Eugene Ionesco e a vacina anti-rinocerontite (indicada para especialistas de Facebook)

Considerada um castigo para muitos, a solidão pode ser a oportunidade para que o indivíduo realize uma introspecção sincera. Principalmente numa época em que se exige que saibamos de tudo, que estejamos sempre felizes e conectados.

Se você tem um mínimo de sensibilidade então já deve ter percebido que há cada vez mais rinocerontes pelas ruas. Rinocerontes? Sim, como naquela história de Eugene Ionesco: toda cidade se transforma em paquidermes menos o desleixado Berénguer.

O enredo pode parecer sem sentido à primeira vista, mas a “rinocerontite” simboliza o embrutecimento das pessoas. Muitos são os autores que tem apontado das maneiras mais criativas possíveis esse fenômeno da sociedade contemporânea.

Difícil imaginar que na França de 1959, quando a peça foi escrita, as pessoas já viviam na defensiva, mas uns poucos anos antes o fascismo e o nazismo tinham se espalhado pela Europa, inclusive forçando que Ionesco abandonasse sua Romênia em 1938.

O próprio dramaturgo é quem explica a inspiração para a obra:

“Lembrei-me de que no curso de minha vida tenho ficado muito impressionado pelo que podemos chamar de correntes de opinião, sua rápida evolução, seu poder de contágio, que é o mesmo de uma epidemia de verdade.  Repentinamente as pessoas se deixam invadir por uma nova religião, uma nova doutrina, um novo fanatismo”.

Eugene Ionesco

Apesar de ser mais evidente em regimes totalitários como o fascismo, a “rinocerontite” vai além deles. Sob o rótulo de “correntes de opinião” cabe uma infinidade de manifestações de adesão irrefletida. Duvida? Consulte a rede social mais próxima de você.

Suponha que um tópico polêmico apareça na sua timeline. Não faltarão aqueles que discordarão do assunto sem ao menos saber realmente o motivo. É como se fosse um reflexo, uma reação mecânica, um espasmo rinocerôntico.

O outro é sempre olhado com ressalvas, enquanto nós mesmos nos poupamos do mesmo tratamento. No Brasil um dos maiores bodes expiatórios recentemente têm sido a classe política. Em parte há razão para isso (a nossa História que o diga), mas não deixa de ser também muito confortável que não tenhamos culpa em nada do que está acontecendo.

A dificuldade em argumentar é outro sintoma da doença. Debater amparando-se na lógica e no respeito deveria ser parte da profilaxia, mas Ionesco tem dúvidas quanto a Razão. Não que a irracionalidade seja melhor, mas para ele a Razão tem das suas armadilhas.

Há na peça de teatro um personagem que é o oposto de Berénguer: Jean. Ele é extremamente polido e inteligente e por isso se considera superior aos demais. Contudo, quando os primeiros indícios da doença se manifestam ele refuta tudo isso para salvar a sua pele.

Trata-se de uma figurinha carimbada que marca presença nas ocasiões mais variadas. Você já o viu naquele parente que ostenta o carro importado, no professor que corrige os erros de português dos alunos humilhando-os, no nerd que desqualifica aqueles que não consomem as mesmas séries que ele, etc.

Salvador Dali & Rhino, 1956

Jean usava a Razão para desumanizar e ao fazer isso estava desumanizando a si próprio. Do que valeu toda a erudição e toda a etiqueta no final das contas? Na realidade, ele se tratava de um rinoceronte enrustido. Berénguer em sua vulnerabilidade era muito mais humano que ele.

Como no Teatro do Absurdo não existem heróis, o sobrevivente lamenta sua condição. Afinal, preservou sua originalidade, mas e agora? Com quem conversar? Com quem se divertir? Pelo menos como rinoceronte não se sentiria tão sozinho.

Aqui vai uma curiosidade: Ionesco adorava a solidão. O dramaturgo confessou em uma entrevista que mesmo sendo muito carente de calor humano (graças ao impacto das duas grandes guerras mundiais) buscava sempre preservar algumas horas apenas para si.

Considerada um castigo para muitos, a solidão pode ser a oportunidade para que o indivíduo realize uma introspecção sincera. Principalmente numa época em que se exige que saibamos de tudo, que estejamos sempre felizes, sempre conectados.

Afinal, o que você é quando ninguém está olhando? Até que ponto suas verdadeiras necessidades se confundem com as expectativas que imputam a você? O que você quer realmente?

São perguntas que ninguém mais pode responder por você. São questões que podem evitar incontáveis frustrações futuras (e igualmente incontáveis horas no analista). São uma vacina contra a “rinocerontite”. Claro, o tratamento tem de ser constante, afinal a ameaça de contrair a epidemia é constante.

Vinicius Alves do Amaral Author

Doutorando em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Mestre em História Social pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e professor da rede estadual de ensino do Rio de Janeiro. Aprendiz de Pantaleão nas horas vagas.