Às vezes, ensinar um romance parece uma traição à literatura – Artigo de Orhan Pamuk

Orhan Pamuk fala sobre os desafios de ensinar literatura quando se é também um romancista.

*Artigo de Orhan Pamuk traduzido para o Homo Literatus.

Sou professor de literatura comparada na Universidade da Columbia (EUA). Em todo começo de semestre, se eu planejo discutir um dos meus romances em sala de aula, conto para eles uma história antiga sobre escrita e ensino de literatura.

É uma anedota bem popular sobre Vladimir Nabokov: em 1957 ele foi convocado para ser professor de literatura russa na Universidade de Harvard. Mas não foram todos que se contentaram com a ideia. “Se literatura russa for ensinada por grandes nomes russos” disse o linguista Jakobson a seus colegas “então devemos colocar elefantes para ministrarem aulas na faculdade de zoologia”.

Meus alunos riem. Então volto à questão principal: “nesse semestre eu estarei aqui como um elefante, e tentarei dar meu melhor como professor”.

Elefantes não sabem o que os fazem ser elefantes. Eles apenas são. De maneira parecida, os romancistas não conscientemente se ocupam do que fazem quando escrevem seus romances. As coisas que eles querem descrever e expressar quando escrevem, o território que eles desejam cobrir, podem ser muito diferentes dos elementos em que os leitores e estudantes se concentram. O autor de um romance nem sempre é o melhor indicado para interpretá-lo e, eventualmente, outros podem se familiarizar mais com o texto do que ele.

Os meus melhores alunos na Columbia são conscientes desses paradoxos, então não tenho que me prender muito ao assunto, mas aviso que: “Eu não estou falando com a minha capacidade de professor, mas com a de um elefante na sala de aula.”. Eu posso explicar, por exemplo, que uma das razões para escrever Meu nome é Vermelho é que até meus 22 anos eu queria ser pintor, mas falhei. “Com esse romance”, eu digo, “eu tentei construir uma narrativa inspirada no contraste entre o que o pintor prevê e a maneira como as mãos às vezes tomam vida própria”.

“Esse contraste é similar à diferença entre ser um romancista e ser um professor que ensina a arte do romance”. O que nos leva à questão que John Berger, ele próprio romancista, define como “formas de ver”. Ou sobre meu outro romance Neve. Eu tenho que dizer “Como um elefante, eu posso lhes dizer que tudo o que acontece com o protagonista Ka durante as primeiras duzentas páginas é o mesmo que aconteceu comigo quando fui para a Turkia na cidade de Kars em 1999, onde o livro é ambientado. Eu queria escrever um romance em que uma nação inteira é contida, assim como os romances de Graham Greene em países pobres e problemáticos.”.

Embora eu tente resistir, tenho estado atento nas aulas – até mais que meus alunos – para ver meu “romance de uma nação” como introdução às normas culturais e particulares aflições da Turquia, Oriente Médio e dentro do mundo mulçumano. Porque me interesso em “teoria” e no campo de estudos culturais, e algumas vezes eu termino teorizando algo sobre meu trabalho.

“Nessa passagem, o autor quis explorar a história das ruas e lojas de Istambul” ou “Na sociedade islâmica, onde homens e mulheres raramente interagem antes do matrimônio, meninos e meninas desenvolvem uma língua alternativa com uma gramática própria de olhares silenciosos, franzir de testas, momentos de imobilidade cheios de questões como “Você gostaria de outra almôndega?”.”.

Mas, quanta ênfase deve ser colocada na história da Turquia, a transformação de Istambul, ou o islamismo, para que a lógica dos meus romances seja acessível aos meus alunos? Depois de toda uma vida lutando contra a repressão policial na literatura, dedicar um tempo na sala de aula aos contextos sociais ou ironias políticas em vez de focar nos nuances literários me faz sentir-me como um traidor. Se ensino sobre meus romances, Ana Karenina, Mrs. Dalloway ou O Vermelho e o Preto, às vezes sinto que não importa o que eu faça, estou realmente traindo a verdadeira literatura – um sentimento que permanece em mim, como uma espécie de mágoa.

Dez anos como docente me mostram que a melhor maneira de evitar essas ansiedades e contradições é afastar-me da teoria e do contexto social e reencontrar as complexidades do próprio texto com meus alunos – sendo isso no meu próprio trabalho ou de outra pessoa. Então, no início de cada aula eu dedico uns minutos para examinar as leituras.  “Vamos analisar o que tem acontecido aqui”, eu vou dizer “porque você acha que Ka está organizando um encontro no Hotel Ásia?”, “Qual a chave dos eventos dessa parte que podemos discutir?”, “O que você classifica como o tema principal dessas páginas?”.

Como a maioria dos homens turcos de classe média, eu tenho uma aura autoritária em mim, e embora eu goste de ensinar pelo diálogo, não é sempre que posso resistir e apenas dizer aos alunos os fatos sobre minhas histórias. No entanto, me admiro também como estudante, lembrando das estranhezas do romance que escrevi anos atrás, e me pergunto se eu mesmo quis dizer alguma coisa.

Sempre que estabeleço uma teoria e um contexto social em favor de uma “leitura mais próxima” dos romances, buscando em suas sutilezas e simetrias internas, eu descubro o quanto eu tenho perdido sobre meus próprios livros. Um dia, antes de começar a aula, um aluno me viu frenético com Neve e brincou “É isso que acontece quando você não se preocupa em fazer uma leitura antes da aula!”. Ele tinha aquela expressão provocadora e perniciosa que às vezes vejo aos alunos quando eles observam pequenas coisas em meus romances do qual eu nem tinha percebido, ou quando não concordam com o que eu digo sobre a lógica de um romance e um ponto de suas contradições e ambiguidades. Mas anos depois de refazer a leitura do meu próprio trabalho, meus alunos me ensinaram a ficar tranquilo com aquela expressão em seus rostos: talvez eles estejam vendo um elefante na sala de aula como um professor.

Orhan Pamuk ganhou o prêmio novel de Literatura em 2006. Esse artigo foi traduzido do turco por Ekin Oklap (LA Times) e do inglês para o Homo Literatus por Dayane Manfrere.

Dayane Manfrere Author

Comunicóloga como primeira formação se aventura agora no mundo das Letras. Colunista e revisora no Homo Literatus (as vezes também traduz). Escreve seus pensamentos no Enquanto a Chuva Caí e tem uns contos publicados por aí. Uma Shakespeareana sem cura, que ama Poe, Wilde e Tchekhov.

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