estudo, lê uma meia dúzia de artigos por dia pela internet, e às vezes se empolga tanto com o texto sobre aquele seu autor favorito que passa pra frente: olhem o que esse cara postou sobre o Drummond, veja que massa isso aqui do Borges, eu também não sabia disso da Jane Austen, pois é o Hemingway bebia que nem você; as reações são infinitas.

Como também são as interpretações delas. Vai que a pessoa comentou ali só pra causar treta, ou resolveu xingar só porque o autor do texto não concorda com ela. Se lembrou de um amigo que gosta daquele autor, mesmo que tenha se cansado de ler sobre Crime e Castigo ou Anna Karenina, mas e daí, alguém foi lembrado. O texto não diz absolutamente nada de novo pra quem já sabe qual é a de autor x, mas vai que o viciado em James Joyce precisa de um respiro, manda esse texto de um cara que não sacou a manha do Dublinenses pro discípulo dele relaxar.

Imagino que parte do aprendizado da escrita venha de algum relaxamento com esse alcance que um texto pode ter. Por um instante, vamos jogar o romantismo da escrita fora: gostamos que nosso texto seja visto, bem comentado, compartilhado, que mandem pros amigos e conhecidos. Essa exposição faz bem pro ego e dá um incentivo extra pra se alongar naquele autor ou tema que tanto nos interessou. E a mais gente também.

Enquanto redator do Homo Literatus, mais de uma vez me surpreendi positivamente com o alcance que alguns textos meus tiveram, entre eles os de um sobre o romance O Duplo, de Dostoiévski, e outro em que peguei carona em uma frase do músico de jazz Miles Davis para falar sobre a escrita. Tão importante quanto buscar ser crítico com o próprio texto é tentar, como possível, ler o que falam dele (ainda que exista um risco bem alto nisso), e até quem fala sobre ele.

Vou gostar se você curtir meu texto em que abordei um lado B de um autor reconhecido, ou sobre qualquer assunto que eu possa explorar; também vou gostar de saber que parceiros e amigos meus interessados na escrita prestaram atenção nessas linhas frágeis que deixo aqui. E ainda mais se alguém fora desse ‘círculo social’ gostou de um texto, porque ter a constante aprovação dos nossos pares pode ser ilusório – tem o seu lado bom, claro, mas se vier só deles parece que a prática da escrita serve apenas pra alimentar o mesmo tipo de pessoa, sem que a gente se permita ousar e até errar querendo alcançar mais gente além do nosso clubinho.

Sem perceber, talvez a gente não seja tão diferente dos autores que adotamos por mestres. Alguns erraram até consolidar sua linguagem e temática, outros podem ter guiado a continuação de um livro após a leitura de um editor (sobram histórias assim) ou de um público (talvez um cronista, que depende bastante das interações com o público). Apenas para continuar esse caminho depois que o texto estiver solto no mundo.

Walter Bach Author

Colaborador do Homo Literatus desde 2014, demente profissional (vulgo editor) desde 2016.